Do olimpo para São Bernardo do Campo?

Presidente tem reafirmado laços com a cidade, mas o futuro de Lula deve reservar uma atuação internacional além dos limites do ABC

Malu Delgado, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2010 | 00h00

"Eu estou vendo aqui a doutora Nébia. Quando eu cheguei no sindicato para fazer a minha ficha de filiação, a doutora Nébia já era dentista, em 1969. Eu estou falando de 40 anos. E a Nébia está aqui mais apaixonada pelo Lulinha que nunca (...) A Zélia eu conheço desde os anos 70, ela trabalhava na limpeza do Sindicato dos Metalúrgicos (de São Bernardo do Campo). Namoradeira que vocês não queiram saber! Não vou dizer tudo que eu sei da Zélia porque seria uma loucura aqui neste plenário."

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mergulhado em recordações que fazem o elo entre seu passado de sindicalista e seu futuro político. Um cronômetro veloz parece ter se instalado em seu cérebro. "Estamos há seis meses e 18 dias do final do nosso mandato", disse na convenção que lançou Dilma Rousseff, em junho.

"Daqui a quatro meses e alguns dias, eu estarei passando a faixa para essa companheira", afirmou, frisando novamente a data, durante o primeiro comício da campanha eleitoral, no ABC paulista. Ao seu lado estava Dilma Rousseff, a petista que escolheu para sucedê-lo.

Na sexta-feira, em cerimônia oficial com o presidente, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), avisou que "Lula faz questão" de participar de uma solenidade em dezembro para entrega de apartamentos construídos pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Na ocasião, Marinho ainda anunciou aos presentes que uma nova Unidade de Pronto Atendimento (UPA) será inaugurada em breve. "Antes de janeiro", pediu Lula, que também prometeu comparecer ao evento.

Luiz Marinho, aliás, tem contado com excessivo prestígio junto a Lula no fim do mandato presidencial, sinalizando que o presidente tem planos mais ambiciosos para o prefeito de São Bernardo nos próximos quatro anos. Lula disse que vai "fazer política" em São Bernardo. Fortalecer o nome de Marinho para disputas futuras no Estado de São Paulo provavelmente será uma das ações políticas do presidente.

Olê, Olá. Nos comícios no Estado de São Paulo nos últimos dois meses, o presidente Lula estimulou ovações histéricas e emocionadas, embaladas pelo velho jingle "olê, olê, olá": "Podem gritar, porque desde que começaram as eleições para presidente, em 1989, é a primeira vez que meu nome não vai estar na urna". "Só lamentei porque fui votar e é a primeira vez que não tem minha cara lá no telão", disse ao sair da seção eleitoral, ontem, com uma mistura de melancolia e galhardia no tom de voz.

Lula anda assim. Saudoso, voraz por inaugurações, e com o orgulho à flor da pele. Sempre que pode, cita o que considera serem êxitos de seu governo, como a redução do desemprego e a retirada de milhões da miséria. Reforça as ligações com São Bernardo, para onde promete voltar ao deixar o Planalto. "Quando terminar meu mandato, eu não vou para Harvard, não vou para Sorbonne. Eu vou voltar para minha casa, a 800 metros do sindicato", disse, há dois meses, em Osasco.

Retorno. É difícil imaginar que o presidente descerá do Olimpo a São Bernardo para lá permanecer. Ainda que opte por voltar a morar na cidade que o acolheu quando sindicalista, Lula faz de tudo para terminar o mandato com o altíssimo índice de aprovação em torno de 80%. É assim que pretende ser catapultado a uma missão para além do ABC.

Ontem, depois de não ter visto o próprio rosto na urna, Lula afirmou que não ambiciona voltar em 2014 porque quer "sossego na vida".

Os aliados mais próximos do presidente são claros: se Lula quiser, voltará em quatro anos. Se não, vai se estabelecer no cenário político de outra forma. Claro que muita água pode passar por debaixo da ponte, como a emergência de um novo líder popular no campo de centro-esquerda.

Nomes como o do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), do ex-ministro Ciro Gomes (PSB) e o da própria Dilma aparecem como possibilidades reais para a próxima eleição. O difícil é imaginar algum deles num duelo com Lula, caso o presidente emita sinais de que gostaria de voltar ao Planalto.

Por ora, quem o conhece sabe que o presidente arquiteta planos para uma inserção internacional, provavelmente por intermédio do instituto que ainda pretende criar. Segundo um dirigente e amigo, a alta popularidade de Lula no Brasil e no exterior fará com que ele tenha facilidade em manter um instituto com doações internacionais para promover políticas públicas para África e América Latina. Algo bem distante "da querida São Bernardo do Campo" de Lula.

Sonho

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

"Parecia um sonho impossível, porque a política no Brasil era feita para doutores, para engenheiros, para empresários, para advogados. Não era feita para torneiro mecânico. Só tínhamos direito de bater palma para a elite que governava esse País"

O MUNDO DE OLHO NO BRASIL PÓS-LULA

Clarín.com

O principal diário argentino destacou a queda da candidata petista Dilma Rousseff nas pesquisas mais recentes de intenção de voto e mostrou como a chance de um segundo turno surpreendeu eleitores e analistas brasileiros e estrangeiros. O Clarín lembra que, no Brasil, "as pesquisas sempre foram certeiras". A correspondente do jornal argentino em Brasília, Eleonora Gosman, contou como foi o dia dos candidatos em visita aos locais de votação. Ela também mostrou declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disse que "não é qualquer país que dá este espetáculo de democracia". Além de texto, o material é acompanhado por áudios.

El Mercurio

Apesar de algumas prisões e das fortes chuvas que caíram ontem sobre boa parte do Brasil, as eleições ocorreram em "absoluta tranquilidade" no "país continental", disse o El Mercurio, principal jornal de Santiago do Chile e um dos mais antigos das Américas. A surpresa ficou por conta do rendimento da candidata petista, Dilma Rousseff, que mostrou desempenho pouco abaixo do previsto pelas principais pesquisas de intenção de voto na véspera. Destaque também para a internação do senador José Sarney (PMDB-AP) e da candidatura do ex-jogador de futebol Romário de Souza Faria (PSB), que concorre a uma vaga de deputado federal pelo Rio.

The New York Times

"Dilma Rousseff, a protegida do líder brasileiro, deve vencer hoje as eleições no Brasil, ainda que seja novata na política e não tenha o carisma do presidente Luiz Inácio Lula da Silva", noticiava ontem a edição impressa do jornal The New York Times, um dos principais nos Estados Unidos. De acordo com o jornal, Dilma conseguiu tirar proveito da popularidade de Lula, fazendo da eleição um referendo dos oito anos dele no poder, período marcado por prosperidade e ascensão do País no cenário internacional. O texto ressalta que ela lidera as pesquisas de opinião e não foi afetada por escândalos recentes envolvendo sua sucessora na Casa Civil.

Le monde

O jornal parisiense Le Monde visitou comunidades pobres do Rio de Janeiro para contar histórias de eleitores brasileiros beneficiados pelas políticas econômicas do governo Luiz Inácio Lula da Silva. "De Cidade de Deus a Jacarepaguá: os olhares dos brasileiros sobre os anos Lula" foi o título da reportagem assinada pela jornalista Anne-Gaëlle, que conta histórias representativas dos "25 milhões de pobres que passaram a fazer parte da classe média brasileira", segundo o Le Monde. O material do jornal francês é acompanhado de uma análise sobre "a consagração de Lula, um homem do povo" e a atuação do presidente brasileiro na política latino-americana.

Financial Times

Na avaliação do jornal britânico Financial Times, com ou sem segundo turno, o resultado da eleição brasileira será uma vitória "confortável" da candidata Dilma Rousseff. Na edição do fim de semana, o Financial Times descreve a candidata petista como uma "tecnocrata, com pouco carisma, quase sem popularidade e sem base política que possa chamar de sua", alçada de uma relativa obscuridade pelo apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O jornal britânico também avalia que o candidato do PSDB, José Serra, não conseguiu apresentar alternativa à "mistura poderosa" de Lula, formada pela "ortodoxia econômica e por generosos gastos sociais".

The Guardian

O The Observer, publicação dominical do jornal britânico The Guardian, traz artigo de seu correspondente no Rio de Janeiro, que analisa as alterações econômicas no Brasil ao tratar do ambiente requintado do Bar Londra, no luxuoso hotel Fasano, e de mudanças vistas em diversas favelas da cidade. Segundo o jornal londrino, alguns brasileiros dizem que os resultados positivos obtidos na era Lula são fruto do boom das commodities ou das reformas que, na verdade, adotadas pelo seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB). "Mas ninguém pode argumentar com os números da popularidade (de Lula)", diz o The Observer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.