''Discutimos como conviver com agressões''

Professor da rede pública de Guiné diz que método é eficaz por colocar em cena alternativas apresentadas até por quem não sabe ler

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

21 Julho 2009 | 00h00

José Carlos Lopez Correia, de 34 anos, só lamenta não ter conhecido pessoalmente Augusto Boal. Professor de Educação Física da rede pública de Guiné-Bissau, país da costa ocidental da África devastado por sucessivas guerras civis desde a independência de Portugal, em 1974, é diretor do Grupo do Teatro do Oprimido. Ele foi um dos 40 participantes da oficina organizada por discípulos de Boal em 2004 na capital, Bissau. Virou estudioso do método. Sob a supervisão do Centro do Teatro do Oprimido do Rio, criou espetáculos sobre guerra, corrupção, gravidez precoce, aids. Em que tipo de situações vocês usam o Teatro do Oprimido? Usamos muito em áreas de tensão, principalmente na fronteira com Senegal. Um grupo étnico, o Djola, quer a independência do Senegal. E esses rebeldes, em guerra com o exército senegalês, fugiram para Guiné. O povo da área sofre com roubos e agressões. O governo de Guiné decidiu expulsar todos. Houve combates intensos. O território tem minas. Como foi o trabalho nesta área? Trabalhamos discutindo como resolver conflitos, como conviver com essas agressões. Fazemos apresentações nas ruas, escolas. Apresentamos muitas vezes o No Mama - Frutos da Mesma Árvore, uma metáfora sobre o afastamento e o confronto entre povos irmãos em Guiné. Em 2008, fizemos um encontro, com gente do Senegal e de Guiné. Funcionou muito bem. Agora até o Exército de Guiné usa o método. Por que funcionou no seu país? É um método eficaz. Mesmo que a pessoa não saiba ler, diante de um trabalho de sensibilização, ela entra na cena e apresenta suas alternativas. Funciona tão bem que fomos chamados para trabalhar com o Conselho Nacional da Juventude e a Assembleia de Cooperação para a Paz, que previne a aids. Acreditam que o Teatro do Oprimido é o melhor método para atingir a população. Alguma cena montada em Guiné o emocionou especialmente? Muitas. A Tentacamba, que poderia ser traduzida por "hoje comigo, amanhã pode ser você", é uma delas. É a peça que mostra uma família em que tudo era perfeito, mas isolada, que não era solidária com ninguém. Até que estoura o conflito de 7 de junho de 1998 (levante militar contra o então presidente Nuno Vieira). A família, obrigada a abandonar sua terra, é dilacerada. Uma filha perde a perna. O pai vira alcoólatra. Em todas as apresentações, a peça desperta discussão. Há pessoas em Guiné que se sentem muito poderosas. Acham que podem fazer tudo. Elas precisam entender que uma hora tudo pode mudar.

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