Dado Galdieri / The New York Times
Dado Galdieri / The New York Times

Distribuição de droga anti-HIV começa este mês

Remédio para prevenção, com foco em jovem gay, será oferecido gratuitamente em 11 Estados

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 21h00

RIO - Com o objetivo de reduzir o aumento de novos casos de HIV entre jovens gays, o governo brasileiro começa a distribuir este mês às populações mais vulneráveis a droga Truvada, capaz de prevenir a infecção pelo vírus. Será o primeiro país da América Latina a adotar regularmente o uso do medicamento.

Parte do Programa de Profilaxia Pré-Exposição (Prep), ele será oferecido gratuitamente em 35 centros de saúde de 11 Estados. São dez mil tratamentos preventivos disponíveis inicialmente. Estudo inédito, feito em parceria entre o Programa de Aids da ONU (Unaids) e o aplicativo de encontros gays Hornet, com 3.218 usuários, revelou que pelo menos 27% dos entrevistados teriam mantido relações sem preservativos.

“Na enquete, 27% foram diagnosticados com uma doença sexualmente transmissível no ano passado, o que poderia indicar que eles participaram de algum comportamento que poderia deixá-los expostos ao HIV. Ou seja, eles poderiam se beneficiar da PrEP”, afirmou Alex Garner, do site Hornet, um dos responsáveis pela pesquisa.

Entre 2006 e o ano passado, o total de casos de aids entre homens de 15 a 19 anos praticamente triplicou, chegando a 6,7 casos por 100 mil habitantes, segundo o Unaids. Entre homens de 20 a 24 anos, o número quase dobrou, alcançando 33,9 casos por 100 mil. Os jovens são menos propensos também a usar o preservativo. Entre os soropositivos dessa faixa, está a menor taxa de pessoas em tratamento: 34%, ante 14% na faixa acima dos 60 anos.

“Porcentualmente, o grupo de 15 a 24 anos é onde mais tem crescido o número de casos de HIV”, afirmou a diretora do Programa de Aids do Ministério da Saúde, Adele Benzaken. “Mas não é só isso: os jovens dessa faixa etária são também os que menos se cuidam. Nossa expectativa é ter um impacto significativo entre eles.”

Neste primeiro momento, a Prep também será oferecida a outros grupos considerados mais vulneráveis, como profissionais do sexo, pessoas trans, usuários de drogas e aqueles que se relacionam sexualmente com parceiros soropositivos. Mas nem todas as pessoas desses grupos são candidatas à profilaxia, alerta Adele. Por isso, os serviços de saúde farão uma triagem dos candidatos.

Os defensores da técnica dizem que a experiência brasileira será crucial para mostrar ao mundo os benefícios do investimento na prevenção. O uso do medicamento combinado foi aprovado em 2012 pelos Estados Unidos. “Comunidades inteiras estão usando a Prep com resultados muito claros na redução de risco”, diz o infectologista Estevão Portella, da Fiocruz.

Perigo. Mas os críticos do programa temem que ele estimule o sexo sem preservativos. “Não posso ser contra um medicamento que tem eficácia comprovada”, ressaltou o urologista Alfredo Canalini, da Sociedade Brasileira de Urologia. “No entanto, notamos no consultório que, com a chegada de coquetéis antiaids, quando as pessoas passaram a ter maior sensação de segurança e passaram a usar menos preservativos, vimos aumentar uma série de outras doenças, como sífilis.” 

Eficácia de até 100%. Mais conhecido com o nome comercial de Truvada, o medicamento usado na prevenção da infecção pelo HIV consiste em uma combinação em dose fixa de duas drogas antirretrovirais usadas tradicionalmente no tratamento, tenofovir e emtricitabina. De acordo com o Instituto de Infectologia da Fiocruz, o porcentual de eficácia na prevenção pode chegar a 100% se for tomada corretamente, ou seja, na dose indicada de um comprimido por dia. “As falhas registradas na Prep estão sempre relacionadas a falhas na adesão ao tratamento”, diz o infectologista Estevão Portella.

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