Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

DF reabre comércio com casos em alta

Governo mantém plano de reabertura total a partir de amanhã mesmo com a fase mais aguda de propagação do vírus da covid-19

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

BRASÍLIA - No mesmo dia em que o Distrito Federal superou as mil mortes pela covid-19, na quarta-feira passada, bares e restaurantes reabriram em áreas centrais de Brasília e algumas cidades-satélites, reproduzindo cenas de aglomerações e clientes sem máscaras. Em regiões mais periféricas, como em Ceilândia e no Sol Nascente, a retomada das atividades de lojas e demais comércios está marcada para amanhã.

Primeiro a adotar medidas de isolamento social no País, em 19 de março, quando havia apenas 42 casos confirmados e nenhum morto, o governador Ibaneis Rocha (MDB) decidiu manter o plano de reabertura total mesmo na fase mais aguda da propagação do vírus no Distrito Federal. Dados do Ministério da Saúde mostram aumento de 49% nas mortes registradas na semana que se encerrou em 11 de julho sobre a anterior. O porcentual só é superado pelo Tocantins (50%). Até a sexta-feira, já eram 79.400 casos e 1.060 mortos pelo vírus.

Os números locais mostram que a doença se disseminou nas regiões mais pobres. Em 16 de maio, o Plano Piloto, região central onde ficam as sedes dos três Poderes, registrava 440 casos, enquanto Ceilândia tinha 286. Dois meses depois, são 5.834 na área nobre e quase o dobro na cidade-satélite, 10.055.

Ibaneis justificou a abertura total do comércio em entrevista ao Estadão no fim de junho, quando minimizou o risco de sobrecarregar hospitais. “Vai lotar nada. Vai ser tratado como uma gripe, como isso deveria ter sido tratado desde o início.”

Para o presidente do Sindicato dos Médicos do DF, Gutemberg Fialho, já se esgotou a capacidade das redes pública e privada de atendimento à covid-19. A UTI do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), unidade de referência para covid-19, está lotada. A ocupação de leitos reservados para a pandemia na rede pública é de 80%. Na rede privada, cerca de 90% dos leitos têm pacientes. Ainda que haja espaços, diz Fialho, faltam equipes médicas, anestésicos e até ambulâncias. “Nesse contexto, a perspectiva é de mais óbitos ao abrir o comércio”, afirma o médico, que cobra um lockdown de até 20 dias na região.

Mais populosa do DF, a região de Ceilândia ficou sob restrições na última semana enquanto o comércio já operava em outras regiões. Na divisa com Taguatinga, por exemplo, as lojas do lado da rua que pertence a Ceilândia só abrem amanhã, mas do outro lado da rua o comércio já está aberto.

Charles Bezerra é dono de uma loja de roupas de Taguatinga. Estima que seu faturamento caiu 70%. E, apesar de controlar a temperatura dos clientes e ter frasco com álcool em gel sempre ao lado, Bezerra afirma temer a doença: “Querendo ou não, circula muita gente aqui”.

Para o professor de epidemiologia da Universidade de Brasília (UNB) Wildo Navegantes, o DF terá de, em breve, entrar em lockdown. “É extremamente contraditório abrir o comércio no momento de expansão da doença. Além da falta de leitos, não temos monitoramento do impacto da abertura.”

Procurado, o governo do Distrito Federal não se manifestou. Ibaneis não atendeu aos telefonemas da reportagem.

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