Diretor de Operações dos Correios se demite

Coronel cai após 'Estado' revelar que ele era testa de ferro de empresário argentino da aérea MTA, cujos contratos com a estatal serão mantidos

Karla Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

O coronel Eduardo Artur Rodrigues Silva pediu ontem demissão do cargo de diretor de Operações dos Correios, um dia após o Estado ter revelado que ele era testa de ferro do empresário argentino Alfonso Conrado Rey, o verdadeiro dono da Master Top Linhas Aéreas (MTA). Na carta, o coronel disse que foi "alvo de ataque pela imprensa" e que "as insinuações de propriedade ou controle de empresas do setor aéreo são facilmente desmentidas".

"O mal que essas notícias provocaram é incalculável. Minha família está emocionalmente destroçada, minha vida sendo revirada e meu nome sendo alvo de suspeitas absurdas e infundadas", escreveu Silva. "Estou pedindo demissão por iniciativa própria."

A carta foi entregue ao presidente dos Correios, David José de Matos, que a levou, no início da tarde, para o ministro das Comunicações, José Artur Filardi. A MTA tem contratos com a ECT no valor de R$ 60 milhões.

Apesar das denúncias de conflito de interesses envolvendo o ex-diretor de Operações e a MTA, o presidente dos Correios afirmou que os contratos serão mantidos. "A empresa ganhou a licitação. Não tem porque romper os contratos. A empresa está funcionando regularmente", afirmou Matos ontem.

Em 29 de agosto, o Estado revelou que o coronel Eduardo Silva presidia a MTA e que a companhia aérea vencera uma licitação no valor de R$ 45 milhões em julho para entregar encomendas da estatal. Com o coronel no cargo de diretor da estatal desde o dia 2 de agosto, a família dele passou a ser contratada e, ao mesmo tempo, contratante dos Correios, pois a filha do coronel ficou no comando da empresa aérea.

O presidente dos Correios afirmou que, apesar de ter vencido a licitação, a MTA foi desclassificada por não ter apresentado a documentação exigida. Foi convocada, então, a segunda colocada: a Rio Linhas Aéreas. A MTA, porém, entrou com uma ação no Tribunal Regional Federal contra os Correios e obteve decisão favorável, razão pela qual o contrato não pôde ser rompido.

Questionado se não se sentia constrangido em permanecer na presidência dos Correios depois da queda da ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, David Matos disse que foi "indicado pela ministra e quem nomeou foi o presidência da República", dando a entender que só deixaria o posto por ordem do Palácio do Planalto.

O ministro das Comunicações, José Artur Filardi, disse ao Estado que encaminhou ontem mesmo a carta de demissão do coronel à Presidência. Segundo o ministro, ainda não foi definido o nome do novo ocupante do posto.

Silva é o quarto personagem da série de escândalos envolvendo a Casa Civil e os Correios a sair do governo. A MTA foi citada em denúncias de tráfico de influência que culminaram com a demissão da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra e mais dois funcionários. A decisão de deixar o cargo foi tomada pelo coronel no fim de semana e antecipada pelo Estado, depois da revelação das empresas de fachada do empresário argentino.

No domingo, o jornal mostrou que Silva era testa de ferro do empresário argentino Alfonso Conrado Rey. Além disso, teria se envolvido pessoalmente em esquema montado para viabilizar a MTA no Brasil com recursos externos e driblar a legislação sobre participação de capital estrangeiro na empresa aérea.

Silva estaria atuando para transformar a MTA na empresa de carga aérea oficial dos Correios. Ele nega as acusações.

CGU investiga. A Controladoria-Geral da União anunciou que vai apurar as denúncias envolvendo a ex-ministra Erenice e os Correios. O ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, informou que a controladoria "está instaurando processos apuratórios para cada um dos novos casos, que vieram à tona no último final de semana".

PARA ENTENDER

Eduardo Artur Rodrigues Silva comandou a empresa Master Top Linhas Aéreas que, segundo denúncias, teria conseguido firmar contrato com a Empresa de Correios e Telégrafos com a interferência de Israel Guerra, filho da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra. A MTA negou qualquer relação com Israel Guerra e afirmou que o contrato firmado com os Correios foi totalmente regular. Preocupado com o impacto das denúncias na campanha da presidenciável Dilma Rousseff (PT), o governo tentou desvincular a imagem de Erenice à de sua antecessora na pasta com sua demissão.

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