Dilma deve rever a política para o Irã

Segundo interlocutores, eleita considera aproximação com o país um 'erro' e desaprova tolerância com violação a direitos humanos

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2010 | 00h00

A presidente eleita Dilma Rousseff deve rever a estratégia de aproximação do Brasil com o Irã, grande alvo de críticas da política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo interlocutores da petista, ela avalia que a atitude em relação a violações aos direitos humanos no Irã foi "equivocada" e "causou desgaste desnecessário". Para Dilma, associar-se a um regime que apedreja mulheres e aprisiona opositores foi um "enorme erro", dizem esses interlocutores.

O governo brasileiro reluta em condenar a sentença de apedrejamento da viúva Sakineh Ashtiani, acusada de adultério, e se abstém nas votações de resoluções da ONU contra essas práticas, e não condena a opressão a opositores. Um dos motivos para a não manutenção do chanceler Celso Amorim no cargo seria sua atuação no caso do Irã.

Seu desempenho nas negociações da Alca foi considerado um sucesso. Mas ele teria caído em desgraça por causa do Irã. Para fazer um recomeço, seria preciso ter um novo chanceler e Amorim ficou muito identificado com a iniciativa. Além disso, a química de Amorim com Dilma não seria das melhores - os dois tiveram algumas rusgas quando ela era ministra da Casa Civil.

Dilma já havia indicado que se opunha à atitude não intervencionista na questão iraniana. "Acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh. Mesmo considerando usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro", disse Dilma em entrevista no dia 3 de novembro.

Nobel. Para assessores próximos da presidente, a percepção é de que a aproximação com o Irã pode ter custado ao presidente Lula o Nobel da Paz por seu avanço em reduzir a pobreza.

Já Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, estava mais blindado por ser forte dentro do PT. É bastante ouvido pela presidente e por isso foi mantido no cargo. Sua iniciativa de integração na América do Sul é abraçada com entusiasmo pela presidente eleita, embora os dois divirjam em alguns pontos da política iraniana. A presidente teria restrições a gestos como tirar fotos ao lado do presidente Mahmoud Ahmadinejad, que nega o Holocausto, e minimizar a violência contra a oposição iraniana nas eleições.

Marco Aurélio reuniu-se com Dilma na Granja do Torto para discutir política externa na quinta-feira e havia conversado com ela umas duas ou três vezes para dar ideias, além de ter coordenado seu programa de governo. "Temos muito boa relação pessoal e de confiança, ela é mais jovem que eu, mas da mesma geração política", diz Marco Aurélio. "Obviamente vamos divergir em algumas coisas, é natural."

Dilma tampouco endossa a atitude do governo brasileiro de minimizar o problema dos dissidentes cubanos. Lula chegou a comparar os dissidentes cubanos presos a criminosos comuns.

Um interlocutor frequente da presidente diz que ela, por ser mulher e ter sido torturada, é mais sensível a essas questões.

"Sou contra preso político por crime de opinião, sou contra alguém ser preso político", disse Dilma, tomando cuidado de não criticar diretamente Fidel ou Raul Castro.

É ponto pacífico que Dilma irá dedicar menos tempo à política externa que seu antecessor. "Essa questão não está no topo da agenda dela", diz um aliado.

No caso de Lula, o interesse por política externa foi despertado quando ele ainda era líder sindical e viajava muito. Com Dilma, não se espera uma diplomacia presidencial tão ativa.

O secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota, continua bem cotado para o posto de chanceler. Dilma nutre grande simpatia por Patriota, acha que seria importante tê-lo como chanceler para melhorar o relacionamento com os EUA. Sua experiência como embaixador em Washington, onde passou dois anos, seria instrumental. Mas como há dificuldades de compor um ministério com maior representação feminina, a chanceler pode acabar sendo uma mulher.

Entre os nomes mencionados está Vera Machado, subsecretária-geral de política do Itamaraty, que foi embaixadora no Vaticano e na Índia.

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