WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Dez militares do Exército são presos após atirar mais de 80 vezes em carro no Rio

O músico Evaldo Rosa Santos, de 46 anos, levava família para um chá de bebê e morreu depois de ser atingido por três disparos

Roberta Jansen e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 12h40
Atualizado 08 de abril de 2019 | 23h19

RIO -   Dez militares do Exército foram presos nesta segunda-feira, 8, em flagrante acusados de matar a tiros o músico Evaldo Rosa dos Santos, de 46 anos. O carro em que ele estava com a família, em Guadalupe, zona norte do Rio, foi alvo de mais 80 tiros, que ainda feriram mais duas pessoas. O crime ocorreu na tarde de domingo, quando o veículo foi supostamente confundido com um automóvel em que estariam criminosos. O caso será investigado pela Justiça Militar.

O músico levava a família para um chá de bebê, quando o carro cruzou com um grupo de militares, que estariam no perímetro de patrulhamento da Vila Militar. Segundo testemunhas, não havia operação policial e não houve ordem para que o motorista parasse. Sem aviso, os militares dispararam uma saraivada de tiros.

Evaldo foi atingido por três disparos e caiu sobre o volante. Ao seu lado, Sérgio Araújo, de 59 anos, sogro do condutor, foi ferido – internado, seu quadro de saúde é estável. No banco de trás estavam a técnica de enfermagem Luciana Nogueira, de 41 anos, mulher de Evaldo; o filho deles, Davi, de 7; e uma amiga da família, a também técnica de enfermagem Michelle da Silva Leite Neves, de 39. Nenhum dos passageiros do banco traseiro ficou ferido. 

Mesmo depois que o veículo parou, os disparos continuaram. Sob a fuzilaria, as duas mulheres e o menino rastejaram para fora do veículo. Um morador que tentou socorrer as vítimas, Luciano Macedo, também foi ferido e se encontra hospitalizado, em estado grave.

Transtornada, a viúva fez nesta segunda um relato dramático. “Os vizinhos começaram a socorrer (o meu marido), mas eles continuaram atirando. Eu botei a mão na cabeça, pedi socorro, disse para eles que era meu marido, mas não fizeram nada, ficaram de deboche.”

O filho mais velho do músico, Daniel Rosa da Silva, de 29 anos, contou que foram encontradas mais de 200 cápsulas no local. A Polícia Civil periciou o local. “Para mim, isso é execução. Acabaram com uma família.”

Inicialmente, ainda no domingo, o Comando Militar do Leste (CML) informou em nota que os militares teriam reagido a um ataque de criminosos. Mais tarde, diante da inconsistência do relato, mudaram a versão. Nesta segunda, o CML informou que 12 militares teriam participado da ação, dos quais dez foram presos em flagrante. 

Desde 2017, com a Lei 13.491, militares acusados de crimes no exercício da função são julgados pela Justiça Militar, mesmo em caso de vítimas civis. A mudança foi um pedido dos militares, que se consideravam desprotegidos quando participavam de Operações de Garantia da Lei e da Ordem. O Estado apurou que o Comando do Exército pretende tratar a ocorrência como episódio policial.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), pretende entrar com representação no Ministério Público Federal, pedindo à instituição que investigue o caso. A parlamentar lembrou que, na sexta, Christian Felipe Santana de Almeida Alves, de 19 anos, foi morto por militares do Exército durante uma blitz na Estrada Pedro de Alcântara, em Realengo, zona oeste. O rapaz estava na garupa de uma moto pilotada por um menor de idade, que não teria obedecido ao sinal de parar, segundo o CML. A família, no entanto, contesta essa versão.

“A gente precisa entender se são dois fatos isolados ou se essas ações já estão refletindo uma mudança de atitude, com o uso de muita violência mesmo em situação de dúvida”, afirmou a cientista social Silva Ramos Amorim. A referência é à política de segurança defendida pelo governador Wilson Witzel (PSC), que sugere o abate de criminosos, até com snipers. 

Nesta segunda, o governo do Estado não quis comentar as análises. Limitou-se a afirmar por nota que “tem certeza” de que o caso está sendo apurado com rigor pelo Exército.

Pesquisador do Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser) e ouvidor da Defensoria Pública, Pedro Strozemberg também questionou a ação militar de domingo. “É de um despreparo absoluto: 80 tiros de fuzil em uma viatura sem confirmação plena de que se tratava de uma ameaça extrema aos agentes públicos é um absurdo.” O Estado procurou, mas não localizou advogados nem representantes dos militares presos, cujos nomes não foram divulgados.

Viúva reclama de 'deboche' e cobra punição

Apoiada junto ao corrimão da pequena escada que dá acesso ao Instituto Médico-Legal (IML) do Rio, a técnica em enfermagem Luciana Nogueira, de 41 anos, era só desalento nesta segunda. A noite maldormida, o choro incontido e a voz rouca e embargada refletiam a tragédia que ela vivera no dia anterior, quando seu marido foi morto. Ela ainda tentava entender o que aconteceu.

“A gente vinha cantando, brincando, porque ali se passa devagar. Eu vi que o Exército estava do lado de lá (da avenida), mas é Exército, estava pra te proteger. Aí deram um tiro”, relatou Luciana ao Estado. “Eles atiraram de propósito.” 

Evaldo dirigia o Ford Ka alvejado dezenas de vezes por militares. No banco de trás, Luciana, seu filho Davi e uma amiga da família, Michele Neves, tiveram de se abrigar, enquanto os tiros atingiam o veículo em movimento. Michelle contou que estava sentada no banco traseiro, bem atrás de Evaldo. “Ele caiu em cima do volante. A gente ouviu o disparo, pegou na janela, mas a gente pensou que ele tinha desmaiado”, narrou. 

Amparada por amigos, a viúva permanecia inconsolável. “Meu esposo morreu como um bandido”, disse. “Eles (militares do Exército) queriam chegar perto do carro, e eu não deixei, para não colocarem (plantarem) nada. Mas eles ficaram de deboche. Eles precisam ser punidos.” / COLABOROU ROBERTO GODOY

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