Dia de buscas por padre desaparecido em SC foi infrutífero

Presidente Federação Paranaense de Balonismo diz que padre foi irresponsável ao fazer vôo

Evandro Fadel, Estado de S.Paulo

23 de abril de 2008 | 22h03

Mais um dia de buscas ao padre Adelir De Carli, de 41 anos, foi infrutífero para as equipes que trabalham no litoral de Santa Catarina. A Marinha ainda permaneceria com as embarcações trabalhando durante a noite, embora às 21 horas desta quarta-feira, 23, tenham-se completado 72 horas desde que ele fez o último contato, avisando que estava pousando no mar. O padre tinha decolado domingo, por volta das 13 horas, de Paranaguá, no litoral paranaense, levado em uma cadeira amarrada a mil balões de festa, cheios de gás hélio. Pretendia seguir para o interior do Paraná, mas o vento levou-o para o mar. Em razão do encontro, na terça-feira, 22, de balões espalhados no mar entre o município de Penha e Florianópolis, a 44 quilômetros da costa, o trabalho da Aeronáutica e da Marinha concentraram-se nessa região, em direção ao sul de Santa Catarina, durante esta quarta-feira. Segundo a assessoria do Comando do 5º Distrito Naval, sediado em Rio Grande (RS), os navios e lanchas que se deslocaram até o aglomerado de balões não encontraram "nenhum vestígio do náufrago". A Marinha está empregando nas buscas um rebocador, um navio, lanchas e um helicóptero. Segundo uma nota distribuída pelo órgão, os esforços continuarão nos próximos dias. Nesta quarta, a visibilidade era boa, com ondas de até 1,5 metro e temperatura da água em torno de 22 graus centígrados. "O tempo de sobrevivência de um náufrago, em função destes parâmetros meteorológicos, é indeterminado, dependendo das condições físicas e psicológicas do mesmo", diz a nota. Em São Francisco do Sul, no litoral norte, equipes do Corpo de Bombeiros estiveram nas Ilhas Tamboretes para fazer uma busca a pé. Somente nesta quarta-feira foi possível chegar ao local, em razão de o mar estar mais calmo. Pelo último contato do padre, ele teria pousado próximo a essas ilhas. "Não foi localizado nada", disse o comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul, Alfredo Morais de Araújo Júnior. Segundo ele, os bombeiros também costearam as ilhas em um barco inflável, mas não tinham encontrado vestígios de passagem do padre por ali. Bombeiros voluntários de Penha também permaneceram durante o dia percorrendo o litoral e ilhas, mas também não tiveram sucesso nas buscas. CNBB Durante esta manhã, em entrevista coletiva na Paróquia São Cristóvão, em Paranaguá, onde o padre Adelir exerce o sacerdócio e mantém a Pastoral Rodoviária, o secretário executivo da regional sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Carlos Alberto Chiquim, disse que foi respeitada a liberdade do padre. "Nós já havíamos falado dos riscos, mas o padre Adelir tem uma personalidade muito persistente, radical, é um homem de idéias firmes", salientou. "Não teve o apoio direto da diocese para isso, porque correria o risco, mas, como cidadão, ele teve a liberdade de executar esse projeto." O bispo de Paranaguá, João Alves dos Santos, também ressaltou que o vôo foi uma "atitude pessoal" do padre. "É um projeto pessoal dele, uma forma de procurar sensibilizar, chamar a atenção das autoridades, da sociedade para um projeto que vem beneficiar os caminhoneiros e seus familiares", afirmou o bispo. "Esperamos que ele seja encontrado com vida, mas, se isso não acontecer, o projeto de evangelização da Pastoral Rodoviária será assumido pela diocese de Paranaguá e será levado em frente."  Irresponsabilidade O presidente da Federação Paranaense de Balonismo, Adriano Perini, disse que chegou a ligar para o padre quando ele realizou o primeiro vôo, em 13 de janeiro, de Ampère, no sudoeste do Paraná, a San Antonio, na Argentina, percorrendo 110 quilômetros, e anunciou a aventura de Paranaguá. Perini afirmou tê-lo orientado a fazer um curso e que não voasse próximo ao mar. "Ele disse que Deus estava olhando, e eu respondi que Deus perdoa, mas a natureza não", disse. Segundo Perini, o padre cometeu vários erros no vôo, entre eles destacou a falta de conhecimento técnico, o uso de equipamentos incorretos, desconhecimento sobre o uso do GPS, decolagem em condições meteorológicas inadequadas, autoconfiança, falta de autorização para o vôo, falta de habilitação e má escolha do local. "Foi uma irresponsabilidade", avaliou. Um dos responsáveis técnicos da equipe do padre, o pára-quedista José Carlos Bon, que também participou da entrevista em Paranaguá, garantiu, no entanto, que ele tinha conhecimento para realizar o vôo. De acordo com ele, o suposto desconhecimento sobre o funcionamento do GPS, quando o padre pediu auxílio para lê-lo no primeiro contato feito com a terra, foi "algo do momento". "Alguma coisa aconteceu no GPS e ele pediu ajuda naquela situação específica e não porque não sabia manusear", afirmou. Bon acredita que o maior problema foi o padre ter encontrado uma nuvem muito espessa quando levantou vôo. "Ele achava que era uma camada fina", disse. Por isso, teve que subir mais que o previsto e pegou ventos contrários. Ele acentuou ter confiança que o padre está vivo, porque levava água e barras de cereais, além de bolsas que, na água, flutuam e podem suportar até 80 quilos. "Estou tranqüilo", reforçou.

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