'Disputa PT-PSDB é maléfica ao País'

Ele encarna o fenômeno 'Dilmasia' em Minas, com voto no tucano Anastasia para governador e em Dilma para a Presidência

Malu Delgado ENVIADA ESPECIAL, Eduardo Kattah BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

ENTREVISTA

Márcio Lacerda, prefeito de Belo Horizonte (PSB)

Em sua primeira experiência política no Executivo municipal, Márcio Lacerda (PSB), que comanda Belo Horizonte graças à aliança entre PSDB e PT, encarna o fenômeno "Dilmasia" em Minas Gerais. Ele declarou o voto a Antonio Anastasia (PSDB) para o governo estadual e em Dilma Rousseff (PT) para a Presidência.

Nesta entrevista ao Estado, ele evita críticas abertas a Hélio Costa (PMDB), mas defende a continuidade do governo Aécio Neves. Para o prefeito, o PSB não é um partido contraditório, pois fez parte do governo Aécio em Minas e do governo Lula.

O sr. foi eleito a partir da aliança de Aécio Neves (PSDB) e Fernando Pimentel (PT), que nestas eleições estão em campos opostos. Sua eleição significou uma confluência de projetos. Eles se separam agora neste pleito?

Minha candidatura teve na sua formulação uma ação não só do Aécio e do Pimentel, mas também do Ciro Gomes, com o conhecimento do presidente Lula. Havia uma visão de um possível desdobramento futuro dessa confluência, de pessoas com pensamentos convergentes. Penso que a reação extremada do PT nacional gerou, digamos, no PSDB daqui, uma agressividade que provocou o distanciamento. Me arrisco a dizer que, se o PT nacional tivesse sido simpático a essa iniciativa, Pimentel poderia ter sido candidato a governador pelo PT com apoio do Aécio. Deveremos ter confluência de projetos no futuro que podem até conduzir ao rearranjo do campo partidário.

Isso esbarraria na criação de um novo partido no futuro?

É difícil me arriscar a fazer projeções desse tipo, mas o País precisa disso. O fato é que essa disputa entre PT e PSDB de São Paulo tem sido maléfica para o País. O comando político do PT hoje está em São Paulo.

A reação do PT paulista contra a aliança com o PSDB não se estendeu a todos os Estados, como se vê em Minas Gerais?

A realidade é que existiam várias alianças entre PT e PSDB não só em Minas, mas em outros Estados. Pela importância de Minas e pela projeção do Aécio, como provável candidato à Presidência, é que talvez tenha gerado essa reação do PT. E a própria disputa interna do PT, porque o Pimentel não era e não é tão próximo desse grupo paulista. Estamos falando de passado. A pergunta favorita de jornalistas para mim nos últimos dois anos era: quem você apoiará nas próximas eleições. Me perguntaram mais de mil vezes. Agora, a pergunta é: como você ficará nos palanques?

E mais uma pergunta: o sr. aparecerá em programas eleitorais do Aécio/Anastasia e da Dilma?

Se eu for convidado a gravar para o Anastasia eu farei, e se for convidado a gravar para a Dilma eu farei também. Meu partido apoia o Anastasia aqui (coligação estadual) e a Dilma lá (coligação nacional).

Qual sua opinião sobre o termo Dilmasia?

Na realidade não existe um movimento organizado para isso. Existe um grande número de prefeitos, principalmente das cidades menores, que tiveram muito apoio tanto do governo federal quanto do governo estadual. Portanto, gostam do Aécio e gostam de Lula. Pelas pesquisas, tanto Lula quanto Aécio têm capacidade igual de transferência de votos em Minas.

O discurso continuidade versus mudança nas gestões estadual e federal não parece ser o maior dilema e contradição das campanhas do PT e do PSDB?

Para nós do PSB está muito tranquilo. Apoiamos a continuidade lá e cá. Não há contradição no nosso discurso. Isso é um problema deles (PT e PSDB). Não é do PSB. Lógico que todo governo tem falhas, necessidade de aprimoramentos. No PSB estadual, na discussão com o Anastasia, colocamos questões que achamos que podem ser aprimoradas na gestão do Estado. Acho que com a vitória do Anastasia nós teríamos a chance de um governo estadual mais à esquerda.

O PT alega que a entrada de Patrus Ananias na campanha do Hélio Costa mostra que Minas pode investir mais no social, revivendo essa carga da esquerda do PT e se confrontando com a ideia "neoliberal" do PSDB.

Chamar o Aécio de neoliberal quando o Estado tem uma empresa de saneamento e uma de energia elétrica estatais, com ações disputadas nas bolsas do mundo, é absurdo. Agora, por outro lado, você vê no governo Lula uma dificuldade imensa de falar em concessões, de falar em PPPs (parcerias público-privadas). Por que o edital de concessão da BR 040 em Minas Gerais e da BR 116, que era para 2009, não saiu até hoje? Não tem explicação. Eu não vou fazer crítica ao governo Lula. Estive lá (no governo federal), tenho várias opiniões, mas não vou falar. Assim também como eu não quero criticar o discurso do Anastasia ou do Hélio Costa. Eles têm lá suas razões e suas visões. Mas eu acho que o Aécio fez um excelente governo, resgatou a autoestima do mineiro. E os indicadores sociais avançaram muito no governo dele, embora possa se avançar mais nesta questão humanista.

A entrada do Patrus Ananias no processo não mudou esse jogo, já que ele é essa figura mais humanista?

Certamente. Ele defende isso com um tom quase messiânico, é muito apreciado por várias alas da sociedade. Diria que a presença do Patrus na chapa reforçou as possibilidades, mas há pessoas e alas do PT que não votarão (na chapa PMDB-PT). Estou falando de gente que eu conheço e com as quais convivo dentro da prefeitura.

Seu colega Ciro Gomes, ao criticar a aliança do PT- PMDB, disse que há um "roçado de escândalos no partido". O sr. vê semelhanças entre esse PMDB nacional e o de Minas?

Não me cabe julgar pessoas nem condutas. No PMDB tem muita gente boa. Há algum tempo, conversando com o Hélio Costa, eu disse que não é fácil montar um governo. Você tem de combinar bons técnicos de origem empresarial e pessoas com matizes políticos e partidários. Eu vi no Aécio o talento para fazer isso. Foi o meu caso e o de vários secretários. Aécio soube delegar, cobrar e respeita as pessoas. Disse ao Hélio que não acredito que o PT com o PMDB tenham quadros suficientes para montar um bom governo. Teriam de buscar pessoas fora dos seus quadros. Não queria fazer julgamentos (do PMDB), mas.... Bom, deixa pra lá.

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