Dilma enfrenta ''fogo amigo'' e divisões

O problema, na avaliação geral, não é nem Santana nem Marcelo Branco, mas o comando fragmentado com Dutra, Pimentel e Palocci

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

O comando da campanha de Dilma Rousseff à Presidência enfrenta disputas de poder e "fogo amigo" do PT. Subdividida em várias "repartições", que ocupam três casas e um andar de hotel, a equipe tem sofrido críticas dos próprios petistas por ruídos de comunicação da pré-candidata em público e na internet, mas, na prática, o problema é político.

Na primeira eleição disputada pelo PT sem o nome de Luiz Inácio Lula da Silva na chapa presidencial, a distribuição de tarefas obedece a comandos que nem sempre falam a mesma língua.

O coordenador-geral da campanha é o presidente do PT, José Eduardo Dutra, que representa o partido na difícil negociação dos palanques com o PMDB e demais aliados. Há outros dois caciques no núcleo político: o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, e o deputado Antônio Palocci (PT-SP).

Pimentel fala em nome de Dilma e Palocci é o homem de Lula. A corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária no PT, quer fortalecer Dutra e escantear Pimentel, que, apesar de ser da mesma ala, abriu dissidência no grupo. Ex-ministro da Fazenda, Palocci cuida mais, por enquanto, da aproximação de Dilma com os empresários.

Coube a Palocci, também, bater o martelo sobre o tesoureiro da campanha, que será o ex-prefeito de Diadema, José Di Filippi Júnior. No périplo pela reeleição, em 2006, Filippi chefiou o comitê financeiro de Lula.

Sem teto. Deputados do PT que sempre participaram das maratonas de Lula ficaram "sem teto". Alguns não conseguiram vaga na equipe porque estão marcados pelo escândalo do mensalão, de 2005. Outros não foram chamados sob o argumento de que o staff já tinha gente demais.

Todos reclamam, nos bastidores, da dissolução do Grupo de Trabalho Eleitoral. Sentem-se excluídos e se queixam de "bagunça" no time. Não é só: dirigem farpas ao deputado José Eduardo Martins Cardozo (PT-SP), da corrente Mensagem ao Partido. Cardozo vai coordenar a área jurídica, que tem como consultor o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos.

A equipe de comunicação é dirigida pelo deputado estadual Rui Falcão (PT), que foi secretário de governo quando Marta Suplicy ocupou a Prefeitura (2001 a 2004), e os programas de TV de Dilma são produzidos pelo marqueteiro João Santana.

Na temporada de beliscões, o blog da candidata e seus discursos - considerados muito técnicos e longos - são alvo de críticas tanto de petistas como dos representantes de partidos aliados.

"A campanha precisa mudar", afirmou o deputado Mário Negromonte (PP-BA), ao chegar para reunião do Conselho Político, na segunda-feira, com Santana e Falcão. "Não é que a candidata tenha de vender simpatia, mas sua imagem ainda é arrogante."

Guru. A portas fechadas, Santana disse que Dilma melhorou o desempenho e não é refratária a sugestões. Quatro dias depois, a temperatura aumentou no quartel-general do PT, com rumores - logo desmentidos - sobre a saída de Marcelo Branco, guru do "departamento" de internet.

"Eu não sou guru e não há crise na campanha", insistiu Branco, que é ex-diretor da Campus Party. "Aliás, qual é a presença do Serra na internet?", provocou, numa alusão ao pré-candidato do PSDB, José Serra. "Ele só tem o Petralhas e O gente que mente ", emendou, referindo-se a dois sites que atacam Dilma, questionados na Justiça pelo PT.

Falcão escreveu no Twitter, na sexta-feira, que Branco está na mira do fogo "amigo". "A campanha da Dilma não abre mão do passe dele", garantiu. Em conversas reservadas, porém, dirigentes do PT observam que Branco "fala demais" e teria criado "conflito desnecessário" com a Rede Globo. Foi ele quem primeiro criticou publicamente a peça dos 45 anos da emissora, que, no diagnóstico do partido, continha propaganda subliminar de Serra.

"Admito que há coisas a corrigir e vou agora a 25 capitais para ouvir militantes do PT e da base aliada, discutir os rumos da campanha na internet e construir estratégias. Mas a linha geral está correta", defendeu Branco.

Santana já teve de refazer textos a pedido de Dilma e enfrentou cobranças de ministros, como Franklin Martins, da Comunicação Social. Apesar de uma ou outra divergência, no entanto, o publicitário é bem avaliado por Lula e pelo PT.

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