Do ''ofício'' de ladrão de carros para o diploma de mecânico

Interno da Fundação Casa foi aprovado em curso

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

26 Agosto 2008 | 00h00

O carro. Se Gabriel (nome fictício), de 16 anos, pudesse escolher o motivo para entrada na criminalidade, ele citaria sua paixão por veículos. Já perdeu as contas de quantos roubou até ser flagrado e parar na Fundação Casa. Por ironia, o garoto também acredita que a reviravolta em sua vida "virá de automóvel"... Desde que entrou na unidade de Itaquera (na zona leste da capital), há oito meses, Gabriel alimenta os sonhos "a gasolina". Mesmo dividindo espaços com outros 130 internos, estudou sozinho e foi aprovado em um curso profissionalizante. Daqui a dois anos, o menino de olhos claros e espinhas no rosto deixará de ter apenas o "ofício" de ladrão de carros no "currículo", como diz, para ganhar o diploma de mecânico. "Sempre tive um prazer inexplicável em dirigir. Não ligava para dinheiro, roupas, nada disso. Roubei o primeiro carro aos 14 anos", comenta ele, um pouco tímido para, em seguida, estufar o peito e completar. "Agora estou cheio de orgulho. Vou virar mecânico e continuar perto dos carros, sem ser na bandidagem." O roubo à mão armada praticado por Gabriel ainda lidera o ranking de causas que levam menores de idade à Fundação Casa e corresponde a 42% dos delitos. Na segunda posição, vem o tráfico (31%). Apresentar uma nova proposta de vida aos meninos, enquanto eles ainda cumprem medida, é a estratégia para reverter o índice de reincidência criminal, que ainda é de 17%. Gabriel conseguiu autorização para freqüentar a sala de aula fora da unidade enquanto ainda é interno. Sua história de sucesso abriu precedentes. Há outros quatro meninos que, mesmo em regime fechado, foram aprovados em faculdades. UNESP Internado há um ano e meio na unidade Anhangüera da Fundação Casa, T.A., de 19 anos, foi o primeiro a deixar o tráfico de drogas, prestar vestibular e conquistar uma vaga em Geografia na Unesp de Ourinhos, neste mês. Trata-se do primeiro interno da Fundação Casa a ser aprovado em uma universidade pública. E essa não foi a única conquista dele. Além da vaga em Geografia, T.A. foi aprovado em 4º lugar no curso de Engenharia Ambiental da Faculdade São Francisco, em Campinas e, desde o início do mês, freqüenta o curso técnico de Química na cidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.