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Dívida faz museu de Santos-Dumont, em Minas, fechar as portas

Instituição funciona na casa onde nasceu o ‘pai da aviação’, em 1873, no município mineiro que leva seu nome; débitos somam R$ 150 mil

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2019 | 03h00

SOROCABA - A cultura brasileira está prestes a receber mais um golpe: o Museu de Cabangu, que funciona na casa onde nasceu Santos-Dumont, em 1873, no município que leva seu nome, em Minas Gerais, recebeu ontem seus últimos visitantes. Atolado em dívidas e com a estrutura deteriorada e o acervo ameaçado, o museu deve amanhecer hoje com as portas fechadas, após ter exibido por 70 anos importante coleção de cartas, fotografias, documentos, roupas e móveis do “pai da aviação”.

“Vamos fechar antes que aconteça o mesmo que aconteceu com o Museu Nacional, no Rio”, anunciou a curadora Mônica Castello Branco, filha do fundador. O museu carioca, um dos principais do País, foi destruído por um incêndio na noite de 2 de setembro de 2018.

Mônica atribui o fechamento aos atrasos na subvenção da prefeitura, de R$ 12,6 mil mensais. Alegando falta de repasse de verbas estaduais devidas ao município, a prefeitura suspendeu os pagamentos em agosto. “Já havia atrasos anteriores e a dívida foi se acumulando pelos juros e encargos. Hoje, o museu tem débitos de R$ 150 mil, a maior parte em dívidas trabalhistas.”

Os quatro funcionários estão sem receber regularmente há um ano. O aperto financeiro reduziu o investimento em conservação e três galpões de apoio estão fechados há cinco anos. O acervo foi transferido para a casa principal, que também tem infiltrações e rachaduras. 

Em 2018, a fundação lançou a campanha online Somos Todos Museu Cabangu, com o objetivo de arrecadar R$ 177 mil, mas só conseguiu R$ 7 mil. Os débitos levaram à inscrição do CNPJ no cadastro de devedores e a fundação não consegue as certidões negativas para se beneficiar da Lei Rouanet de incentivo à cultura, por exemplo. 

Na cidade de 46,3 mil habitantes, na Zona da Mata mineira, o fechamento do museu desperta reações. “É um símbolo importante que estamos perdendo. Ser a terra de Santos-Dumont sempre foi um orgulho da nossa gente”, lamentou a secretária paroquial Maria Luiza de Lima. 

‘Voto de confiança’

O local, que recebe 2 mil visitantes por mês, chegou a ficar uma semana fechado em fevereiro de 2018, mas reabriu depois que a prefeitura pagou dois dos seis meses de salários atrasados dos funcionários. O presidente Tomás Castello Branco disse na ocasião que a reabertura seria um “voto de confiança” ao município, mas logo os repasses voltaram a atrasar. 

A casa onde Alberto Santos-Dumont nasceu funciona como museu desde 1973 – ano do centenário do inventor – e foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). Em 2018, a prefeitura fez um projeto para restauração, orçada em R$ 12 milhões, mas faltou recursos.

O imóvel pertence à prefeitura, mas os cuidados e manutenção foram assumidos pela Fundação Casa de Cabangu, com apoio do município. A Aeronáutica cuida da segurança do museu e da área externa e, mesmo com o fechamento à visitação, manterá esse serviço para proteger o acervo. 

Intervenção

O secretário de Administração de Santos Dumont, José Geraldo de Almeida, disse que a prefeitura não permitirá o fechamento. “Se fechar, vamos entrar com medida judicial. A área é do município, podemos cancelar o convênio e assumir o museu.”

Procurado, o governo de Minas informou ter repassado, na primeira semana da atual gestão, R$ 500 milhões para os municípios mineiros. Informou que trabalha para regularizar os repasses às prefeituras.

Acervo do museu começou a ser reunido dois dias após a morte do aviador

Em 29 de julho de 1932, dois dias após a morte de Santos-Dumont, Oswaldo Castello Branco este na casa da fazenda Cabangu e recolheu cartas, fotografias e objetos pessoais do inventor. Nos anos seguintes, com a ajuda de amigos, Castello Branco iniciou a busca pelos objetos, móveis e documentos que pertenceram ao Pai da Aviação.

Entre os objetos, estão pertences como o antigo chapéu panamá, uma de sua marcas registradas, uma coleção de fotos de suas aeronaves, móveis – inclusive a cama usada por ele –louças, talheres, uma réplica do 14 Bis e, ainda, um avião T 23 Uirapuru da Força Aérea Brasileira. Há também dois bustos dele que o próprio Dumont esculpiu.

A casa, de oito cômodos, foi construída pelo pai de Santos-Dumont, o engenheiro francês Henrique Dumont, logo que a família chegou à cidade, em fins do século 19. Ele veio a serviço do imperador D. Pedro II para construir parte da Estrada de Ferro Central do Brasil que corta o município.

O inventor ocupou a residência por duas ocasiões: do seu nascimento até os dois anos de idade e, depois, em 1919, quando o governo federal lhe deu a casa em doação. No ano seguinte, forçado a voltar à Europa para tratar da saúde, ele continuou mantendo contato com o caseiro, seu João. Cartas enviadas ao funcionário e amigo estão no acervo.

No museu, estão as cinzas da primeira aviadora brasileira, Anésia Pinheiro Machado, falecida em 1999. Outras criações de Santos-Dumont, como um chuveiro com água quente, uma lareira e um chafariz abastecido por gravidade, na entrada da casa, também encantam os visitantes.

O nome de Cabangu se deve à mata que cerca a propriedade – mata escura, em tupi. Também compõem o acervo réplicas em tamanho original do Demoiselle, o menor modelo de avião do inventor, e da nacelle, o cesto usado para acomodar o piloto. Desenhos, anotações originais e livros do inventor também estão no museu.

Museu com maior acervo de aernonaves está fechado

A dificuldade de obtenção de recursos para manter o acervo em exposição permanente levou ao fechamento, no final de janeiro de 2016, do maior museu de aviação do mundo mantido por uma companhia privada. O Museu da TAM, também conhecido como Museu Asas de um Sonho, foi criado pelo fundador da empresa, comandante Rolim Amaro, e pelo seu irmão, João Amaro, em 2006, em São Carlos.

O acervo conta com cerca de 100 aeronaves, entre elas aviões raros, como caças alemães e ingleses que sobreviveram à 2.ª Guerra Mundial. A crise financeira levou o museu a fechar as portas à visitação. Em maio do ano passado, um acordo entre o presidente do museu, João Amaro, a Embraer e a prefeitura de São José dos Campos previa a transferência do acervo do Museu TAM para novas instalações a serem construídas no local onde se encontra o Memorial Aeroespacial Brasileiro.

Nesta quinta-feira, 10, a prefeitura de São José informou que o projeto não avançou. “Por se tratar de um empreendimento particular, os empreendedores teriam que viabilizar o projeto”, acrescentou. A Latam, sucessora da TAM, informou que a instituição encerrou as suas atividades no início de 2016 “em razão do acirramento dos desafios econômicos do país” e, que atualmente, o acervo não tem vínculo com a empresa. João Amaro não foi localizado pela reportagem.

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