Dida Sampaio/AE–3/2/2011
Dida Sampaio/AE–3/2/2011

Desvio de verba do Turismo beneficiou deputada do PMDB, dizem envolvidos

''Estado'' teve acesso a depoimentos de envolvidos em suposto esquema de corrupção na pasta à Polícia Federal e pelo menos 4 deles afirmam que Fátima Pelaes recebia recursos de convênios com ONGs fantasmas; parlamentar diz ser vítima de calúnia

Leandro Colon, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL A MACAPÁ

Depoimentos prestados por integrantes do esquema de desvio de dinheiro público do Ministério do Turismo que usava ONGs de fachada apontam a deputada Fátima Pelaes (PMDB-AP) como beneficiária da fraude. Indicam também que os recursos desviados teriam sido utilizados na campanha eleitoral. Quatro envolvidos no caso disseram à Polícia Federal que a peemedebista recebeu parte dos recursos desviados pela quadrilha em convênios da pasta. Ela é a autora das emendas que deram origem aos contratos que estão sob suspeita. O Estado teve acesso aos depoimentos, revelados ontem com exclusividade pelo portal estadao.com.br.

Um dos depoentes, Errolflynn de Souza Paixão, repetiu, em entrevista ontem à reportagem, a mesma versão que deu à PF sobre o envolvimento da deputada. De acordo com os relatos à polícia, Fátima Pelaes teria montado uma estrutura no Amapá para levar recursos públicos para ela própria e para sua campanha à reeleição no ano passado.

Fátima Pelaes é autora das emendas parlamentares que favoreceram o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável (Ibrasi), entidade pivô do esquema investigado pela PF. A Operação Voucher, desencadeada pela PF na terça-feira, prendeu 35 pessoas, incluindo os quatro investigados que prestaram depoimentos que comprometem a deputada.

Um dos depoimentos é de Merian Guedes de Oliveira, que aparece como secretária da Conectur, uma cooperativa fantasma do Amapá que, segundo a investigação, foi subcontratada pelo Ibrasi por R$ 250 mil e celebrou convênio com o próprio Ministério do Turismo em 2009 no valor de R$ 2,5 milhões. Merian disse que foi avisada pelo patrão e dono da Conectur, Wladimir Furtado, de que Fátima Pelaes ficaria com os recursos do Turismo destinados ao Amapá. Furtado foi preso na operação.

De acordo com o relato à polícia, Merian "ficou sabendo de Wladimir que na divisão do dinheiro a deputada Fátima Pelaes ficou com maior parte do dinheiro destinado à empresa, inclusive tendo Wladimir comentado que o dinheiro destinado à empresa não seria suficiente para pagar os encargos financeiros. Que a tratativa em comento refere-se ao primeiro repasse no valor de R$ 2.5000.000,00". Esse repasse citado se refere ao dinheiro transferido pelo Turismo para a Conectur em 2009.

No depoimento, Merian disse ainda que "ouviu de Wladimir estar preocupado de ter sido incluído pela deputada Fátima Pelaes neste esquema de desvio de dinheiro público, o que poderia culminar com a prisão de Wladimir". Merian ainda afirmou à PF que "os demais repasses de dinheiro/recurso feitos à empresa Conectur, na verdade foram desviados para a deputada Fátima Pelaes, não tendo ficado qualquer valor com a empresa ou com Wladimir". Em seu depoimento, Wladimir Furtado se identificou como "turismólogo" e disse que "nunca entregou nenhum dinheiro" à deputada.

Um sobrinho dele, David Lorrann Silva Teixeira, no entanto, confirmou a versão sobre o suposto envolvimento da deputada no esquema. Teixeira aparece na investigação como tesoureiro da Conectur. Segundo ele, "seu tio falava que ganharia 10% do total e a deputada federal Fátima Pelaes ficaria com aproximadamente R$ 500.000,00 do total".

Outro depoimento que menciona o nome da deputada foi o de Errolflynn, que já foi sócio da Conectur. Segundo ele, "Wladimir chegou a dizer que o dinheiro seria devolvido à deputada".

Ontem, em entrevista gravada ao Estado, Paixão deu a mesma versão. "A deputada tinha pedido para ele (Wladimir) apresentar uma entidade que pudesse receber o recurso da emenda para desenvolver um trabalho de qualificação do Turismo. E ele disse: "Eu sei que a entidade pega o dinheiro e retorna para ela"."

Já os integrantes da cúpula do Ministério do Turismo pouco esclareceram sobre os convênios suspeitos. O secretário executivo, Frederico Silva Costa, usou o direito constitucional de permanecer calado. O secretário Nacional de Desenvolvimento de Programas para o Turismo, Colbert Martins, disse à PF que autorizou a liberação de R$ 900 mil para o Ibrasi com base em nota técnica e análise jurídica do ministério. O ex-secretário executivo Mário Augusto Lopes Moysés negou envolvimento com o esquema.

TRECHOS

"Wladimir comentou com o interrogado (Errolflynn) que estava tentando viabilizar a documentação da Conectur, pois a deputada Fátima Pelaes iria apresentar uma emenda que poderia chegar a valores de até R$ 2.000.000,00; que o interrogado achou estranho visto que a empresa não tinha estrutura nenhuma; que Wladimir chegou a dizer que o dinheiro seria devolvido à deputada"

ERROLFLYNN DE SOUZA PAIXÃO, SÓCIO DA CONECTUR

TRECHOS

"Wladimir Furtado conhece Fátima Pelaes desde a época de faculdade; que em sua opinião a deputada Fátima Pelaes indicou o Ibrasi para receber parte do dinheiro para financiar sua campanha à reeleição e que, provavelmente, a deputada tenha indicado a Conectur para a execução do convênio 702720/2008 pelo mesmo motivo, para receber parte do valor destinado ao convênio"

HELLEN LUANA BARBOSA DA SILVA, LIGADA À CONECTUR, SUBCONTRATADA DO IBRASI

"Ficou sabendo de Wladimir que, na divisão, a deputada Fátima Pelaes ficou com maior parte do dinheiro destinado à empresa, inclusive tendo Wladimir comentado que o dinheiro não seria suficiente para pagar os encargos financeiros. Que a tratativa em comento refere-se ao primeiro repasse no valor de R$ 2.5000.000,00. Ouviu de Wladimir estar preocupado de ter sido incluído pela deputada no esquema de desvio de dinheiro público, o que poderia culminar com a prisão de Wladimir"

MERIAN GUEDES DE OLIVEIRA, SECRETÁRIA DA CONECTUR

"Que seu tio falou que a deputada Fátima Pelaes estava com pressa para liberar os recursos federais, mas não sabe os motivos. Seu tio falava que ganharia 10% do total e a deputada federal Fátima Pelaes ficaria com aproximadamente R$ 500.000,00 do total.

Foi levado diversas vezes ao Banco do Brasil para assinar cheques em branco. Somente em um dia assinou 60 cheques em branco e recebeu a importância de R$ 250.000,00"

DAVID LORRANN SILVA TEIXEIRA, TESOUREIRO DA CONECTUR E SOBRINHO DE WLADIMIR FURTADO

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