Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Avanço do mar: destruição costeira se alastra no País

Casos como o da Praia da Macumba, no Rio, são comuns de nordeste a sudeste do Brasil

Roberta Jansen, Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo, Ricardo Araújo e Celso Calheiros, especiais para o Estado

18 Outubro 2017 | 05h00

RIO E SÃO PAULO - A prefeitura do Rio prevê começar nesta quarta-feira, 18, as obras emergenciais de contenção do calçadão da Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste da capital fluminense, que continua afundando. O desmoronamento provocado pela força das ondas começou há cerca de 30 dias e já atingiu 600 metros da orla. A erosão e destruição das estruturas costeiras têm se repetido em diferentes regiões do País, evidenciando os problemas estruturais e a falta de preparo para lidar com a ação natural. 

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De acordo com a Defesa Civil fluminense, não há risco imediato para os prédios e casas da região, mas parte da ciclovia, quiosques e coqueiros já se perderam.

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O problema é antigo e conhecido. Em 2000, um relatório do Coordenação de Programas de Pós-graduação e Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Coppe, já alertava para os riscos e sugeria alterações. Nada foi feito. Em 2005, uma obra de ampliação do calçadão e de construção da ciclovia também não levou em conta os alertas. Agora, a prefeitura tentará reverter o desmoronamento.

“Trabalhamos durante todo o feriado, viramos madrugada, refizemos o projeto e hoje estamos iniciando as obras em caráter emergencial, extremamente necessárias para finalmente conter a erosão”, disse o secretário municipal de Conservação e Meio Ambiente, Jorge Felippe Neto, que assumiu o cargo há uma semana. A obra foi orçada em R$ 14,5 milhões, informou a secretaria por nota, com contratação de empresa em caráter emergencial. 

Especialista em engenharia costeira da Coppe e um dos responsáveis pelo diagnóstico feito na região há 17 anos, Paulo Rosman afirmou que as obras na orla foram feitas sobre a chamada zona dinâmica da praia. Trata-se da faixa de areia que desaparece quando há ressaca, normalmente no outono e no inverno, e ressurge na primavera e no verão.

Rosman explicou que, durante décadas, o canal foi drenado e a areia retirada do local levada para outros lugares em vez de ser devolvida à praia. “Isso reduziu o estoque de areia da praia, aproximando ainda mais o litoral da rua.”

Guarujá

Há dois meses, o pedreiro Rumildo Ângelo Messias, de 70 anos, já havia retirado os guarda-sóis e as cadeiras de praia do quartinho onde mora na Praia do Tombo, no Guarujá, temendo o que viria acontecer dias depois: o cômodo ruiu. Telhado, duas paredes e parte do piso foram derrubados pela força do mar, bem como parte de um barranco de areia, que deixou em evidência as raízes da vegetação. Parte do acesso da rua para a praia também foi danificado.

O pedreiro morou a vida toda no mesmo terreno à praia do litoral de São Paulo que reúne três casas, uma das quais a atingida pela ressaca. Segundo ele, a faixa de areia do local costumava se estender por mais de 20 metros, permitindo a circulação de banhistas e dele próprio, que vendia lanches na praia até a última ressaca tomar a região.

Nessa terça-feira, 17, o espaço da areia estava tão restrito, que reunia apenas surfistas. “É a força da natureza cobrando a conta”, diz Messias. 

Também no Guarujá, a Praia do Góes enfrenta mudanças. Morador da região desde 1969, o aposentado Valter Novas, de 67 anos, lembra que o mar costumava ficar mais distante há 30 anos. “Aqui era muito diferente, só tinha pescador, o pessoal andava de canoa, as caiçaras cortavam lenha em uma área que foi tomada pela água”, conta.

No caso da Praia do Góes, o principal motivo das mudanças, apontado por moradores, ambientalistas e pela prefeitura do Guarujá é a dragagem do Porto de Santos. “A situação está descontrolada, fora do balanço natural”, comenta o oceanógrafo e diretor do Instituto Maramar, Fabrício Gandini. 

A Companhia Docas não respondeu aos questionamentos da reportagem na noite desta terça-feira. No caso da Praia do Tombo, a prefeitura do Guarujá afirmou estar firmando uma parceria com universidades da região para identificar se o fenômeno é efeito da erosão

Nordeste

Esses efeitos abrangem todo o País, de acordo com o professor da Universidade Federal do Espírito Santo Dieter Muehe. Organizador do livro Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro, ele estima que mais da metade do litoral do Norte e do Nordeste brasileiros sofre erosão, chegando a um avanço do mar de cinco metros por ano em determinadas praias, número que seria de 20% na região Sudeste. 

 

A situação preocupa no Rio Grande do Norte, onde o avanço do mar tem causado estragos e ameaçado vilas de pescadores em 60% das praias do Estado, cujo litoral se estende por 440 quilômetros. As praias de Muriú, Touros, São Miguel do Gostoso, Graçandu e Caiçara do Norte, no litoral norte do Estado, estão entre as mais atingidas pela erosão costeira. Nelas, os moradores travam duelos contra a força do mar construindo muros de pedras e concreto cada vez mais largos e altos, em uma tentativa de manter as casas de pé. 

Os municípios do Recife e de Olinda, em Pernambuco, tentam barrar o avanço do mar com uma linha de pedras no litoral. Mais ao norte, em Paulista, está o que o professor Pedro Pereira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) classifica como o pior exemplo da ação contra a redução da faixa de praia. A tecnologia adotada foram os bag wall: grandes sacos de cimento de secagem rápida, que construíram uma estrutura semelhante a arquibancadas. A realidade é que agora a erosão marinha foi transferida para praias mais ao norte.

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