Dezembro, mês de "festa" para os agiotas

Não são apenas os comerciantes que esperam maior movimento nas caixas registradoras e grandes lucros como presente de Natal. Uma outra categoria, que prefere não fazer propaganda de seu negócio, também esfrega as mãos nesta época do ano, de olho em uma clientela que corre em busca de seus serviços. Protegidos por capangas em pequenos escritórios, os agiotas calculam que, em dezembro, considerado um mês de pico nessa atividade ilícita, há um aumento de 40% no número de endividados à procura de empréstimos.Os gastos com a compra dos presentes, as viagens de férias e a expectativa de terminar o ano saldando uma antiga dívida são os principais motivos que fazem com que muita gente, em vez resolver um problema, comece o ano novo com o pé esquerdo, se tornando vítima de uma armadilha.A aparente facilidade de conseguir o dinheiro aos poucos se transforma em pesadelo - os juros cobrados, que variam entre 15% e 20% ao mês, viram uma bola de neve impagável. Então, começam os problemas. Os cheques dados como garantia são depositados e devolvidos por falta de fundos. Os nomes de devedores vão para as listas negras dos serviços de proteção ao crédito. E começam os constrangimentos, as ameaças e as perseguições.Mas os agiotas também estão inovando na prestação de seus "serviços". Quando a urgência do dinheiro é grande - e a quantia pedida não muito alta -, fazem a proposta: o endividado vai até uma loja de eletrodomésticos e compra, sem entrada e em muitas prestações, aparelhos de TV de 29 polegadas ou computadores.Entrega a compra, na caixa e com nota fiscal, ao agiota e recebe uma quantia equivalente a até 50% do preço vendido à vista na loja. O criminoso revende a mercadoria pelo valor de mercado e a vítima continua pagando as prestações.Além de só aceitar novos clientes com a indicação dos antigos, muitos agiotas também têm outra fonte de captação de vítimas. Rejeitados por instituições financeiras por não atender às exigências pedidas, como a apresentação de declaração de renda, fiador ou imóvel em seu nome, são levados aos agiotas por alguns funcionários dessas mesmas instituições. Em troca do "serviço", o funcionário também recebe uma fatia dos juros cobrados.A Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo (Acrimesp) mantém uma equipe de 60 profissionais voluntários para atender gratuitamente pessoas que, comprovadamente, não tenham condições de pagar advogados. E, hoje, a entidade defende 18 vítimas de agiotas. Esse tipo de crime é punido com pena que varia entre seis meses e dois anos de detenção."Deveria haver em São Paulo uma delegacia especializada em agiotagem", diz o presidente da Acrimesp, Ademar Gomes. "Essa é uma máfia que tomou conta da cidade." E as provas mais usadas na Justiça contra os agiotas têm sido a microfilmagem dos cheques dados como garantia do pagamento, a gravação de telefonemas com ameaças e o relato de testemunhas dos constrangimentos a que são submetidas as vítimas desses bandidos."O agiota não quer perder o cliente. Ele quer manter a pessoa refém. Se alimenta dos juros e até concorda em renegociar a dívida, desde que os juros sejam pagos", explica Gomes. "Mas, quando os cheques voltam por falta de fundos, passa para as ameaças. Então, se a vítima tem um imóvel, por exemplo, ela o vende para pagar o agiota e ter seu nome limpo outra vez."Uma pesquisa da Acrimesp mostra que 65% das empresas fazem uma checagem periódica do nome de seus funcionários nas instituições de proteção ao crédito. "A crise econômica gerou um terreno fértil para a ação desses bandidos", alerta o delegado Manoel Camassa, titular da Delegacia de Estelionato, do Departamento Estadual de Investigação Sobre o Crime Organizado (Deic). E, enquanto alguns agiotas só atendem novos clientes por indicação, a maior parte se serve dos classificados dos jornais para anunciar seus serviços.Anúncios com oferta de dinheiro têm se multiplicado na cidade, sempre oferecendo como contato o número de um telefone celular. "A pessoa interessada liga e eles fazem um jogo de cena para dar um ar de credibilidade", diz o delegado. "Pedem que passem fax dos documentos e que deposite uma fiança, geralmente de um valor entre R$ 300 a R$ 500."A vítima pede a quantia emprestada para parentes e amigos e deposita em uma conta falsa, que não pode ser rastreada. Então, o estelionatário desaparece. "Quando a vítima vem dar queixa, descobrimos que ligaram para um celular pré-pago", conta Camassa. "Esse é um golpe que se alastrou por todo o País."

Agencia Estado,

01 de dezembro de 2002 | 09h25

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