Detalhes apontam identidade de vítimas de Congonhas

Um chip de celular, grampos decirurgias cardíacas e um anel de casamento. Objetos minúsculoscomo esses são decisivos para os legistas no processo deidentificação dos mortos no pior desastre aéreo da aviaçãobrasileira, que nos próximos dias deve entrar na fase de examesde DNA para casos em que a carbonização foi quase total. O processo de análise genética, que compara amostra deossos dos acidentados com o sangue dos pais, filhos ou irmãos,pode levar até um mês, segundo especialistas do InstitutoMédico Legal (IML), seis dias após a tragédia que matou cercade 200 pessoas. Até agora, 67 foram identificadas. "Esse tempo é decorrência da metodologia empregada. Estamosverificando os que são mais simples, os complicados e (depois)os mais complicados... temos uma força tarefa com gente queestava de férias e de licença prêmio só para dar conta", disseo secretário de Segurança Pública de São Paulo, RonaldoMarzagão, a jornalistas em um hotel da zona sul de São Paulopara onde foram levados os parentes das vítimas do vôo 3054. O secretário citou casos de vítimas que foram reconhecidasou estão perto disso devido à experiência do IML de São Paulocom corpos carbonizados, após o acidente de um Fokker 100 daTAM em 1996, no qual morreram 99 pessoas. "É muito triste. Havia algo que parecia ser um corpo.Depois foram ver que eram dois, colados", contou Marzagão antesde se reunir com uma comissão de parentes de vítimas dodesastre, em nome do governador José Serra (PSDB), que foiconvidado para um encontro com eles. Uma comissão de quatro deles terá livre acesso ao IML paraacompanhar os trabalhos que têm criticado pela lentidão. "O processo é lento porque temos de reunir informações dosbancos de dados. Havia um corpo no qual encontraram grampos decirurgia cardíaca. Só começaram a identificar depois quetínhamos informação sobre todas as vítimas que fizeram aoperação recentemente", afirmou Marzagão. O secretário disse também que um corpo foi identificado nodomingo porque um telefone celular estava grudado à calça davítima e ainda mantinha o chip intacto. Um anel misturado aocadáver detectou mais uma das acidentadas, com ajuda da data decasamento cravada no objeto. ANSIEDADE A chefe do laboratório de DNA do Instituto deCriminalística do IML, Norma Bonaccorso, diz que a maiordificuldade de identificação se deve à ausência de sangue, oque torna necessárias as amostras de ossos das vítimas, em umprocesso que toma dois dias. O IML analisa 214 sacos com corpose fragmentos. "À medida em que nós formos recebendo os perfis genéticos,vamos cruzar esses dados para verificar as combinaçõesgenéticas", afirmou Bonaccorso na sede do Instituto. Ela dizque é muito difícil dar prazo para concluir o trabalho. Diretor do IML de São Paulo, o médico Carlos Alberto Coelhoafirmou que não há registro na história do IML de um desafio dadimensão atual. A maior parte dos técnicos é da própria unidade, emborahaja alguns colaboradores de outros IMLs da capital paulista e,em breve, de dos peritos do Rio Grande do Sul, Estado de ondevêm muitos dos passageiros. Sobre o método de trabalho antes do início da análise deDNA, Coelho disse que "os exames seguem uma metodologiainternacional", "seriam criticados até nos EUA por quem estávivendo um momento delicado" e refutou as críticas de parentesde vítimas que acusam o IML de demorar na identificação. "Existe a cultura latina em que a morte, não ter o corpo dofamiliar agride extremamente. Nós entendemos, é nossa cultura,nossa religiosidade... mas o IML está trabalhando como deve",afirmou Coelho, reforçando que os funcionários têm trabalhadopelo menos 12 horas seguidas, com pequenos intervalos, erevezando-se em dois turnos para cumprir 24 horas de operaçãopor dia. ACOMPANHAMENTO O médico Maurício Pereira perdeu no acidente a filhaMariana, 22, e insistiu para que as famílias se organizassem emuma comissão com o objetivo de exigir rapidez nasidentificações. Mas ele próprio prefere não fazer parte dogrupo que terá autorização para vistoriar os trabalhos no IML. "Eu não quero entrar ali, olhar um pedaço de alguém ereconhecer ali a minha filha. Não é essa a imagem que queroguardar dela", afirmou ele no hotel. "Acho importante haveresse acompanhamento, sim, e pelo que sei a identificação é maisrápida em outros lugares onde se preserva melhor o corpo dasvítimas", comentou. O empresário Paulo Solano esperava nesta manhã na frente dasede do IML pela identificação do irmão Arnaldo Batista Ramos,de 38 anos. Os irmãos tinham encontro marcado no aeroporto deCongonhas no dia do acidente. Quando chegava ao local de táxi,ele viu o Airbus bater no prédio da TAM. "Na hora, nem imaginei que o Arnaldo estivesse ali, masquando o tempo foi passando e o celular dele não respondia,começou a cair a ficha", relatou. Arnaldo era casado com umacomissária de bordo e deixou dois filhos.

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