Tiago Queiroz|Estadão
O 'Estado' voltou a Brumadinho para mostrar o drama da população e os impactos do rompimento da barragem da Vale Tiago Queiroz|Estadão

O 'Estado' voltou a Brumadinho para mostrar o drama da população e os impactos do rompimento da barragem da Vale Tiago Queiroz|Estadão

Diário de Brumadinho: a cidade um ano depois da tragédia

A repórter Giovana Girardi e o fotógrafo Tiago Queiroz voltam a Brumadinho para mostrar o drama da população e os impactos do rompimento da barragem

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos) , enviados especiais a Brumadinho

Atualizado

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O 'Estado' voltou a Brumadinho para mostrar o drama da população e os impactos do rompimento da barragem da Vale Tiago Queiroz|Estadão

BRUMADINHO - No dia 25 de janeiro, uma das maiores tragédias da história do País completa um ano. O rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão deixou 259 mortos e 11 desaparecidos em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Para mostrar o drama da população atingida pelo desastre e os impactos socioeconômicos na região, o Estado enviou à cidade mineira a repórter Giovana Girardi e o repórter fotográfico Tiago Queiroz.

Confira a seguir as reportagens produzidas diretamente de Brumadinho:

  1. Diário de Brumadinho - Barulho de caminhão substitui helicópteros e passarinhos
  2. Diário de Brumadinho - A maior operação de busca e salvamento
  3. Diário de Brumadinho - De vilarejo bucólico a comunidade esvaziada
  4. Diário de Brumadinho - Casinhas que não têm teto, não têm nada
  5. Diário de Brumadinho - Para nunca esquecer

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Diário de Brumadinho: barulho de caminhão substitui helicópteros e passarinhos

'Estado' voltou à cidade um ano depois da tragédia que deixou mais de 200 mortos e encontrou um cenário diferente

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais a Brumadinho

15 de janeiro de 2020 | 08h00

BRUMADINHO, dia 356 - Era 25 de janeiro de 2019, às 12h28. Funcionários da Vale almoçavam quando a barragem de rejeitos B1 da mina do Córrego Feijão se rompeu

A lama arrastou o refeitório e toda a área administrativa da empresa, assim como parte das comunidades local e vizinhas. O córrego que dava o nome à mina, até então um fio de água, se transformou em instantes em um tsunami de lama. A força foi tão intensa que derrubou um pontilhão por onde passava uma estrada de ferro acima do córrego. Os restos do concreto e dos trilhos foram parar um quilômetro e meio à frente.

Duzentas e setenta e oito pessoas estavam no caminho da lama que desceu até o Rio Paraopeba. Apenas oito sobreviveram. Dos 270 mortos, 11 não foram encontrados até hoje. Em 24 horas após o acidente, 195 pessoas foram resgatadas da área diretamente afetada e do entorno.

O cenário dramático do pontilhão arrastado, com a lama mole e ainda alta cobrindo o que antes eram casas e árvores, foi a primeira imagem que vi da tragédia quando cheguei a Brumadinho, cinco dias depois do rompimento. Dali, talvez tivesse sido possível avistar, um dia antes, a Pousada Nova Estância. Não mais.

No céu azul e quente, sem vento, uma dezena de helicópteros voava de um lado a outro com sinistros sacos pretos pendurados. De repente, bombeiros acompanhados de cães naquele solo instável indicaram uma potencial vítima. Um helicóptero rapidamente desceu na tentativa de fazer um novo resgate, mas voltou a voar vazio.

Em meio a tanta devastação, me chamou a atenção que passarinhos de diferentes espécies ainda cantavam. Não teriam ainda se dado conta que seu hábitat acabara de ser destruído?

Foi esse icônico local que escolhi para fazer a primeira parada no meu retorno a Brumadinho. Desta vez, acompanhada do fotógrafo Tiago Queiroz, o plano era fazer um "antes e depois". O local estaria se recuperando? Os passarinhos teriam desaparecido?

A realidade foi um pouco frustrante, ao não permitir obter muitas respostas. Coberta com tapumes, a margem está em sua maior parte inacessível para trabalhos de recuperação. O remanescente da estrada de ferro, de onde muitas fotos foram feitas no ano passado, foi interditado. Ali, assim como na maior parte das áreas atingidas pelo mar de lama em Brumadinho, virou um canteiro de obras.

Mas logo abaixo do pontilhão, parecia ser possível ter um vislumbre do local. Paramos o carro em uma estrada perpendicular e, atravessando o mato, chegamos à beira do vale. Tiago se embrenhou um pouco para fazer algumas fotos, enquanto eu tentava puxar da memória elementos para uma comparação.

A lama certamente diminui. Foi retirada - um tanto deve ter secado. O barulho dos helicópteros foi substituído pelo de caminhões. São muitos, para cima e para baixo. Não consegui ouvir passarinhos, mas senti os insetos.

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Diário de Brumadinho: a maior operação de busca e salvamento  

'Estado' voltou à cidade um ano depois da tragédia que deixou mais de 200 mortos e encontrou um cenário diferente

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais

16 de janeiro de 2020 | 10h00

BRUMADINHO, dia 357 - O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais tem o simpático comportamento em relação à imprensa de anunciar todas as suas atividades em grupos de WhatsApp de jornalistas. No dia 25 de janeiro do ano passado, foi por uma mensagem dessas que soubemos na redação que "uma barragem tinha se rompido" em Brumadinho

Foi a colega Júlia Marques, mineira, que participava do grupo, quem viu a mensagem e deu o alerta. Foram necessários alguns minutos para entender a gravidade do desastre, iniciar a cobertura a partir da redação, acionar frilas, enviar correspondentes a campo. Nas horas e dias seguintes, praticamente toda a equipe da editoria Metrópole, e também das sucursais de Brasília e Rio, os plantonistas do portal e até mesmo o pessoal do Broadcast passou a acompanhar as notificações do "zap" dos bombeiros, que tiveram de abrir um segundo grupo para comportar não só a gente, mas tantos novos jornalistas de todo o Brasil.

Por ali, o tenente Pedro Aihara, porta-voz da corporação, mandava áudios em que tentava explicar o caos. As mensagens do grupo logo se mostraram a forma mais rápida de saber quantas pessoas haviam sido resgatadas, quantos corpos haviam sido encontrados, quantos ainda estavam desaparecidos. Por ali soubemos de sirenes acionadas, dos novos riscos. De que a busca não iria terminar tão cedo.

Diariamente, desde então, chega um informe sobre como será a operação naquele dia: quantos militares em ação, quantos cães, helicópteros, drones, quantas máquinas, quantas frentes de trabalho.

Na quarta-feira, 14, 356º dia da Operação Brumadinho, ainda estavam em campo 77 bombeiros. Ao todo, mais de 3.214 bombeiros mineiros e de outros Estados passaram pela operação, numa média de 130 por dia.

No início, a busca só podia ser feita por ar. No auge, chegaram a ocorrer 299 voos pousos e decolagens por dia, mais do que a movimentação diária do aeroporto de Confins. Numa etapa posterior, cães passaram a ser elementos fundamentais, encontrando os corpos pelo odor.

Agora, segundo o tenente-coronel Alysson Malta, coordenador da operação, o foco maior está nos maquinários. Nos últimos dias, cerca de 150 máquinas atuam na região, além de drones e equipamentos que conseguem identificar a presença de metal sob a lama, que podem representar algum equipamento que possa ter algum corpo.

Cartinhas e incentivo

No que é considerada a maior operação de busca e salvamento do Brasil, os bombeiros contam com alguns incentivos para seguir em frente. Prestes a completar um ano, ainda não foram encontradas ou identificadas 11 pessoas que foram atingidas pelos rejeitos da barragem da Vale no dia 25 de janeiro do ano passado. Ao todo, 270 morreram na tragédia.

Alguns dias depois da tragédia, crianças das regiões afetadas pelo desastre, principalmente da comunidade do Córrego do Feijão, a que ficava mais perto da mina, começaram a enviar cartinhas para os bombeiros em agradecimento aos esforços deles em buscar seus pais, mães, familiares, amigos, conhecidos.

Desenhos deixavam claro como as crianças estavam vendo a tragédia: pessoas e animais em meio à lama gritando socorro, bombeiros descendo de helicóptero para retirá-las daquele cenário.

No início os militares ficavam ao lado da igreja do Córrego do Feijão, a principal comunidade atingida. Era no jardim em frente à igreja onde pousavam helicópteros, os sacos com corpos eram colocados para serem levados ao IML. A população, já fragilizada, acompanhava a movimentação de perto.

Alguns meses depois, a operação foi movida para o outro lado do vale por onde o tsunami de lama se esparramou, mas as cartinhas continuaram chegando - e se multiplicaram. Hoje estão às centenas na Base Bravo, onde os bombeiros agora se concentram para as operações diárias.

Na sala principal da operação, uma bandeira do Brasil retirada do meio da lama inspira os profissionais para uma busca que parece não ter fim. Não tem pessoa em Brumadinho que não conheça alguém que tenha morrido naquele dia.

Uma semana após o rompimento da barragem, no ano passado, ouvi de Aihara que seu maior objetivo naquele momento, passada já a chance de encontrar pessoas com vida, era devolver às famílias um corpo para enterrar, para fechar um ciclo. Fornecer acolhimento, conforto.

Na terça-feira, 14, ao fazer um balanço para a imprensa deste quase um ano da operação, o tenente-coronel Malta repetiu essa expressão que virou quase um mantra, assim como algumas palavras-chave, quase gritos de guerra que os militares usam para manter a luta. "Fomos os primeiros a chegar e seremos os últimos a sair"; "Desistir não é uma opção"; "Enquanto houver possibilidade, haverá empenho"; "Enquanto uma família chorar, estaremos aqui."

Da etapa mais recente da operação, cerca de 95% de toda a área já contou com análise em uma faixa de três metros de profundidade, onde a maioria dos corpos foi encontrada. Faltam apenas 5% para completar esta fase, onde está a esperança de encontrar todo mundo que falta.

Desde o início do ano, as chuvas atingem a região quase todos os dias. Para continuar os trabalhos nessas condições, duas enormes tendas foram montadas em meio à chamada zona quente, para receber os rejeitos, onde os bombeiros fazem uma vistoria atrás de segmentos de corpos. Com 150 x 50 metros cada uma, elas ocupam uma área de 15 mil metros quadrados.

Mesmo quase um ano após a tragédia, em quase todos os dias, segundo Malta, ainda são encontrados segmentos de corpos. Nem sempre humanos, nem sempre de pessoas que ainda não foram localizadas.

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Diário de Brumadinho: de vilarejo bucólico a comunidade esvaziada

Há um ano, Córrego do Feijão tinha cerca de 600 habitantes, mas lama destruiu vidas, casas, comércio e até uma cachoeira

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais a Brumadinho

17 de janeiro de 2020 | 10h00

BRUMADINHO, dia 358 - Duas comunidades de Brumadinho foram particularmente afetadas pelo rompimento da barragem de rejeitos de minério da Vale em 25 de janeiro de 2019: o Córrego do Feijão, onde ficavam a mina e a barragem, e o Parque da Cachoeira, que ficou na linha de frente do mar de lama.

Dos 270 mortos na tragédia - dos quais 11 ainda não foram identificados -, 35 eram do Córrego do Feijão ou tinham família lá. Do Parque da Cachoeira, cinco pessoas morreram, mas ali foi onde mais casas foram atingidas: 66.

Além de levar vidas, a lama destruiu moradias, sítios, hortas. Córrego, lagoas. Até uma cachoeira desapareceu. Muitas pessoas venderam suas casas por não aguentar viver com tantas lembranças.

Hoje, quem continua morando nas duas comunidades já não sente mais um senso de pertencimento por não reconhecer o local onde estão. A paisagem mudou, os vizinhos se foram, a tristeza é permanente.

Há um ano, o Córrego do Feijão, uma comunidade rural de apenas cerca de 600 habitantes, deixou de ser um vilarejo bucólico para se tornar o ponto nevrálgico de toda a operação de busca e de atendimento às famílias.

Quando pisei lá pela primeira vez, em 31 de janeiro do ano passado, a primeira coisa que chamou a atenção foi o som incessante de helicópteros sobrevoando a região.

A imagem deles era ainda mais marcante. Sacos pretos eram transportados pelas aeronaves, pendurados no ar. Saber o que tinha dentro apertava o coração. Eles carregavam corpos ou segmentos de corpos que tinham acabado de ser retirados da lama.

Naquele dia completava-se uma semana da tragédia. O córrego estava lotado de carros dos bombeiros, da Vale, de outras empresa terceirizadas. E muitos jornalistas. Para marcar a data, haveria uma homenagem sobre a área coberta pela lama.

No final de uma rua da comunidade, algumas quadras depois da igreja, era possível avistar com clareza a extensão do mar de rejeitos. Apesar da quantidade enorme de gente, dava para distinguir perfeitamente quem era local. O olhar distante para a lama, que guardava uma esperança de que pessoas queridas pudessem emergir de lá. O choro desesperado daqueles que percebiam que o estrago era tão grande que já não havia mais chance de tirar alguém com vida.

Pessoas de vários cantos do Brasil tinham mandado para os bombeiros rosas em homenagem às vítimas. Por algum tempo, as buscas foram interrompidas, os helicópteros foram carregados com as flores e se alinharam no céu. Umas dez aeronaves, talvez mais, jogaram as pétalas sobre a lama. O som era ensurdecedor, dava um nó no peito, na garganta. Eu e o colega André Borges, que havia chegado a Brumadinho antes de mim, nos abraçamos e choramos. Ele fez um triste relato do dia aqui, com imagens do também colega Wilton Júnior.

Por cerca de três meses, a igreja católica virou a base dos bombeiros. No campinho do local, pousavam os helicópteros para deixar os corpos encontrados na lama ou os segmentos de corpos. A sede da associação de moradores virou uma espécie de Instituto Médico Legal (IML) improvisado, onde os corpos ficavam antes de serem encaminhados para o IML mesmo.

O salão comunitário, onde eram feitos eventos, festas da comunidade, passou a ser o ponto de atendimento da Vale e de doações. A escola virou dormitório dos bombeiros. A igreja evangélica foi usada como dormitório também. A quadra foi usada como hospital veterinário.

"Tudo que está aqui sempre vai relembrar a tragédia, o dia da tragédia", me contou nesta quinta-feira, 16, o estudante de Direito Jeferson Custódio Santos Vieira, presidente da Associação de Moradores do Córrego do Feijão.

Passado um ano, o cenário é completamente diferente. Não se escutam as pessoas, mas o silêncio não reina. Foi substituído pelo barulho de caminhões e caminhonetes que passam de um lado para o outro. A poeira sobe, as pessoas se angustiam.

Jeferson calculou que 49 famílias, das cerca de 180, já abandonaram o local para moradias temporárias fornecidas pela Vale. "Fora as que já saíram para valer." 

Não se veem pessoas nas ruas. Os poucos comércios que existiam foram fechados, como a papelaria e a mercearia, por falta de clientes, por aumento da criminalidade.

"Mas também porque as pessoas não conseguem trabalhar", explica Jeferson.

Nem a água da torneira, que eles sempre consumiram, está mais disponível. Após o rompimento da barragem, a Vale criou um novo sistema de captação, mas os moradores não confiaram na água que às vezes sai amarronzada das torneiras. Passaram a receber, semanalmente, garrafas plásticas de água mineral. Cada família recebe 10 fardos. Em crítica a essa situação, uma árvore de Natal com as garrafas pets foi montada na praça da comunidade.

O fotógrafo Tiago Queiroz e eu andamos pelas ruas atrás de pessoas antes de encontrarmos o líder comunitário. Quase ninguém estava à vista. Dois grupos estavam fazendo cursos de tricô e jardinagem, este bancado pela Vale, para "passar o tempo", como disse o rapaz, que perdeu a avó que lhe criou como mãe na tragédia.

Vimos um grupinho de quatro ou cinco homens conversando com uma mulher. Ela vestia uma blusa de uniforme e imaginei que era de uma das empresas que prestam serviço no local. Chegamos perto, nos apresentamos, dissemos que estávamos fazendo matéria sobre um ano do desastre e queríamos entender como estava o Córrego do Feijão.

Um dos rapazes nos cortou: "Não podemos falar sobre isso. Estamos fazendo entrevista de emprego". Não consegui entender bem a relação. Aquele encontro, no meio da pracinha, era a entrevista de emprego.

No próximo texto, vou falar sobre o Parque da Cachoeira.

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Diário de Brumadinho: casinhas que não têm teto, não têm nada

Cemitério de casinhas se formou no Parque da Cachoeira após a invasão pelo mar de lama. Cinco pessoas da comunidade morreram e 66 residências foram atingidas

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), Enviados especiais

18 de janeiro de 2020 | 10h00

BRUMADINHO - O mar de lama que tomou duas ruas da comunidade Parque da Cachoeira em 25 de janeiro do ano passado, quando rompeu a barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho, deixou para trás um cemitério de casinhas.

O que eram fachadas azuladas e bem arrumadas, assumiram um tom amarronzado, despidas de janelas e portas – retiradas, em muitos casos, após a tragédia. Algumas perderam o telhado, até as paredes. “Por culpa da Vale, agora é só lembranças”, diz uma frase escrita em uma delas com pedaço de carvão.

Num cômodo, a parede ficou em pé, mas o teto se foi, e a janela que restou emoldura o cenário da tragédia como se fosse um quadro. Em outra casinha, ao lado desta, uma marca de mão com lama aumenta o tom dramático. A parte da frente da casa sofreu um rombo, tijolos podem ser vistos no que sobrou da estrutura, assim como um sofá, tombado e amassado pelos restos das paredes.

Cinco pessoas morreram na comunidade, que foi a mais atingida em termos de danos estruturais, com 66 casas alcançadas pela onda de rejeitos, muitas delas destruídas. Mas os impactos para os moradores da região e de bairros vizinhos, como o Tejuco, vão muito além.

No Parque, pequenos agricultores cultivavam hortaliças. Nos córregos e lagoas, a diversão era pescar. Uma cachoeira e uma prainha de rio eram atrativos para turistas. Tudo desapareceu sob a lama. A queda d’água, contam moradores da comunidade, chegava a 15 metros. Essa é a profundidade estimada que foi ocupada pelos rejeitos.

Apenas uma moradora dessa região afetada permanece no local e insiste em só sair de lá quando for indenizada. A tragédia, porém, está diariamente a sua vista, apenas 60 metros de sua casa. Um pouco mais alta na rua, a moradia não chegou a ser atingida, mas ela teve tempo de ver do seu quintal, antes de sair correndo de sua casa há um ano, o mar de lama arrastando máquinas, casas, hortas, árvores. Gente.

A maioria de seus vizinhos foi embora para moradias temporárias fornecidas pela Vale. As pessoas não aguentaram os sobrevoos constantes de helicópteros dos bombeiros em busca de vítimas, o mau cheiro, a paisagem destruída. O fato de corpos serem encontrados em seus quintais. A vida pacata foi substituída por um cenário de invasão.

Dona Maria tinha um pequeno barzinho, na garagem de casa, em que vendia bebidas e comidinhas para os visitantes da cachoeira. Faz um ano que as portas do pequeno comércio nunca mais abriram.

Na outra rua atingida, o desastre bateu literalmente à janela de uma das casas. É possível alcançar a lama endurecida com as mãos a partir do parapeito. No jardim, uma mangueira frondosa evidencia o ano que se passou. A árvore frutificou há tempos, mas ninguém se beneficou. Centenas de mangas jazem apodrecidas no chão.

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Diário de Brumadinho: para nunca esquecer

Familiares temem que tragédia, que destruiu vidas e comunidades, seja esquecida; 11 corpos ainda estão sob a lama ou não foram identificados pelo IML

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais

19 de janeiro de 2020 | 12h40

BRUMADINHO - No nosso último dia em Brumadinho, dos cinco que ficamos na cidade, fomos presenteados com breves poemas do Giovanni Frigo, o funcionário da pousada onde estávamos hospedados.

“Reportar

Recortar

Recordar

Acordar o que dorme

Recompor o que se esqueceu

Apontar novos caminhos

Trazer à tona

Os que se foram.”

 

“Não duvides

Não esmoreças

Possuis o dom 

Da imaginária

Da transparência

Da palavra

Da imagem

Traga à tona a outra história

Tire a dúvida de quem ainda não vê.”

Com essas palavras escritas pra mim e para o Tiago, entregues junto com dois pedacinhos de minério de ferro, ele reforçou para nós uma das principais mensagens que escutamos ao longo da semana: é preciso não esquecer o que ocorreu em Brumadinho há quase um ano.

Naquele 25 de janeiro de 2019, às 12h28, a barragem B1 de rejeitos de minério da Vale rompeu no Córrego do Feijão, matando 270 pessoas – 272 quando contados os dois bebês ainda dentro da barriga das mães. Onze corpos ainda estão sob a lama ou não foram identificados pelo IML.

O tsunami de lama levou embora boa parte da área de operação da própria empresa, sítios vizinhos, uma pousada, hortas, córregos, lagoas, máquinas, ônibus, caminhões, árvores. Afetou a comunidade do Córrego do Feijão, entrou no curso do ribeirão Ferro e Carvão, passou por cima de duas ruas do Parque da Cachoeira até desviar por cima da estrada Alberto Flores, que liga a área urbana à área rural e cair no Paraopeba, contaminando o rio.

Foram 10,5 milhões de metros cúbicos de rejeito, o que equivale a 4,2 mil piscinas olímpicas. Os bombeiros de Minas compararam que com a quantidade seria possível fazer quatro pirâmides de Queóps, a maior do Egito. A área tomada pela lama tem 10 km lineares e 32 km de perímetro de mancha.

A cidade em si, não foi atingida pelos rejeitos, apesar da ideia que circulou mundo afora de que Brumadinho inteira foi tomada pela lama. Mas foi afetada de inúmeras maneiras, que vamos explicar melhor na reportagem especial que será publicada na semana que vem.

Numa cidade que tinha, então, cerca de 38 mil habitantes, não tem ninguém que diga que não conhecia nenhuma vítima: eram parentes próximos ou distantes, ou eram amigos de infância, do trabalho, colegas de universidade, vizinhos, conhecidos da igreja, do comércio. Todos que morreram eram clientes de alguém.

Mesmo quem não tivesse nenhuma pessoa querida na tragédia, foi afetado pela cidade dividida ao meio com a estrada interditada, pelo som constante dos helicópteros, pela tristeza dos seus conhecidos.

O secretário de Saúde de Brumadinho, Junio Araújo Alves, conta que em um só dia ouviu por 26 vezes uma marcha que tocava nos enterros das vítimas. Seu gabinete fica nas Policlínicas, ao lado do cemitério mais tradicional da cidade, e dali podia escutar todas as cerimônias. “Várias vezes, ao ouvir o chamado de quem seria enterrado, eu saía e ia acompanhar. Era o pai de alguém daqui de dentro, o marido, o filho…”, me disse.

Os familiares, os mais próximos têm medo de que a tragédia seja esquecida. “Já passou um ano, Brumadinho ficou marcada pela tragédia, mas as pessoas de fora não sabem o que ainda vivemos aqui”, me disse a secretária de Desenvolvimento Social, Christiane Passos.

O medo maior é de que uma reparação mais ampla, que vai além de indenizações, não seja feita. Eles temem que não se preserve a memória das vítimas. Ainda esperam um pedido de desculpas da Vale.

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