Determinada prisão de PMs suspeitos de atingir garoto no Rio

Prisão administrativa vai durar 72 horas; inquérito vai investigar caso que acabou na morte de João Roberto

Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2008 | 20h50

Um cabo e um soldado do 6.º Batalhão de Polícia Militar (BPM) - suspeitos de metralhar por engano o carro de uma família e atingir o menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, na noite de domingo na Tijuca, zona norte do Rio - tiveram a prisão administrativa determinada por 72 horas. Nesta segunda-feira, 7, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar o caso. João voltava para casa com a mãe, a advogada Alessandra Soares, e o irmão Vinícius, de 9 meses, de uma festa. A morte cerebral de João foi confirmada nesta tarde pela equipe médica que o atendeu no Hospital Copa D' or. Alessandra teve ferimentos leves por estilhaços de bala e o bebê não foi atingido.   Veja também: Confirmada morte de menino atingido por disparo da PM no Rio Beltrame: não há motivo para vários tiros em caso João Roberto   Por volta das 19h30 de domingo, o cabo Elias Gonçalves da Costa Neto e um soldado que não teve o nome divulgado trafegavam em patrulhamento rotineiro na Rua Uruguai, quando avistaram cerca de quatro homens dentro de um Fiat Stylo preto em atitude suspeita. Minutos antes, eles receberam um informe pelo rádio que relatava assaltos nas proximidades de onde estavam. Segundo o cabo afirmou em depoimento na delegacia, quando o carro da PM aproximou-se do Fiat, o motorista acelerou em fuga e a perseguição foi iniciada. Em poucos minutos, os suspeitos entraram na Rua General Espírito Santo Cardoso, onde houve o tiroteio. A rua, onde fica a Delegacia de Polícia, é caminho para pelo menos três morros da região - do Cruz, do Borel e da Formiga.   Alessandra voltava para casa dirigindo o seu Fiat Palio Weekend grafite. Estava a menos de 50 metros da esquina do prédio onde mora, quando percebeu um carro da PM em alta velocidade atrás. Em frente ao número 399 da mesma rua, encostou o carro para dar passagem. Os policiais saíram do carro, posicionaram-se atrás dele e dispararam com fuzil e pistola. Nesta segunda-feira, ainda havia cápsulas deflagradas em um bueiro da rua.   Em depoimento na delegacia, os PMs afirmam que o carro de Alessandra ficou no meio do fogo cruzado, porque os criminosos atiraram contra eles. No entanto, testemunhas ouvidas pelo Estado, que pediram para não ser identificadas por temer represálias, afirmam que os policiais se confundiram. Uma dona de casa que mora em frente ao local disse que Alessandra chegou até a jogar pela janela do carro uma bolsa infantil, na tentativa de chamar a atenção dos PMs.   O carro da dona de casa, estacionado na mesma rua, foi perfurado por um tiro. Ela contou que os policiais só pararam de atirar quando ela saiu do carro, gritando muito que eles tinham matado seu filho. Segundo ela, quando os policiais se deram conta que haviam disparado contra o carro errado, começaram a gritar, pegaram a criança baleada e a mãe, puseram correndo na viatura e levaram para o Hospital do Andaraí, onde eles receberam o primeiro atendimento.   Uma professora de 58 anos que também mora em frente ao local disse que viu quando um dos PMs chegou a colocar as mãos na cabeça, como um sinal de preocupação e desespero. Para ela está claro que os policiais se confundiram, porque como o carro tem insulfilm, o que impedia que vissem quem estava dentro dele. Ela afirma que viu tudo e que os PMs dispararam muitos tiros contra o carro da advogada.   O carro dos criminosos, o Fiat preto, já havia deixado o local e tinha até batido em dois que estavam parados na rua. Ela disse que viu quando um dos policiais pegou o bebê dentro do carro e entregou a um morador. Depois, retirou João ensangüentado do carro, pegou a mãe e levou para o hospital.   O morador que cuidou do bebê, um cabeleireiro de 57 anos, disse que Vinícius não parecia assustado, nem estava ferido. Ele contou que limpou a cabeça da criança, que tinha muitos cacos de vidro das janelas perfurada, e ficou com ele em frente ao prédio onde mora até o pai dele surgir correndo e berrando pela rua perguntando onde estava seu filho.   A região, segundo os moradores, é muito perigosa. Emocionado pela morte de João, o segurança do prédio onde mora a família disse que não são raros os roubos de carros, bicicletas e assalto a pedestres. Ele afirmou que ouvir tiros dos morros próximos é rotina e que ali, apesar de ser um local com muitas casas e vilas, ninguém fica na rua à noite.   Investigação   O delegado que investiga o caso, Walter Souto, disse que já solicitou as fitas de três câmeras de prédios que ficam próximo ao local crime. Uma equipe de investigadores conversou informalmente com moradores da região, em busca de testemunhas. O delegado ainda não sabe quando vai ouvir a mãe de João. Até esta noite, apenas os dois PMs prestaram depoimento na 19ª DP.

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