Dilma e Serra fazem um evento a cada 2 dias em busca de dividendo eleitoral

Inaugurações se concentram no primeiro trimestre porque lei proíbe participação de candidatos em solenidades durante a campanha

Luciana Nunes Leal / RIO, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2010 | 00h00

Compromissos de caráter oficial, mas com grande potencial eleitoral, têm sido constantes nas agendas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governador José Serra. Somando inaugurações, lançamentos de projetos, visitas a unidades industriais e vistorias em canteiros de obras, Lula, sempre acompanhado de sua candidata à Presidência, ministra Dilma Rousseff, esteve este ano em 27 atividades - em média, uma a cada dois dias e meio.

Dilma chegou a 28, com a inauguração de um hospital estadual no Rio, sem a presença de Lula. No caso de Serra, futuro candidato do PSDB, esses compromissos já somam 32 - um a cada dois dias. Os números referem-se ao período entre 1.º de janeiro e 12 de março.

Se forem levadas em conta apenas as inaugurações, Serra e Lula estão em ritmo bem mais intenso que no ano passado. O governador tucano compareceu a 27 solenidades este ano e o presidente, a 21 (Dilma foi a 22). No mesmo período de 2009, Serra foi a dez inaugurações e Lula, a sete. Em seus discursos, tanto Serra quanto Lula dizem que as obras concluídas são resultado de esforços anteriores, já que estão no último ano do mandato.

As inaugurações se concentram no primeiro trimestre do ano, porque a lei proíbe participação de candidatos nessas solenidades durante a campanha. A partir de 6 de julho, Serra e Dilma não poderão estar nesse tipo de palanque. Como ambos precisam deixar os cargos na primeira semana de abril, não terão justificativa para essa maratona de inaugurações. Lula, que não é candidato, avisou que continuará a inaugurar obras até o fim do ano.

Vitrine. Nessa fase de campanha disfarçada, as obras são a maior vitrine para pré-candidatos. As inaugurações são festivas, com discursos em que as autoridades exaltam os próprios feitos. São amplamente noticiadas na imprensa e ainda geram imagens que são registradas por produtoras contratadas pelos partidos para exibição no horário eleitoral gratuito da TV. Até 6 de julho, não há regras para coibir possíveis abusos e propaganda eleitoral antecipada. Resultado: o que antes se limitava a faixas de agradecimento e discursos inflamados nas inaugurações já evoluiu para festas com bandeiras partidárias, carros de som e distribuição de brindes.

Atividades com viés eleitoral foram motivo de troca de farpas entre Lula e Serra. O presidente ironizou o fato de Serra ter participado do anúncio da construção de uma ponte entre Santos e Guarujá e "inaugurado" a maquete da obra. O governador respondeu que importante é obra com "começo, meio e fim". Em janeiro, Serra disse que "tem gente que inaugura pedra fundamental em escola técnica" e reclamou de não ter espaço na agenda para tantas inaugurações.

Corpo a corpo. Na semana passada, o governador teve intenso contato com os eleitores. Depois de inaugurar uma estação de tratamento em Tremembé, improvisou a visita a uma padaria na vizinha Taubaté, onde posou para fotos e conversou com os clientes. Na sexta-feira, participou das inaugurações do Poupatempo de Piracicaba e de instalações pediátricas da Santa Casa de Matão. Em fevereiro, o governador surpreendeu assessores ao entrar no mar de roupa, durante lançamento do programa Praia Acessível, para portadores de deficiência. No carnaval, já tinha viajado para Salvador e Recife, onde prestigiou a festa de rua. A programação carnavalesca também foi seguida por Dilma, nessas duas cidades e no Rio de Janeiro, onde foi convidada do camarote do governador Sérgio Cabral (PMDB) no Sambódromo.

Esta semana, o presidente está em viagem oficial a Israel. Na semana passada, Lula e Dilma estiveram, entre segunda e sexta, em quatro inaugurações e visitaram pela terceira vez o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que só entra em funcionamento em 2013.

PAC 2. Em Brasília, discutiram o lançamento da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), no próximo dia 29, que terá o tom de despedida para Dilma do governo. Em um só dia de janeiro, Lula e Dilma participaram de três inaugurações e uma visita a instalações da Petrobrás.

Algumas das inaugurações do presidente e da ministra se revelaram precipitadas. No dia 9 de fevereiro, estudantes protestaram durante a entrega de um campus da Universidade Avançada dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Teófilo Otoni (MG). Faltam professores e a estrada de acesso alaga em períodos de chuva. Um funcionário do Ministério da Educação disse ao Estado que, se tivesse chegado na véspera à cidade, teria recomendado o adiamento da inauguração.

No Rio, dois condomínios construídos com recursos do PAC tiveram apartamentos alagados por temporais. Nas favelas de Manguinhos e do Alemão, os edifícios passam por reformas, apesar de terem sido inaugurados há menos de um ano.

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