MARCELO CHELLO / ESTADAO
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Dia dos Pais: Histórias de quem redescobriu a paternidade na pandemia

Convívio 24 horas com os filhos foi um empurrão para estreitar os laços de afeto e cuidado; novos pais avisam: querem manter o vínculo mesmo quando o vírus for embora

Gilberto Amendola e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

De repente, eles se viram cara a cara com os filhos, 24 horas por dia. O choro do bebê, as lições de casa, as rebeldias da adolescência - acompanhadas desde sempre pelas mulheres - entraram na rotina dos pais. Com um empurrão da pandemia, redescobriram a paternidade e já avisam: querem manter o vínculo construído na quarentena com as crianças, mesmo quando o vírus for embora.

“Aprendi a fazer mamadeira, trocar fraldas. Melhorei como pai e como marido”, garante Bruno Ângelo de Sousa, de 31 anos, pai de Cristal Alice, de 4. Em casa, o produtor de audiovisual Renan Castagnaro, de 34 anos, conseguiu acompanhar a primeira caminhada e as novas palavras no vocabulário do Chico. Já o produtor musical Álvaro Kapaz, de 40 anos, até se acostumou com o barulhinho da bagunça de Lucas, de 8, e Martin, de 5, enquanto trabalha. “É a coisa mais bonita essa surpresa que a gente sente quando os filhos fazem algo diferente, fazem perguntas, completam frases...”

A pandemia trouxe para mais perto o filho adolescente de Daniel Henrique Segundo, que morava no interior paulista. E, agora, o pai tem de se virar com as perguntas do menino sobre sexo e namoradas. Também mudou a vida do engenheiro Thomas Diepenbruck, de 49 anos, que passou a ficar com as filhas Nicole, de 12 anos, e Júlia, de 8, a semana toda. Teatro de marionetes, pães caseiros e até cover do Guns N’ Roses já fizeram juntos. “São esses momentos que ficam, que elas vão se lembrar quando tiverem 50 anos”, diz o engenheiro, que estudava as matérias da escola para ensinar as meninas durante as aulas remotas.

Nesse Dia dos Pais, o segundo da pandemia, o Estadão ouviu as histórias de cinco paulistanos que estreitaram os laços de afeto com os filhos durante a quarentena.

'Ser pai é abraçar o inesperado'

Apesar de se considerar um pai presente, o trabalho como produtor musical sempre fez com que Álvaro Kapaz, 40 anos, ficasse longos períodos fora de casa. "A natureza da profissão é viajar. Às vezes, por 20 dias ou mais", contou Kapaz.

Mas eis que em março do ano passado, os primeiros sinais da pandemia interromperam todas as atividades presenciais e, consequentemente, Kapaz começou a passar 24 horas em casa, junto dos filhos, Lucas, de 8 anos, e Martin, de 5. "Apesar dos problemas da pandemia, tem sido um privilégio estar presente todos os dias e horas. Acho que poucas gerações tiveram essa oportunidade de criar laços de amizade e cumplicidade", falou.

Para ele, a convivência cotidiana ultrapassou aquela rotina de "colocar para dormir", "dar banho" ou "levar para a escola". "Hoje, do meu escritório, ouço eles brincando. Passamos muito tempo exercitando a imaginação e inventando aventuras e brincadeiras em casa. Isso é um privilégio. Acho que plantamos as sementes de uma relação muito forte e duradoura", comemora.

Kapaz disse que nesta pandemia aprendeu que "ser pai é abraçar o inesperado". "É a coisa mais bonita essa surpresa que a gente sente quando os filhos fazem algo diferente, fazem perguntas, completam frases... Entender o que eles estão se transformando enquanto personalidades é muito enriquecedor", disse.

Um dos momentos mais curiosos da pandemia na casa de Kapaz era a indagação das crianças em relação ao trabalho do pai. "Se eles me chamavam para brincar e eu respondia que, naquele momento, estava trabalhando, a resposta vinha na ponta da língua: "Você não está trabalhando. Você está aqui no quarto vendo coisas no celular", contou.  

No último final de semana, Lucas e Martin foram para a casa da avó. O resultado é que o silêncio da casa chegou a incomodar Kapaz. "A primeira sensação foi a de não saber o que fazer em casa. Sinto falta dos barulhinhos", concluiu.

A aventura das primeiras palavras

Quando pensa na própria infância, o produtor de audiovisual Renan Castagnaro, de 34 anos, lembra que o pai, embora amoroso, quase nunca estava presente nos momentos de lazer. "Ele era metalúrgico. Trabalhava muito. Mesmo aos domingos", disse.

Agora, neste período pandêmico, Castagnaro pode fazer diferente. "No começo, a gente usava muito a televisão para distrair o Chico, mas logo percebemos que isso não fazia bem. Então, começamos a tirar um pouco a tecnologia e brincar mesmo de correr pela casa, de esconde-esconde", lembrou. "Tem sido um período em que a gente precisou aprender a ter paciência e entender melhor a criança. Comecei, por exemplo, a chamar o Chico para umas tarefas de casa, para me ajudar na cozinha, como me ajudar a descascar cenouras, guardar saladas em potinhos", disse.

Mas o que não teve preço foi a possibilidade de estar presente em momentos marcantes da vida do Chico, como a primeira caminhada e as primeiras palavras. "Fora da pandemia, seria normal que eu perdesse algum desses momentos. A gente fora de casa, lutando pelo sustento, acaba deixando escapar essas coisas", disse.

Agora, Castagnaro já está ansioso para o tempo passar um pouco mais depressa. "Não vejo a hora de ele ficar um pouco mais velho", afirmou. Apaixonado por skate, o pai quer ensinar o Chico as manobras do novo esporte olímpico. "Eu sempre levo ela para assistir. Ele fica na bicicletinha enquanto eu ando de skate. Ele até já subiu em um. Claro, não vou forçar, mas acho que ele pode ter essa conexão com o skate também", disse o pai skatista.  

Hora de cuidar das fraldas

Durante a pandemia, o combinado entre Bruno Ângelo de Sousa Silva, o MC Bob 13, de 31 anos, e a filha Cristal Alice, de 4, foi que, pelas manhãs, a menina sempre tirasse um tempinho para contar o sonho da noite anterior para o pai. Esse hábito adquirido no último ano tem fortalecido os laços entre os dois.

Quando a covid-19 instalou-se no País, Sousa estava vivendo o auge da sua carreira: a batalha de MC's, conhecida como Batalha da Aldeia levava cerca de 5 mil pessoas para a praça dos Estudantes, em Barueri, na Grande São Paulo. "Tudo mudou drasticamente. Tive de reinventar meu trabalho. E a minha filhinha, que ficava na escola o dia inteiro, passou a não mais sair do meu lado... O que foi incrível", disse.

Para o MC, o momento tem sido um momento de aprofundamento da paternidade e a possibilidade de ver sua própria filha se desenvolvendo e aprendendo coisas novas todos os dias.

Aliás, não foi só a Cristal quem aprendeu. "Eu aprendi a fazer mamadeira, trocar fraldas. Nestes tempos, eu melhorei como pai e como marido. Acabou essa coisa machista de que tudo ficava nas costas das mulheres. Agora, dividimos tudo. E a minha filha está aprendendo esses valores", disse.

Sousa contou que durante a pandemia também mudou de casa e que a mudança tem afetado, positivamente, a relação com a filha. "A gente morava nos fundos da casa da minha sogra, em um quarto pequeno, que media cinco por cinco. Consegui me mudar, hoje, moro no mesmo lugar em que trabalho, gravando vídeos e fazendo lives. Minha filha está podendo participar de tudo isso."

"Sabe, pai perfeito não existe. Mas estou fazendo o meu melhor, com muito amor. Esses dias, ela aprendeu a usar a palavra 'trollar'. Fica falando toda hora que está me 'trollando'. Essas pequenas descobertas me deixam muito feliz como pai", afirmou.

Construir um acervo de memórias

O engenheiro Thomas Diepenbruck, de 49 anos, gosta de dizer que o bom da vida é o acervo de memórias construído em momentos despretensiosos. Na pandemia, ele fez questão de encher esse baú de pequenas alegrias das filhas Nicole, de 12 anos, e Júlia, de 8.

Logo que começaram as restrições sanitárias, ele e a mãe das meninas, divorciados, decidiram mudar o esquema da guarda compartilhada para diminuir o vai e vem entre as casas. Em vez de dias alternados, Nicole e Júlia passaram a ficar a semana inteira com o pai.

A necessidade de cuidar das crianças em casa, que muitos veriam apenas como obrigação, foi uma oportunidade de viver a paternidade como o engenheiro sempre sonhou. “Espero ansiosamente a vez de estar com elas.” A semana em que as filhas ficam com a mãe é usada por ele para pesquisar atividades divertidas, como a recriação de pinturas famosas e experimentos científicos.

De home office ao lado das filhas, dava para tirar dúvidas sobre as aulas remotas e relembrar palavras escolares já esquecidas do mundo dos adultos, como “equinócios” e “solstícios”. Houve tempo para fazer exposição de artes no quarto, teatro de marionetes e até montar uma banda cover do Guns N’Roses - farra imortalizada em uma foto estampada na caneca de café da manhã.

Agora, a volta às aulas das meninas no Colégio Porto Seguro e a retomada do trabalho presencial chegam com uma pontinha de saudade para o pai e um prenúncio de novas mudanças na rotina, mas ele prefere não se apegar ao futuro. “O novo normal é sempre o momento que estamos vivendo. Vamos aproveitar cada dia.”

Sobre namoro e videogames

Na pandemia, a experiência paterna de Daniel Henrique Segundo ganhou novos contornos. Rafael, de 14 anos, filho do seu primeiro casamento, veio para São Paulo morar com ele. "A gente sempre foi muito próximo. Mesmo depois que ele mudou para Indaiatuba (interior de São Paulo) para morar com a mãe e a avó", disse. "Durante a pandemia, a situação na cidade em que morava com a mãe parecia ser mais preocupante. Então, ele veio morar comigo", completou.

Com um pré-adolescente em casa, Henrique se depara com situações inusitadas. "Ele é muito curioso. E está na fase em que tem, por exemplo, curiosidade sobre sexo. É cada pergunta...", brinca. Mas a pergunta que mais exigiu do pai foi: "Quantas namoradas você teve? E como você terminou com elas?".

Segundo o pai, Rafael está na fase do videogame. "Às vezes rola algum jogo em que também consigo brincar com ele. Mas, hoje em dia, quase todo videogame é para se jogar sozinho", reclama. "Mas já consegui fazer com que ele brincasse de stop comigo e a minha mulher", completa.

Como pré-adolescente, Rafa também gosta de preservar o seu espaço. "A gente tem que aprender a lidar. Não tem jeito. Ele gosta de ficar sozinho no quarto e reclama como qualquer um da idade dele se tento ficar mais perto", falou.

Henrique procura não ser o chato das regras, mas tem aprendido a impor limites e conversar sobre horários, escola e tudo mais que envolve ter um pré-adolescente de 14 anos. "Mas estamos aproveitando para estreitar os laços. É bonito ver como ele está se descobrindo. Por exemplo, ele experimentou e descobriu que gosta de comida japonesa. Isso é muito legal", disse.

Henrique e Rafa já estão conversando e existe a possibilidade do menino morar definitivamente com o pai, em São Paulo. "A pandemia deu uma atrasada em questões normais do crescimento. Acho que quando a pandemia acabar, será uma nova fase, e eu vou ter que rebolar. Vai ser a fase dos amigos, de querer sair de casa para passear, das namoradas... Ele procura referência. E eu espero ser essa referência pra ele", concluiu.

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