Tiago Queiróz/Estadão
Tiago Queiróz/Estadão

Diário de Brumadinho: casinhas que não têm teto, não têm nada

Cemitério de casinhas se formou no Parque da Cachoeira após a invasão pelo mar de lama. Cinco pessoas da comunidade morreram e 66 residências foram atingidas

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), Enviados especiais

18 de janeiro de 2020 | 10h00

BRUMADINHO - O mar de lama que tomou duas ruas da comunidade Parque da Cachoeira em 25 de janeiro do ano passado, quando rompeu a barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho, deixou para trás um cemitério de casinhas.

O que eram fachadas azuladas e bem arrumadas, assumiram um tom amarronzado, despidas de janelas e portas – retiradas, em muitos casos, após a tragédia. Algumas perderam o telhado, até as paredes. “Por culpa da Vale, agora é só lembranças”, diz uma frase escrita em uma delas com pedaço de carvão.

Num cômodo, a parede ficou em pé, mas o teto se foi, e a janela que restou emoldura o cenário da tragédia como se fosse um quadro. Em outra casinha, ao lado desta, uma marca de mão com lama aumenta o tom dramático. A parte da frente da casa sofreu um rombo, tijolos podem ser vistos no que sobrou da estrutura, assim como um sofá, tombado e amassado pelos restos das paredes.

Cinco pessoas morreram na comunidade, que foi a mais atingida em termos de danos estruturais, com 66 casas alcançadas pela onda de rejeitos, muitas delas destruídas. Mas os impactos para os moradores da região e de bairros vizinhos, como o Tejuco, vão muito além.

No Parque, pequenos agricultores cultivavam hortaliças. Nos córregos e lagoas, a diversão era pescar. Uma cachoeira e uma prainha de rio eram atrativos para turistas. Tudo desapareceu sob a lama. A queda d’água, contam moradores da comunidade, chegava a 15 metros. Essa é a profundidade estimada que foi ocupada pelos rejeitos.

Apenas uma moradora dessa região afetada permanece no local e insiste em só sair de lá quando for indenizada. A tragédia, porém, está diariamente a sua vista, apenas 60 metros de sua casa. Um pouco mais alta na rua, a moradia não chegou a ser atingida, mas ela teve tempo de ver do seu quintal, antes de sair correndo de sua casa há um ano, o mar de lama arrastando máquinas, casas, hortas, árvores. Gente.

A maioria de seus vizinhos foi embora para moradias temporárias fornecidas pela Vale. As pessoas não aguentaram os sobrevoos constantes de helicópteros dos bombeiros em busca de vítimas, o mau cheiro, a paisagem destruída. O fato de corpos serem encontrados em seus quintais. A vida pacata foi substituída por um cenário de invasão.

Dona Maria tinha um pequeno barzinho, na garagem de casa, em que vendia bebidas e comidinhas para os visitantes da cachoeira. Faz um ano que as portas do pequeno comércio nunca mais abriram.

Na outra rua atingida, o desastre bateu literalmente à janela de uma das casas. É possível alcançar a lama endurecida com as mãos a partir do parapeito. No jardim, uma mangueira frondosa evidencia o ano que se passou. A árvore frutificou há tempos, mas ninguém se beneficou. Centenas de mangas jazem apodrecidas no chão.

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