Ed Ferreira/AE
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Dilma cobra aviso sobre operação da PF

Para evitar surpresas, presidente exige que ministro da Justiça a informe com antecedência de ações como a desencadeada no Turismo

Vera Rosa, Felipe Recondo e Vannildo Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2011 | 00h00

Surpreendida pela operação da Polícia Federal no Ministério do Turismo, a presidente Dilma Rousseff cobrou do ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, informações mínimas para não ter de acordar a cada dia com uma nova crise. Como no governo Lula (2003-2010), a presidente quer ser avisada com antecedência sobre as operações.

Além dos conflitos na base aliada e da crise econômica, Dilma não quer ser surpreendida por crises políticas criadas pelas operações da PF que interfiram no dia a dia do governo. Sobre o uso de algemas nas prisões dos secretários do Ministério do Turismo - uma reclamação dos parlamentares -, a PF disse que seguiu a regra legal: os presos só foram algemados na hora do embarque para Macapá. O manual da polícia não permite transportar presos como se estivessem fazendo uma viagem aérea comum.

Por ordem de Dilma, Cardozo e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, reuniram-se na noite de terça-feira no Palácio do Planalto com líderes do PT e do PMDB na Câmara e no Senado. As explicações foram necessárias na tentativa de evitar desconfianças na base aliada de que a operação no ministério controlado pelo PMDB pudesse ser pano de fundo de conflito na base.

Cardozo disse que não tinha conhecimento prévio da ação da Polícia Federal. Afirmou, na tentativa de justificar a falta de informações prévias sobre a operação, que todo o processo envolvendo a antiga cúpula do Ministério do Turismo corre em segredo de Justiça. "Eu mesmo só tive as informações depois que o processo foi deflagrado", disse Cardozo, de acordo com relato dos participantes da reunião. Dilma ficou furiosa. Disse que exigia ser informada de todas as ações da PF com antecedência, até para evitar crises políticas.

Na reunião com os líderes do PT e do PMDB, tanto Ideli quanto Cardozo tentaram acalmar os peemedebistas. Garantiram que em nenhum momento Dilma teve intenção de criar abalo na base de sustentação do governo no Congresso. O ministro da Justiça observou, ainda, que, se houvesse algum procedimento ilegal, mandaria a PF abrir sindicância.

Mesmo assim, a operação gerou repercussões no base. "Aqui no Senado as coisas acalmaram um pouco, mas na Câmara estão em pé de guerra", afirmou Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado.

No PT, as reações vieram de aliados da senadora Marta Suplicy, pré-candidata do PT à Prefeitura de São Paulo. Um dos 35 presos durante a operação, o ex-secretário executivo do Ministério do Turismo Mário Moyses é ligado a Marta. A senadora se disse indignada, chegou a chorar, e seus aliados viram na operação da PF contornos de ação política. No Palácio do Planalto, a ação da Polícia Federal foi considerada "atabalhoada" e "exagerada".

Por conta dessa pressão, Cardozo determinou ao diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello Coimbra, que prestasse informações "em caráter de urgência" sobre o uso de algemas no transporte dos suspeitos presos durante a Operação Voucher para o Amapá. Horas depois, a PF divulgou nota, negando haver qualquer irregularidade ou descumprimento da súmula vinculante aprovada pelo Supremo Tribunal Federal para coibir abusos na utilização de algemas.

Delegados da PF e deputados que integraram a corporação saíram em defesa do sigilo absoluto da operação. Afirmaram que o governo sabe que a PF não pode dar aviso prévio de suas operações para ninguém, nem para o ministro da Justiça. Isso configuraria crime, argumentam, e já rendeu processos judiciais contra delegados.

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