Marco Antônio Carvalho/Estadão
Marco Antônio Carvalho/Estadão

Distrito vizinho de presídio no RN convive com medo e fugas

Em 2016, 102 escaparam em 14 ocorrências; bairro é mais antigo que a prisão e tem acesso por estrada de terra

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

20 Janeiro 2017 | 03h00
Atualizado 20 Janeiro 2017 | 08h28

NÍSIA FLORESTA - Não mais que 15 metros distante do quintal da aposentada Terezilda Freire, de 73 anos, está a muralha da Penitenciária de Alcaçuz. De dentro da casa dela, no início da tarde desta quinta-feira, 19, era possível ver parte dos detentos que ocupavam o telhado do pavilhão 3 e se revezavam como numa guarda para observar o movimento dos rivais no pavilhão 4 e 5 e evitar um novo ataque.

Da parte dela, o único sinal de preocupação foi um portão que ela deixou fechado, mas amanheceu aberto no início desta semana. "Devem ter sido os agentes fazendo buscas", disse numa voz pausada de quem havia interrompido o almoço para contar a rotina no distrito de Hortigranjeira, em Nísia Floresta, na Grande Natal.

A tranquilidade, mesmo em meio a rebelião desta semana que deixou 26 mortos e que ainda se estendia até a tarde desta quinta-feira, é incomum para os moradores da região. O distrito, formado a partir de um assentamento, é mais antigo do que a penitenciária, inaugurada em 1998.

Acessado por estrada de barro a partir de pistas que levam a praias do litoral sul potiguar, o distrito vê sua rotina ser interrompida sempre que há uma fuga. E não são poucas: em 2016, 102 escaparam em 14 ocorrências.

"Minha irmã me ligou segunda-feira dizendo que vinha me tirar daqui para passar uma semana com ela em Natal. Mas, por enquanto, vou ficando", acrescentou a aposentada.

Trauma. As consequências de conviver com a maior cadeia do Estado no quintal de casa traumatizaram o pedreiro Francisco da Silva, de 28 anos. Há quatro anos, enquanto tentava controlar uma tentativa de fuga, segundo ele contou, a Polícia Militar fez disparos. Uma das balas atravessou a janela de uma casa que ele construía no distrito, e o estilhaço do projétil o atingiu no queixo, levando-o a pensar que havia sido ferido com gravidade. Foi atendido e não ficou com sequelas. Ao menos, não sequelas físicas.

"Meu maior medo aqui é a polícia. Os bandidos são perigosos, mas ele fogem e não nos afetam em quase nada. Já a polícia, pouco preparada, faz disparos para qualquer canto, podendo atingir qualquer um", disse.

Mesmo diante da ocorrência, Silva não deixou a região. Ele pode atribuir a decisão a sua mulher, a enfermeira, Ana Costa, de 27 anos. Para ela, a penitenciária vizinha é sinônimo de segurança, com rondas diárias na vila.

"Realmente, teve o incidente com o meu marido, mas tirando isso a presença dela aqui não nos faz mal nenhum. Tem vez que acontecem coisas dentro da cadeia e a gente só vai saber porque deu no jornal", disse.

Porém, segundo ela contou, não foi isso que aconteceu na rebelião mais recente. Desde sábado, o filho do casal, de 3 anos, não dorme com as sirenes que varam a noite em operações no presídio. "Vamos ver se ele vai conseguir dormir hoje", afirmou Ana.

Perto dali, na rua da frente, a auxiliar de serviços gerais Edinalva Miguel da silva, de 42 anos, e a consultora de vendas Claudia Souza, de 49, conversavam na calçada e concordavam sobre o perigo da região.

"É bem verdade que o presídio nos incomoda, apesar de nunca ter acontecido nada comigo. Há sempre aquele medo. Dessa última vez, foi muita bala, muito grito, muita explosão", lembrou Edinalva.

Da frente da casa da amiga Claudia, também era visível as bandeiras hasteadas pelas facções que ainda tremulavam e lembravam que a rebelião não havia acabado. 

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