'Dilminha paz e amor' treina impostação e solta a voz

Por recomendação de marqueteiro, candidata do PT toma aulas com a mesma consultora que ajudou Lula em 2006

Vera Rosa de Brasília, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

Novata nos palanques, Dilma Rousseff faz curso intensivo para sobreviver à campanha eleitoral. Além das aulas semanais de mídia training, nas quais aprende a enfrentar o batalhão de jornalistas e a virar "Dilminha paz e amor", ela agora solta a voz dentro do jatinho alugado pelo PT para suas viagens.

Para treinar a impostação acima das nuvens, a candidata do PT à Presidência recorre a um sucesso de Nando Reis, entoado por Cassia Eller. "Mas esse cara tem a língua solta/a minha carta ele musicou/tava em casa a vitamina pronta/ouvi no rádio a minha carta de amooooor", ela cantarolou, numa viagem recente.

O exercício de fonoaudiologia foi receitado para "encaixar" a voz e criar "escalas" de entonação. Disciplinada, a ex-ministra da Casa Civil segue à risca os conselhos de Olga Curado, jornalista e consultora em comunicação social, contratada pelo marqueteiro João Santana.

Adepta de práticas pouco ortodoxas para preparar seus clientes, como a arte marcial japonesa, Olga já treinou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha à reeleição, em 2006. A técnica, elogiada por Lula, usa a energia vital para reduzir conflitos e driblar as adversidades.

Dilma é orientada a "desinibir" os movimentos, mas ainda recebe críticas. Há nove dias, ao ver a ex-ministra discursar em São Bernardo do Campo (SP) no ato político programado pelo PT para fazer "contraponto" ao lançamento da candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência, um dirigente petista mandou torpedo para o celular de um colega: "Pilates já para ela!"

Dilma já praticou pilates, método indicado para corrigir a postura corporal, mas atualmente prefere caminhar. A recomendação, agora, é para que retome as sessões de fisioterapia.

O comando da campanha tem feito vários tipos de pesquisas semanais para medir a reação a Dilma, agora sem a companhia de Lula. São trackings, sondagens quantitativas e qualitativas, que avaliam a impressão dos eleitores divididos por critérios como classe social, gênero e renda.

Fim do "santinho". Aconselhada a dar respostas mais curtas e a evitar o tom técnico e acadêmico, Dilma também se reuniu com um punhado de prefeitos do PT que tiveram experiência semelhante à dela e entraram pela primeira vez na corrida eleitoral.

Os "cristãos novos" na política que se tornaram chefes do Executivo contaram à candidata do PT que o aprendizado com marqueteiro, fonoaudiólogo, consultor de imagem e outros tantos conselheiros é duro, mas funciona. Até mesmo as cores e os trajes que Dilma usa em público são escolhidos por essa equipe.

"Essa campanha vai ser uma guerra", previu ela, em conversa com um amigo. "Vou apanhar pelo que disse e por aquilo que eu não disse." Com quase dois anos de aulas, a aluna Dilma já começa a excluir expressões como "minha filha" e "santinho" de seu vocabulário. Mas ainda peca por confundir nomes e, pior, os dos aliados. O ministro da Educação, Fernando Haddad, virou Paulo Haddad, e o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE) se transformou em Eunice. Para espantar os males ela canta. Mesmo em treinamento de guerra.

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