Beto Barata/AE
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Dilma avisa base que Pagot está fora do Dnit

Mesmo após o diretor ter poupado o governo em seus depoimentos no Congresso, presidente afirma que sua decisão ''está tomada''

Vera Rosa e João Domingos / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2011 | 00h00

A presidente Dilma Rousseff desautorizou líderes da base aliada que admitiram a possibilidade de recondução de Luiz Antonio Pagot ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Irritada com as especulações sobre o assunto, Dilma foi taxativa: disse a mais de um ministro que sua decisão está tomada e que ele não voltará ao comando do Dnit.

Sem saber da bronca dada por Dilma nos aliados que recomendaram o seu retorno, Pagot afirmou ontem que o Dnit precisa ter mais "independência" do Ministério dos Transportes para reduzir a burocracia. Embora esteja na berlinda, envolvido em denúncias de superfaturamento de obras para abastecer o caixa de seu partido, o PR, ele ainda impôs ontem condições para permanecer na autarquia.

"Se a presidente Dilma assim quiser, eu posso continuar à frente do Dnit, mas preciso ter uma longa conversa com ela", disse ele, após prestar depoimento de mais de sete horas, na Câmara dos Deputados. "Eu gostaria de ficar. Comecei a fazer mudanças lá e posso continuar a fazê-las. Mas não posso mais ficar dependendo do Serpro, que fica dois anos encarregado de um estudo e não entrega. Preciso de uma infraestrutura de ponta na informática." Indagado se aceitaria outra cadeira, respondeu: "Não aceito convite para outra área que não seja o Dnit".

A contrariedade de Dilma com os rumores sobre a permanência de Pagot foi transmitida aos 14 senadores do PT que participaram, terça-feira, de jantar com as ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Ideli Salvatti (Relações Institucionais), na casa da senadora Marta Suplicy (PT-SP).

Na avaliação da presidente, que ontem à noite ofereceu coquetel a líderes de partidos aliados, no Palácio da Alvorada, o gesto seria interpretado como um "prêmio" depois que Pagot poupou o governo das acusações sobre cobrança de propina em depoimentos dados à Câmara e ao Senado, nos últimos dois dias. O Planalto temia que ele tentasse implicar integrantes do governo no escândalo, como o ministro Paulo Bernardo, que era ministro do Planejamento no governo Lula. "Desde o início, achava que isso era conversa fiada", disse ontem Bernardo sobre as especulações de que Pagot teria dito a parlamentares que era ele, quando titular do Planejamento, quem dava ordens de aditamentos de contratos de licitações.

Férias. Afilhado do senador Blairo Maggi (PR-MT), Pagot foi afastado por Dilma da direção do Dnit no rastro das denúncias de corrupção que atingiram o Ministério dos Transportes, há quase duas semanas, mas oficialmente está em férias. A troca de comando nos Transportes e nas repartições subordinadas ao ministério provocou revolta no PR, mas Dilma avisou que não recuará.

Por ordem da presidente, porém, Ideli recebeu ontem o líder do partido na Câmara, Lincoln Portela (MG), e o deputado Luciano Castro (RR) para fazer um afago. Disse a eles que o partido continuará prestigiado na coalizão governista. Garantiu, ainda, que as indicações para o Dnit e a Valec, a estatal que cuida das ferrovias, serão discutidas com o PR. "O vaso trincou, mas não quebrou", resumiu o deputado Milton Monti (PR-SP), presidente da Comissão de Transportes da Câmara.

PARA LEMBRAR

Órgão já nasceu de escândalo

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes já nasceu de um escândalo. A autarquia foi criada em 2001 com a extinção do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), que esteve no centro da "máfia dos precatórios", descoberta em 1999, durante o governo FHC. Na época, funcionários do DNER foram acusados de favorecer o pagamento de indenizações judiciais milionárias mediante o recebimento de propina.

Desde então, as suspeitas de irregularidades no órgão não cessaram. Em 2004, o diretor-geral do Dnit, José Antonio da Silva Coutinho, foi exonerado após acusar o então ministro dos Transportes, Anderson Adauto, de desviar para outros projetos financiamentos que deveriam ser empregados na construção de estradas. O ministro caiu um mês depois.

Em 2009, o senador Mário Couto (PSDB-PA) tentou, sem sucesso, abrir uma CPI para investigar supostas irregularidades no órgão, principalmente durante a gestão do diretor-geral agora afastado, Luiz Antonio Pagot. Diante da nova onda de denúncias, o PSDB já se articula para coletar assinaturas com o objetivo de ressuscitar essa CPI que nunca saiu do papel.

 

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