Diego Vara/Reuters
Diego Vara/Reuters

Dilma faz discurso conciliador e prega respeito à oposição e à imprensa livre

Chamada de 'guerreira' por Lula, eleita diz que será 'rígida na defesa do interesse público' e não aceitará irregularidades

Vera Rosa, João Domingos, Eugênia Lopes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2010 | 00h00

Primeira mulher eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff (PT), fez ontem um discurso de conciliação nacional, prometeu respeitar as diferenças partidárias e religiosas, zelar pela "mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa" e combater a corrupção.

Em seu primeiro pronunciamento logo após o resultado das urnas, Dilma ficou com a voz embargada e não conteve o choro. Ao pregar a união do País, mesmo nas divergências, ela adotou tom semelhante ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu padrinho político.

Além de agradecer os votos recebidos, Dilma também fez um aceno aos partidos de oposição e aos eleitores que votaram no adversário José Serra (PSDB). "Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio", afirmou. Não foi só: disse que não aceitará irregularidades na administração pública.

"Não haverá compromissos com o erro, o desvio e o malfeito", insistiu Dilma, um mês e meio após a queda de sua amiga Erenice Guerra, ministra da Casa Civil defenestrada após tráfico de influência no governo."Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo."

Dilma chegou ao auditório do hotel Naoum para fazer seu primeiro pronunciamento como presidente eleita acompanhada do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, cotado para ser o homem forte de seu governo.

Foi cumprimentada por ministros, governadores e senadores eleitos de partidos da base aliada.

O vice-presidente eleito Michel Temer (PMDB) subiu ao palco cinco minutos depois. Todos cantaram o Hino Nacional. No Palácio da Alvorada, Lula disse para Dilma que ela foi uma "guerreira".

Telefonema. Serra telefonou para a petista quando ela fazia o discurso e foi Palocci quem atendeu à ligação. Diante de um painel na cor verde, no qual se lia "O povo decidiu. O Brasil vai seguir mudando com Dilma, nossa primeira presidenta", ela também assumiu compromissos com a erradicação da miséria e com a estabilidade econômica. "Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável", destacou.

Dilma usou o discurso para tratar dos principais temas da campanha, quando o governo e o PT foram acusados de desrespeitar a democracia e a imprensa, perseguir adversários e defender gastos acima da arrecadação.

"Faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos", argumentou.

Aplaudida pela plateia, Dilma afirmou, ainda, que seu governo continuará defendendo a abertura das relações comerciais e o fim do protecionismo dos países ricos. Destacou, no entanto, que não pretende fechar o País ao mundo. "Teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento."

Dona de temperamento forte e conhecida como dama de ferro, Dilma não conteve a emoção e embargou a voz em alguns momentos, especialmente ao falar de Lula. Fez um chamamento aos empresários, às igrejas, governadores, prefeitos e "todas as pessoas de bem" para se unir pela erradicação da miséria - compromisso assumido ainda no primeiro mandato de Lula - e disse que essa "ambiciosa meta" não será realizada apenas pela vontade do governo.

"Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte", afirmou a presidente eleita.

Lula. A presidente eleita deixou claro no discurso após a confirmação da vitória, que não vai se esquecer do presidente Lula, o grande responsável por ter vencido a eleição, e que sempre vai recorrer a ele quando se encontrar em dificuldades.

"Baterei muito à sua porta e, tenho certeza, a encontrarei sempre aberta", afirmou. Para ela, é muito bom ter Lula ao lado. "Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda."

Dilma afirmou que a convivência com Lula lhe deu a "exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu país e por sua gente". Tanto é que, para ela, a alegria da vitória se mistura com a emoção da despedida de Lula.

"Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade", exaltou. "A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado.

Saberei consolidar e avançar sua obra", disse a candidata forjada por Lula durante quatro anos.

Ela prosseguiu nos elogios: "Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o País para frente e ajuda a vencer os maiores desafios."

Vitória

DILMA ROUSSEFF

PRESIDENTE ELEITA

"Reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras"

"Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade.

O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável

para eventuais desequilíbrios"

"Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. As críticas do jornalismo livre ajudam o País e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório"

"Não haverá compromissos com o erro, o desvio e o malfeito"

"A tarefa de sucedê-lo (a Lula) é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado"

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