Cláudia Trevisan / ESTADAO
Cláudia Trevisan / ESTADAO

Cláudia Trevisan, Enviada Especial a Salt Lake City

27 Novembro 2016 | 03h00

SALT LAKE CITY - Ser mórmon no Brasil de 1955 era integrar uma minoria de 500 pessoas, entre as quais estava Cláudio dos Santos. Naquele ano, ele decidiu se mudar com a família para Salt Lake City, o centro mundial da religião fundada nos Estados Unidos na década de 1820. Aos 101 anos, Santos é o veterano dos cerca de 10 mil brasileiros que vivem na cidade, a maioria dos quais integrantes da igreja.

Em 1955, ele embarcou com a mulher e os três filhos para Miami em uma Fortaleza Voadora, um avião militar de quatro motores usado na 2.ª Guerra Mundial. De lá, eles viajaram por uma semana de ônibus até Utah, o Estado do Oeste americano cuja paisagem árida e montanhosa foi um dos cenários preferidos para os clássicos filmes de cowboy hollywoodianos.

Santos tem dez netos, dez bisnetos e três tataranetos, todos vivendo nos EUA. Sua filha mais velha tem 80 anos. O filho mais novo está com 66. A religião foi o que levou o engenheiro aposentado a trocar São Paulo por Salt Lake City. “Naquele tempo, não existiam templos nem capelas no Brasil e muitos serviços da igreja não estavam disponíveis”, disse ao Estado.

Aos 101 anos, ele usa um iPhone, tem perfil no Facebook, lança mão do Dropbox para compartilhar vídeos e fotos e fala todas as noites por Skype com uma prima que vive em São Paulo. Com a expansão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no Brasil, cresceu o número de pessoas que seguiram os passos de Santos, grande parte deles movida por um misto de fé e busca do sonho americano. 

Opção. Alan Silva e sua mulher, Fátima, se mudaram com as duas filhas para Salt Lake City há 14 anos. Na época, ele trabalhava na Nextel e viu que teria dificuldades para pagar uma escola particular para a filha mais velha, que havia acabado de sair do jardim da infância. “Eu queria dar para elas uma vida melhor e a chance de aprender outra língua. Aqui elas teriam mais oportunidades”, disse Silva, em uma das seis capelas mórmons de Utah que têm serviços religiosos em português.

Segundo ele, o local costumava reunir cerca de 600 pessoas aos domingos até quatro meses atrás, quando a igreja decidiu criar mais duas unidades voltadas a brasileiros na região de Salt Lake City. Agora, o público varia de 200 a 250 pessoas. O português é a língua oficial da capela, que mantém tradições brasileiras como festas juninas.

A filha mais velha do casal faz um curso de higiene dental e a mais nova planeja estudar marketing em mídias sociais. Silva é chefe de manutenção em um edifício e Fátima trabalha como faxineira. O bispo Valdir Antunes, que também está há 14 anos em Salt Lake City, estima que a cada semana uma nova família brasileira chega à cidade, que tem um dos mais elevados ritmos de crescimento econômico e uma das mais baixas taxas de desemprego dos EUA.

Donos de uma empresa que agencia jogadores de futebol no Brasil, Solange Cruz e o marido, Silvio, chegaram à capital de Utah em julho do ano passado, juntamente com o filho mais novo, Vitor. O mais velho, Edson, era missionário mórmon em Utah e havia sofrido um acidente jogando bola. A família já discutia a possibilidade de imigrar para os EUA e tomou a decisão para estar perto do filho na segunda cirurgia a que ele se submeteu. “Agora nós estamos planejando vender a casa que temos em Itu e abrir um negócio aqui”, afirmou Solange.

Igreja demanda dedicação plena

A igreja mórmon demanda de seus seguidores dedicação plena e um estilo de vida espartano, no qual a família ocupa posição central e o consumo de álcool, café e chá são banidos. A identidade da maioria dos moradores de Utah gira em torno da religião e abandoná-la é uma decisão drástica, que põe em risco laços familiares e de amizade.

Depois de passar pelo trauma do rompimento com a igreja, muitos ex-mórmons criaram grupos de apoio aos que seguem os mesmos passos. O abandono da religião se dá por vontade própria ou por decisão das instância disciplinares da igreja, que determinam a excomunhão de seguidores que contrariam os princípios da religião ou são considerados hereges.

Em 2015, aumentou o potencial de conflito entre os que ditam a doutrina mórmon e alguns dos seguidores da igreja, com a proibição do batismo de crianças que vivem em famílias chefiadas por casais gays. A mesma determinação reiterou que a união entre pessoas do mesmo sexo é pecado sujeito ao julgamento da igreja.

A rejeição do homossexualismo pela religião causou reação entre pais mórmons de filhos homossexuais, que criaram grupos de apoio e decidiram participar da Parada Gay de Salt Lake City. 

A condenação dos gays antecede a proibição do batismo e é apontada por integrantes de organizações de pais como um dos fatores responsáveis pelo elevado índice de suicídio entre os jovens no Estado. Dados do Departamento de Saúde indicam que o suicídio entre pessoas de 10 a 17 anos está em alta desde 2011; e, em 2013, ultrapassou o número de mortes por causas não intencionais.

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Cláudia Trevisan, Enviada especial a Salt Lake City

27 Novembro 2016 | 03h00

SALT LAKE CITY - Rodízio é sinônimo de Brasil nos Estados Unidos e, em Salt Lake City, a concorrência de espetos é acirrada. Na capital do Estado de Utah também há lugares de prato feito, feijoada, pudim e brigadeiro, regados a guaraná. Com o nome gringo de Rodizio Grill, o restaurante da família Utrera abriu as portas na cidade em 1998, quando a rede que já tem 19 endereços no país ainda engatinhava.

Dos 70 funcionários da empresa em Salt Lake City, 70% são brasileiros, na maioria integrantes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, segundo Nicolas Utrera, filho do fundador do negócio, Ivan Utrera. Entre eles está Diego Souza, que se batizou como mórmon em 2007, quando tinha 16 anos, e se mudou para a capital de Utah em 2014.

Depois de estudar inglês por alguns meses, ele entrou na LDS Business College, a escola de negócios ligada à igreja –a sigla de três letras se refere à versão em inglês de Santos dos Últimos Dias. Os mórmons são a força dominante em Utah e representam 60% da população do Estado. Além da igreja, eles controlam algumas das melhores instituições de ensino locais e oferecem a seus seguidores estrangeiros as mesmas anuidades que cobram dos americanos – em geral, os estudantes internacionais estão sujeitos a preços mais elevados.

Souza estuda contabilidade e se formará no fim de 2017. No ano passado, ele se casou com uma americana que conheceu na igreja, com a qual pretende ter o primeiro filho em breve. “No Brasil, eu era pobre. Aqui eu também sou pobre, mas tenho carro e consigo viajar para o exterior e pensar em comprar uma casa”, disse Souza, que trabalha como garçom e churrasqueiro. Enquanto ele falava com a reportagem, um de seus colegas passou anunciando o resultado de um jogo entre Corinthians e Flamengo: “2 a 1 para o Coringão!”.

Diego Cavalcante Quiroga, de 32 anos, chegou a Salt Lake City em abril com a mulher, Jessica, e os dois filhos, de 5 e 2 anos. Mórmon como o xará, ele é garçom da Rodizio Grill, estuda inglês e pretende entrar em uma faculdade de Utah. “Para ter algo melhor, eu precisava do inglês e vim para cá para aprender mais rápido”, disse Quiroga, que é de uma família mórmon.

Feijoada. O Rodizio Grill é um dos pelo menos seis restaurantes brasileiros que existem na região de Salt Lake City – em sua maioria churrascarias. Uma das exceções é o Sweet Spot, da família Drogueti, especializado em feijoada, salgadinhos, pratos feitos e doces brasileiros. Atrás do balcão, o patriarca Reinaldo Drogueti atende cerca de 150 brasileiros a cada sábado em busca de feijoada. 

A cearense Lucy Filizola, que não pertence ao mundo dos restaurantes, se mudou para Salt Lake City em 1997, quando tinha 17 anos. “Minha mãe queria que eu viajasse”, disse a filha de uma família mórmon de classe média alta do Ceará. A brasileira se casou no ano seguinte e teve seis filhos, seguindo a tradição de grandes famílias da igreja. Formada em contabilidade na LDS Business College, Lucy é separada e cria sozinha os seus seis filhos, um dos quais tem paralisia cerebral. “Não tenho empregada e todos ajudam com o irmão na cadeira de rodas”, disse a cearense, dona de uma empresa de consultoria. “Não é como no Brasil. Aqui, eles são autossuficientes e cada um é responsável por suas coisas.” 

Saída em missão é ritual de ‘transição’ para a vida adulta

Aos 17 anos, Vitor, o filho de Solange Cruz e de Silvio, prepara-se para seus dois anos como missionário, um ritual que todos os homens da igreja são encorajados a desempenhar. As mulheres servem por períodos menores – 18 meses – e representam

um número crescente dos jovens mórmons que tentam converter pessoas ao redor do mundo.  Atualmente, a igreja tem

75 mil missionários, alguns dos quais trabalhando nos Estados Unidos.

Há 16 meses, a brasileira Luiza Renta saiu de Porto Seguro para ser missionária em Salt Lake City. Sua função é ficar na Praça do Templo para explicar a visitantes os princípios e a história da igreja, em um misto de relações públicas e busca de convertidos para a religião. Missionárias de diferentes países trabalham no local, levando crachás com suas respectivas bandeiras. Como os homens, elas andam em dupla. A atual companheira de Renata é da Mongólia, mas o par muda a cada duas semanas. “Não trocaria os 18 meses por nada.”

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Cláudia Trevisan, Enviada especial a Salt Lake City, Utah

27 Novembro 2016 | 03h00

SALT LAKE CITY, UTAH - “Você voltaria para o Brasil comigo?” foi a primeira pergunta que Gary Neeleman fez à então namorada, Rose Lewis, quando retornou a Utah, depois de servir por dois anos como missionário mórmon no interior do Paraná e Santa Catarina. “Mas você acabou de voltar”, ela respondeu. “Sim, mas ainda não acabei”, justificou ele.

O ano era 1956. Dezoito meses mais tarde, o casal chegava a São Paulo com seu filho de 4 meses, John. Nos dez anos seguintes, Neeleman trabalharia como correspondente da agência de notícias United Press Internacional no Brasil. Nesse período, 3 dos 7 filhos do casal nasceram no Hospital Samaritano, na capital paulista, entre os quais David, dono da empresa de aviação Azul. 

Sessenta e dois anos depois de pisar pela primeira vez no Brasil, Neeleman ainda não terminou sua história com o País. Desde 2001, ele é cônsul honorário do Brasil em Salt Lake City, responsável por atender uma comunidade estimada em 20 mil pessoas nos Estados de Utah, Idaho, Wyoming, Montana e Oeste do Colorado. Nove de seus descendentes foram missionários no Brasil, entre os quais um neto e uma neta que ainda estão servindo em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Além dos sete filhos, Neeleman e Rose têm 35 netos e 21 bisnetos, a maioria dos quais detentores de cidadania americana e brasileira. Com maridos e mulheres que foram agregados à família, o clã é formado por 80 pessoas.

“Eu gostei do Brasil e gostei dos brasileiros”, disse Neeleman, lembrando sua experiência de meados da década de 1950. Aos 82 anos, ele caminha com ajuda de uma bengala fabricada por outro empreendedor da família, Mark, dono de uma fábrica de produtos de bambu no Brasil. 

Ao lado de Rose, que tem 81 anos, Neeleman fez seis viagens à Amazônia nos últimos anos para entrevistar pessoas e levantar dados para dois dos quatro livros sobre o Brasil que escreveram juntos: Trilhos na Selva, de 2011, e Soldados da Borracha, publicado no ano passado.

O primeiro conta a história fracassada da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no início do século 20, na qual cerca de 10 mil trabalhadores faleceram, vítimas de doença tropicais. O outro fala da história de milhares de seringueiros que morreram na Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial para garantir o crucial fornecimento de borracha para as forças aliadas durante o conflito. Em uma das viagens que fizeram à Rondônia para levantar dados para os livros, Rose e Gary passaram uma noite na estrada, quando o carro em que os levava a Jaci-Paraná quebrou. 

Guerra Civil. O mais recente livro do casal, A Migração Confederada ao Brasil, conta a história dos americanos que imigraram para o Brasil no fim do século 19, deixando o Sul dos Estados Unidos, depois da derrota para o Norte na Guerra Civil americana (1861-1865). 

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