Dilma planeja 'staff especial' no primeiro escalão

Ideia, em caso de vitória, é escalar um time de auxiliares em áreas estratégicas, como o adotado por Obama nos EUA, mas proposta enfrenta resistências

Vera Rosa, Beatriz Abreu BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

Desconversa. Dilma: 'Não vou pôr a carroça na frente dos bois'                    

 

 

 

 

 

Confiante de que ganhará a eleição, Dilma Rousseff (PT) planeja adotar um modelo de governança que inclui seleto grupo de conselheiros no Palácio do Planalto. A ideia guarda semelhança com o núcleo de assessores especiais da Casa Branca, sede do governo americano, mas enfrenta resistência de ministros, que temem sobreposição de funções.

O projeto de Dilma é escalar um time de auxiliares em áreas estratégicas, como Economia, Assuntos Internacionais, Meio Ambiente, Minas e Energia, Comunicações, Justiça e Segurança Nacional. Os conselheiros se reportariam diretamente a ela e teriam assento no primeiro escalão. Trata-se, na prática, de uma estrutura de apoio ao gabinete da Presidência da República.

Dilma já conversou sobre o assunto com interlocutores de sua confiança, mas baixou a lei do silêncio. "Existem muitas especulações nessa época de campanha", diz a candidata do PT, em resposta padrão para conter os vazamentos. "Não vou pôr a carroça na frente dos bois."

No domingo, por exemplo, depois que o Estado revelou a voracidade do PMDB para dividir o poder com o PT "meio a meio", Dilma não escondeu a contrariedade. Irritada, pediu ao presidente do PMDB, Michel Temer (SP)- vice em sua chapa - que desmentisse a informação.

O plano de montar um staff especial traz como pano de fundo a blindagem de Dilma. Embora diga que os cargos da Esplanada não podem ser preenchidos apenas por técnicos, a ex-ministra da Casa Civil já começa a se precaver contra o loteamento político. É uma forma de driblar a "porteira fechada" nos ministérios, cobiçada tanto pelo PMDB como por outros aliados.

Nos bastidores do governo, porém, a ideia é vista com "senões" e já provoca ciúmes. O receio é de que o núcleo de assessores trombe com os ministros. "Eles passarão a ver os conselheiros como um gabinete de sombra", comparou um amigo de Dilma.

Os críticos do modelo lembram que nos EUA a situação é muito diferente, porque a nomeação dos secretários - cargo equivalente ao de ministro - passa pelo crivo do Congresso. Não é raro a oposição conseguir barrar os indicados ou a aprovação demorar a sair. Diante desse cenário, o presidente Barack Obama tem recorrido cada vez mais ao grupo de conselheiros.

No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a função do historiador Marco Aurélio Garcia é um exemplo do modelo que Dilma quer adotar. Assessor de Assuntos Internacionais de Lula, Garcia atua como uma espécie de "embaixador" nas negociações, embora o ministro das Relações Exteriores seja Celso Amorim.

No primeiro mandato de Lula, o Itamaraty torceu o nariz para Garcia. Ele, no entanto, conquistou diplomatas. Vice-presidente do PT, Garcia é sempre destacado por Lula para missões especiais, principalmente na América Latina. "Sou o sargento Garcia", brinca o petista, hoje coordenador do programa de governo de Dilma, numa referência ao coadjuvante do filme Zorro.

Casa Branca

No governo dos EUA, os conselheiros especiais da Casa Branca são alvo de críticas. O presidente Barack Obama nomeou 31 assessores, conhecidos como "czares"

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