''''Devemos tirar o conflito do armário, colocá-lo na mesa''''

Ex-secretário nacional de Segurança Pública diz que relação da polícia com crime é mais grave do que simples tolerância

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2020 | 00h00

Ex-secretário nacional de Segurança Pública do governo Luiz Inácio Lula da Silva, subsecretário de Segurança do Rio no governo Anthony Garotinho, co-autor de best-sellers como Cabeça de Porco e Elite da Tropa, o antropólogo Luiz Eduardo Soares atualmente é secretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violência de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ele falou ao Estado sobre a operação na cidade vizinha, Duque de Caxias. Como o senhor viu a ação? É importante porque sinaliza a preocupação do governo com uma questão estratégica que é a corrupção policial. Não há como enfrentar o crime no Rio sem lidar com essa questão. A corrupção policial não é um problema secundário. Hoje a relação da polícia com o crime não é apenas de tolerância, nem mesmo de sociedade com os criminosos. Trata-se de algo mais grave, de protagonismo no crime, caracterizado pelo processo da formação das milícias, uma nova forma de crime organizado. Um secretário de Segurança que enfrenta a polícia corre o risco de ser desestabilizado? O risco existe. O governador Sérgio Cabral trouxe importantes nomes para a secretaria e despolitizou a área de segurança. Mas mesmo assim as polícias são profundamente politizadas no sentido corporativo. No universo policial, há disputas de todo tipo, por recursos, poder interno e externo na sociedade. Essa disputa interna só se dissolve com a reforma das estruturas institucionais. Corre-se o risco de a rivalidade entre policiais civis e militares se acirrar a partir de agora? Sim. Mas o problema deve ser enfrentado. Não podemos nos tornar reféns do medo dos conflitos. Devemos tirar o conflito do armário, colocá-lo na mesa. Para enfrentar a rivalidade, no longo prazo, devem ser criados academia unificada e instrumentos de gestão compartilhados. No curto prazo, estabelecer condições para que a rivalidade não impeça o trabalho corporativo, compartilhando dados da Delegacia Legal - que não são repassados aos militares -, aprovando uma aplicação de termos circunstanciados. Qual é a diferença entre os policiais presos ontem e os que atuam nas milícias? Esse caso de Caxias aponta, por enquanto, para sociedade de policiais com o crime. Mas na Baixada Fluminense há importantes conexões entre os segmentos corruptos, a segurança privada e os integrantes pró-milícias. Não me surpreenderia se alguma ligação aparecesse. Como fazer para que a ação de ontem ajude a transformar a situação de corrupção policial? Essa ação não pode ser algo isolado. Tudo vai depender da articulação entre essa iniciativa e medidas de reforma da polícia. É preciso haver uma gestão racional, com informações objetivas sobre o trabalho policial e cobrança de metas, que permitam identificar os erros, aprender com eles e corrigi-los. É preciso também criar instrumentos institucionais para punir os que erram, com corregedorias e ouvidorias fortes.

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