Disputa por Cidades complica xadrez

Depois de montar a equipe econômica e o núcleo político do Planalto, desafio da eleita será compor os ministérios de infraestrutura

Christiane Samarco / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2010 | 00h00

O "pote de ouro" da Esplanada, que se transformou em maior ponto de discórdia entre os aliados e ameaça rachar até o PMDB, chama-se Ministério das Cidades. Com R$ 5 bilhões para investimentos no Orçamento de 2011, além dos R$ 12,9 bilhões do programa de construção de habitações populares Minha Casa Minha Vida, a pasta é cobiçada por quatro partidos governistas: PMDB, PT, PSB e PP.

Pelo cronograma da presidente eleita Dilma Rousseff, uma vez definidos os nomes da equipe econômica e do núcleo político do Palácio do Planalto, vai começar o verdadeiro desafio, que é acomodar os representantes dos partidos governistas nos ministérios da infraestrutura.

Essa é uma categoria muito cara aos políticos: são as pastas que têm dinheiro para investimentos, como os Transportes (R$ 16,7 bilhões) e a Integração Nacional (R$ 3 bilhões, sem incluir as estatais vinculadas).

A briga pelo Ministério das Cidades é superlativa na base governista porque extrapola os limites do Executivo e atinge, por tabela, o comando do Congresso. A montagem do governo de Dilma Rousseff interfere na eleição do futuro presidente da Câmara. E é esse jogo de interesses que hoje divide o PMDB.

De um lado, o presidente nacional do partido e vice da República, deputado Michel Temer (SP), trabalha nos bastidores para que o Ministério das Cidades entre na cota peemedebista e seja entregue a Wellington Moreira Franco (RJ), que deixou a vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias da Caixa Econômica Federal (CEF) para se dedicar à campanha presidencial. Moreira Franco tornou-se o principal aliado de Temer durante o período eleitoral.

De outro, o líder da legenda na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), tem como prioridade manter a boa relação com o PP, que hoje comanda o Ministério das Cidades. Não por generosidade política. O que move o líder é a preocupação em conquistar aliados para enfrentar o PT em outra frente de batalha: a da presidência da Câmara.

Depois de ultrapassar o PMDB e conquistar nas urnas a maior bancada federal (são 88 petistas contra 78 peemedebistas), o PT quer presidir a Casa. É por essa razão que os 49 votos dos pepistas serão decisivos para Henrique Eduardo Alves vencer a disputa.

Por outro lado, o racha entre os peemedebistas em favor dos pepistas na disputa pelas Cidades pode ter serventia dupla ao PP. Afinal, além de dificultar as pretensões de Moreira Franco de assumir a pasta, ajuda a enfraquecer os planos dos petistas.

Dirigentes do PT defendem a tese de que têm o direito de conduzir o Ministério das Cidades porque é ali que se concentra a fatia mais importante do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Como este será o programa de maior visibilidade no governo da presidenta petista, nada mais natural, argumentam eles, que ele seja comandado pelo partido de Dilma.

O ministério é ainda responsável pela gestão do programa Minha Casa Minha Vida, escolhido por Dilma como uma das vitrines do governo do presidente Lula que ela pretende incrementar em seu mandato. A petista assumiu o compromisso de entregar dois milhões de casas numa segunda fase do programa.

Em qualquer cenário, tudo indica que os pepistas ainda terão de enfrentar o PSB. Depois de ampliar as bancadas na Câmara e no Senado e de eleger seis governadores (Pernambuco, Piauí, Paraíba, Ceará, Espírito Santo e Amapá), o PSB está se articulando para aumentar sua cota de poder no ministério.

Nacionalizado. O projeto de seus dirigentes é ser cada vez mais um partido nacional. O presidente nacional da sigla, o governador de Pernambuco Eduardo Campos, é apontado como um possível presidenciável em 2014.

Para ganhar a direção das Cidades, o PSB se dispõe até a abrir mão do comando da pasta de Ciência e Tecnologia. O partido tem ainda o controle da Secretaria Especial de Portos, subordinada à Presidência da República. Porém, Dilma pretende reformular esse setor. Uma das possibilidades é criar um novo ministério ou uma nova secretaria para cuidar de portos e aeroportos.

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