Dilma larga o figurino de dama de ferro

Dilma larga o figurino de dama de ferro

Tática do PT é ''humanizar'' a candidata - que rebate a fama de durona - e apresentá-la como uma mulher comum, com família e amigos

Vera Rosa e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

Do Palácio do Planalto para a planície, Dilma Rousseff será apresentada ao eleitorado, a partir desta semana, longe da garupa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estratégia do PT para a primeira etapa da campanha da ex-ministra da Casa Civil é "humanizar" a candidata e mostrá-la como mulher comum, que tem família e amigos.

"Nunca fui uma dama de ferro", afirmou Dilma ao Estado, numa referência à fama de durona, criada durante sua gestão na Casa Civil. "É um estereótipo, uma imagem irreal."

O "batismo" de Dilma como pré-candidata do PT à sucessão de Lula, sem a companhia do chefe, ocorrerá em Minas. A escolha não foi por acaso: trata-se do Estado onde ela nasceu - o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás de São Paulo -, hoje administrado pelo adversário PSDB.

A tática inicial consiste em combinar o roteiro afetivo com visitas mais frequentes à região Sudeste, onde, segundo as pesquisas, está a maior diferença de votos a favor do ex-governador de São Paulo, José Serra, pré-candidato do PSDB ao Planalto.

A agenda para destacar que Dilma é mineira está repleta de encontros sentimentais. Na terça-feira, um dia depois de receber o apoio do PR em Brasília, ela seguirá para Ouro Preto, onde almoçará com prefeitos da região, e à noite será homenageada pela Universidade Federal de São João Del Rey.

O almoço com empresários da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) está marcado para quarta-feira, em Belo Horizonte. À tarde, a ex-ministra abraçará parentes e amigos, e a noite foi reservada para uma reunião plenária com a Juventude do PT.

De volta a Brasília, na quinta-feira, ela será paparicada em ato organizado pelo PC do B. O PMDB, satisfeito com a constatação de que o governo terá de aceitar o presidente da Câmara, Michel Temer (SP), como vice de Dilma - hipótese que ganhou força depois que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, decidiu ficar no cargo -, também fará mais afagos à petista.

"Do ponto de vista institucional, o melhor nome para vice de Dilma é o Temer", comentou o presidente do PT, José Eduardo Dutra. "Ele unifica o PMDB."

Presidente. Engana-se quem pensa que Lula não aparecerá na campanha de sua ex-ministra ainda neste mês. "O presidente vai estar comigo em alguns fins de semana, fora do expediente", disse Dilma. "Lula é nosso maior cabo eleitoral e não vamos prescindir dele nesse período", emendou Dutra.

O Planalto e a cúpula petista avaliam, porém, em quais circunstâncias Lula e Dilma podem aparecer juntos. Contam, para essa tarefa, com a consultoria jurídica do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, que participa das reuniões semanais do comando da campanha.

Lula já recebeu duas multas - de R$ 5 mil e de R$ 10 mil - porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entendeu que ele estava fazendo propaganda antecipada para a pré-candidata do PT.

Em conversas reservadas, dirigentes do partido admitem que o desafio, agora, é manter a vinculação da imagem de Dilma com programas sociais do governo. É por isso que o segundo eixo da campanha está ancorado em visitas a obras de projetos que Dilma comandou na Casa Civil e quando era ministra das Minas e Energia (2003-2005).

A cartilha da Advocacia-Geral da União (AGU) proíbe o comparecimento do candidato em inaugurações a partir de 3 de julho, três meses antes da eleição. A equipe petista alega, no entanto, que Dilma não vai inaugurar, mas, sim, "conferir" o resultado e o impacto de programas que dirigiu - como o Luz para Todos - na vida das pessoas. O partido encomendará em breve uma pesquisa para avaliar o desempenho da candidata fora do governo.

Ao se despedir da Casa Civil, na quarta-feira, a então ministra bem que tentou imitar a oratória do presidente, conhecido por sua capacidade de cativar a plateia no palanque. Seguiu seus conselhos de "traduzir" números ao observar que, por trás de cada obra, há "uma história de vida". Citou seis pessoas beneficiadas por ações do governo.

"Presidente, o senhor lembra do Cristiano, aquele menino que nadava na enxurrada?", perguntou Dilma a Lula, que acenou positivamente com a cabeça. "Um ano depois, nós vimos o Cristiano quase um atleta, nadando no parque esportivo construído em Manguinhos", completou, ao mencionar uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe de sua campanha.

Apesar de seguir a ordem presidencial - e de se esforçar para ser simpática ao dizer que "ninguém quer saber de ministro pé frio" -, Dilma não empolgou. Mesmo assim, Lula fez elogios a ela horas depois.

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