Devastação avança pela Cantareira

Mesmo flagrantes de crime ambiental só acabam punidos com compra de cestas básicas ou serviço comunitário

Eduardo Nunomura, O Estadao de S.Paulo

14 Fevereiro 2009 | 00h00

A Cantareira é a Amazônia paulista. A mata atlântica vai virando carvão para pizzarias e caldeiras, vendida a preços módicos. Os angicos, os manacás, os jerivás e outras árvores nativas valem menos do que o eucalipto. Ironia. Aos poucos, donos de terra substituem a floresta pela espécie exótica. Se são flagrados cometendo esse crime, a pena vai de uma advertência a 3 anos de prisão - invariavelmente substituída por cestas básicas ou serviços à comunidade. É o que deve ocorrer com João Cardoso, de 75 anos e dono de 157.300 mil metros quadrados na zona rural de Mairiporã. Há menos de um ano, ele iniciou o corte da mata atlântica. Plantou primeiro um milharal e em volta dele pés de eucalipto. Na sexta-feira, o tenente Emerson Anderson di Francesco, da Polícia Ambiental, e sua equipe flagraram o crime ambiental. Cerca de 30 mil m² de mata nativa haviam sido cortados. "O mato fica aqui, cai o pau, apodrece e não serve para nada. O eucalipto, eu corto e levo na firma para ganhar um dinheiro", explica Cardoso. A propriedade foi embargada, uma vez que não havia licença para fazer o corte. O exemplo ilustra uma das ameaças da Serra da Cantareira. Ao contrário dos latifúndios amazônicos, a mata atlântica sofre pressões diárias e imperceptíveis para os satélites. Não fosse por uma denúncia, a Polícia Ambiental teria pouco que fazer quando os eucaliptos tivessem um ano de idade, como nos terrenos vizinhos. O crime estaria consumado. O avanço da ocupação humana se processa lentamente. Mas a substituição da mata nativa por eucalipto não é o único crime. Moradores denunciam o uso de estradas dentro do Parque da Serra da Cantareira para desova de corpos, depósito de lixo e entulho, loteamentos falidos ou incompletos no entorno, a insegurança na região e, de forma unânime, a falta de fiscalização. CORTE SILENCIOSO Desde 2003, quando Ivone Christofero Felix Pires, na época só "cidadã" e hoje presidente da Associação Cultural e Ambiental Chico Mendes de Guarulhos, denunciou no Ministério Público um desmatamento na Cantareira, a mata atlântica do lugar virou aterro. Com autorização da Cetesb e da prefeitura. "Ninguém fez nada, enquanto eles acabavam de aterrar a mata e a represa que tinha lá", explica Ivone. Quem passa pelas Estradas do Cabuçu e do Morro do Sabão ignora que um crime ambiental foi cometido na Fazenda Três Marias. Nem mesmo os moradores puderam notar qualquer diferença na paisagem. Mas havia os caminhões. Vinham carregados de areia, lama, terra e outros resíduos sólidos. Houve dias em que mais de 400 caminhões transitavam por ali. Moradores do Cabuçu, que sofrem com a falta de água, passaram a investigar por que a represa secou. E foi assim que descobriram que os antigos donos do terreno cederam o local para receber, entre outros, resíduos do projeto Calha do Tietê. O Departamento de Águas e Energia Elétrica nega e informa que o material do rio foi enviado para aterros licenciados. A prefeitura de Guarulhos interditou o aterro em 2007 e diz que só foram cortados eucaliptos. Ivone garante a informação, mas admite que ela e os moradores serão mais uma vez ignorados. "Nunca fomos ouvidos para mostrar a destruição que ocorreu." A Fundação SOS Mata Atlântica só notou algo de diferente quando comparou as imagens de 2005 com as de 2008. A cobertura vegetal do local tinha sido, de fato, suprimida.

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