Dias piores virão

A propósito da disputa entre os dois principais partidos da aliança governista, o ministro da Previdência, Garibaldi Alves, admitiu na semana passada - em plena vigência da trégua combinada entre PT e PMDB até o início de fevereiro - que a relação entre os dois partidos não tem sido "fácil".

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Até aí, apenas corroborou a evidência dos fatos.

Em seguida, porém, fez um prognóstico tão distante da realidade e da capacidade de avaliação acumulada em décadas de experiência política, que soou como ironia. "Não acredito que os conflitos se agravem, vem aí o novo ano legislativo e a tendência é amenizar."

A referência ao "novo ano legislativo" faz algum sentido, mas tem prazo de validade. A chegada dos novatos de fato pode reduzir a tensão e amenizar as pressões da bancada "velha" cheia de vícios e de contenciosos acumulados.

Mas não modificará a natureza do partido. Assim como o PT não mudará sua visão das coisas: a de que o PMDB bem ou mal tem muito a perder e, portanto, sempre tenderá a recuar. Por essa avaliação, o parceiro deve ser contido por insaciável. "Se dermos a eles 90% do governo, ainda são capazes de reclamar", diz um ministro.

É verdade, mas há um detalhe essencial: o PMDB não é um partido disciplinado nem disposto a pagar qualquer preço eternamente sem reagir. Michel Temer, mesmo sendo sido indicado vice-presidente da República em uníssono, precisa administrar permanentemente a tropa para não perder sustentação interna.

Recuou agora porque a batalha da comunicação estava perdida, mas registrou o gesto do governo como uma tentativa de afirmação de autoridade exclusivamente em cima do partido, como se nas outras legendas, PT inclusive, não houvesse questionamentos de conduta e fisiologismo desenfreado.

O revide, ponderam dirigentes, não pode ser dado de maneira barulhenta. "Isso é papel da oposição." O dos peemedebistas será, mais adiante, escolher um assunto de apelo popular, mas não do interesse do governo de firmar posição no Congresso.

O governo já deixou as reformas de lado, mas sempre haverá uma agenda, uma investigação, uma convocação a abrir campo para a atuação do PMDB no Congresso, onde é forte.

E é aí onde se darão as batalhas e se expressará a tensão, contrariando o prognóstico otimista (ou irônico?) feito por Garibaldi Alves de que dias melhores virão. Não há risco.

Bandeirantes. Alguns tucanos simpatizantes de José Serra reclamam, mas o propriamente dito não está nem um pouco insatisfeito com a montagem do governo Geraldo Alckmin. Serra e o governador de São Paulo estão afinados, inclusive para se ajudar mutuamente.

Eleitoral e partidariamente falando. Serra não decidiu ainda o que fará da vida. De imediato, pois em médio prazo será candidato ao governo de São Paulo ou a presidente outra vez.

O caminho para chegar lá pode passar ou não pela presidência do PSDB. Depende do que conferir mais liberdade para fazer o debate de posição.

Novo modelo. Fala-se, até com ênfase, no governo Dilma Rousseff em uma mudança nas relações com os movimentos sociais. Não se especificam ainda quais, mas diante da curiosidade de um interlocutor, um ministro muito próximo da presidente rebateu enigmático depois de ter dado a pista: "E você acha que está bom, que não precisa mudar?"

Mais não foi dito, numa demonstração de que as mudanças não são para ser anunciadas e sim executadas.

A reação agressiva das centrais sindicais por não terem tido da presidente tratamento de portas abertas ao qual estavam acostumadas com o antecessor parece indicar que já sentiram o aroma de distanciamento no ar.

Correção. Os ex-governadores de Minas Itamar Franco e do Paraná Jaime Lerner informam que não recebem aposentadorias dos Estados. Os nomes constavam dos dados passados à OAB.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.