Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Diário de Brumadinho: de vilarejo bucólico a comunidade esvaziada

Há um ano, Córrego do Feijão tinha cerca de 600 habitantes, mas lama destruiu vidas, casas, comércio e até uma cachoeira

Giovana Girardi (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais a Brumadinho

17 de janeiro de 2020 | 10h00

BRUMADINHO, dia 358 - Duas comunidades de Brumadinho foram particularmente afetadas pelo rompimento da barragem de rejeitos de minério da Vale em 25 de janeiro de 2019: o Córrego do Feijão, onde ficavam a mina e a barragem, e o Parque da Cachoeira, que ficou na linha de frente do mar de lama.

Dos 270 mortos na tragédia - dos quais 11 ainda não foram identificados -, 35 eram do Córrego do Feijão ou tinham família lá. Do Parque da Cachoeira, cinco pessoas morreram, mas ali foi onde mais casas foram atingidas: 66.

Além de levar vidas, a lama destruiu moradias, sítios, hortas. Córrego, lagoas. Até uma cachoeira desapareceu. Muitas pessoas venderam suas casas por não aguentar viver com tantas lembranças.

Hoje, quem continua morando nas duas comunidades já não sente mais um senso de pertencimento por não reconhecer o local onde estão. A paisagem mudou, os vizinhos se foram, a tristeza é permanente.

Há um ano, o Córrego do Feijão, uma comunidade rural de apenas cerca de 600 habitantes, deixou de ser um vilarejo bucólico para se tornar o ponto nevrálgico de toda a operação de busca e de atendimento às famílias.

Quando pisei lá pela primeira vez, em 31 de janeiro do ano passado, a primeira coisa que chamou a atenção foi o som incessante de helicópteros sobrevoando a região.

A imagem deles era ainda mais marcante. Sacos pretos eram transportados pelas aeronaves, pendurados no ar. Saber o que tinha dentro apertava o coração. Eles carregavam corpos ou segmentos de corpos que tinham acabado de ser retirados da lama.

Naquele dia completava-se uma semana da tragédia. O córrego estava lotado de carros dos bombeiros, da Vale, de outras empresa terceirizadas. E muitos jornalistas. Para marcar a data, haveria uma homenagem sobre a área coberta pela lama.

No final de uma rua da comunidade, algumas quadras depois da igreja, era possível avistar com clareza a extensão do mar de rejeitos. Apesar da quantidade enorme de gente, dava para distinguir perfeitamente quem era local. O olhar distante para a lama, que guardava uma esperança de que pessoas queridas pudessem emergir de lá. O choro desesperado daqueles que percebiam que o estrago era tão grande que já não havia mais chance de tirar alguém com vida.

Pessoas de vários cantos do Brasil tinham mandado para os bombeiros rosas em homenagem às vítimas. Por algum tempo, as buscas foram interrompidas, os helicópteros foram carregados com as flores e se alinharam no céu. Umas dez aeronaves, talvez mais, jogaram as pétalas sobre a lama. O som era ensurdecedor, dava um nó no peito, na garganta. Eu e o colega André Borges, que havia chegado a Brumadinho antes de mim, nos abraçamos e choramos. Ele fez um triste relato do dia aqui, com imagens do também colega Wilton Júnior.

Por cerca de três meses, a igreja católica virou a base dos bombeiros. No campinho do local, pousavam os helicópteros para deixar os corpos encontrados na lama ou os segmentos de corpos. A sede da associação de moradores virou uma espécie de Instituto Médico Legal (IML) improvisado, onde os corpos ficavam antes de serem encaminhados para o IML mesmo.

O salão comunitário, onde eram feitos eventos, festas da comunidade, passou a ser o ponto de atendimento da Vale e de doações. A escola virou dormitório dos bombeiros. A igreja evangélica foi usada como dormitório também. A quadra foi usada como hospital veterinário.

"Tudo que está aqui sempre vai relembrar a tragédia, o dia da tragédia", me contou nesta quinta-feira, 16, o estudante de Direito Jeferson Custódio Santos Vieira, presidente da Associação de Moradores do Córrego do Feijão.

Passado um ano, o cenário é completamente diferente. Não se escutam as pessoas, mas o silêncio não reina. Foi substituído pelo barulho de caminhões e caminhonetes que passam de um lado para o outro. A poeira sobe, as pessoas se angustiam.

Jeferson calculou que 49 famílias, das cerca de 180, já abandonaram o local para moradias temporárias fornecidas pela Vale. "Fora as que já saíram para valer." 

Não se veem pessoas nas ruas. Os poucos comércios que existiam foram fechados, como a papelaria e a mercearia, por falta de clientes, por aumento da criminalidade.

"Mas também porque as pessoas não conseguem trabalhar", explica Jeferson.

Nem a água da torneira, que eles sempre consumiram, está mais disponível. Após o rompimento da barragem, a Vale criou um novo sistema de captação, mas os moradores não confiaram na água que às vezes sai amarronzada das torneiras. Passaram a receber, semanalmente, garrafas plásticas de água mineral. Cada família recebe 10 fardos. Em crítica a essa situação, uma árvore de Natal com as garrafas pets foi montada na praça da comunidade.

O fotógrafo Tiago Queiroz e eu andamos pelas ruas atrás de pessoas antes de encontrarmos o líder comunitário. Quase ninguém estava à vista. Dois grupos estavam fazendo cursos de tricô e jardinagem, este bancado pela Vale, para "passar o tempo", como disse o rapaz, que perdeu a avó que lhe criou como mãe na tragédia.

Vimos um grupinho de quatro ou cinco homens conversando com uma mulher. Ela vestia uma blusa de uniforme e imaginei que era de uma das empresas que prestam serviço no local. Chegamos perto, nos apresentamos, dissemos que estávamos fazendo matéria sobre um ano do desastre e queríamos entender como estava o Córrego do Feijão.

Um dos rapazes nos cortou: "Não podemos falar sobre isso. Estamos fazendo entrevista de emprego". Não consegui entender bem a relação. Aquele encontro, no meio da pracinha, era a entrevista de emprego.

No próximo texto, vou falar sobre o Parque da Cachoeira.

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