Do poeta sem óculos à caçadora mutilada

SP está cheia de obras danificadas; DPH não sabe estimar quantas

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

Uma escultura não tem braço. Da outra, levaram a orelha. E ainda há uma terceira sem óculos. Há muitas esculturas expostas em praças e ruas de São Paulo danificadas. Na Praça da Sé, a escultura abstrata Nuvem sobre a Cidade foi depredada há algumas semanas. Está torta e a parte suspensa entre dois pilares, no chão. A peça de aço inox foi comprada pela Prefeitura e instalada no local há mais de 30 anos. "Nem sabia que estava danificada. Quem me avisou foi você, mas deveria ser alguém do poder público. Fiquei muito chateado", diz o autor, o artista plástico Nicolas Vlavianos, de 80 anos. Outra obra dele, Progresso, instalada no Largo do Arouche, está riscada e pichada. A escultura de 8 metros de altura feita de chapa de ferro já foi repintada duas vezes. Mas Vlavianos lembra de uma escultura em perfeito estado. De aço inox, Homem Pássaro está no Parque da Luz. Como as outras 53 obras espalhadas pelo parque, é conservada e restaurada periodicamente pela equipe técnica da Pinacoteca. "Colocar grades para proteger uma obra seria absurdo. Elas foram feitas para a população chegar perto, sentir, cheirar", diz o artista. "Não adianta ter monumentos se não há quem tome conta. As empresas poderiam protegê-los em troca de propaganda." O Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), órgão da Secretaria Municipal de Cultura responsável pela conservação e restauro dos monumentos, não tem prazo para recuperar a obra da Sé. "Vamos analisar se poderá ser recuperada no local. Caso tenha de ser transportada, precisaremos da ajuda da Secretaria das Subprefeituras", diz a arquiteta Rafaela Bernardes, da Comissão Permanente de Análise de Obras de Arte e Monumentos Artísticos em Espaços Públicos. O DHP ainda não sabe se o restauro será feito por licitação ou receberá recursos públicos. A verba para manutenção e recuperação de monumentos prevista para este ano é de R$ 200 mil, como em 2008. "Muitas vezes a recuperação de uma só peça pode ultrapassar esse valor", diz Rafaela. O DPH não tem o número de obras danificadas ou furtadas. Ainda no Largo do Arouche, na frente do prédio da Academia Paulista de Letras, todos os bustos de escritores paulistas estão incompletos. Do escritor José Pedro Leite Cordeiro levaram os óculos. O busto de José Augusto Cesar Salgado foi furtado. De um outro escritor levaram tudo: placa e busto. Como corria risco de ser depredado, o busto de Aureliano Leite foi levado para o depósito do DPH.Além dele, estão lá um fragmento do braço de Diana Caçadora, que fica na Praça Pedro Lessa, o Monumento a Cícero, também do Arouche, e Heróis da Aviação, da Praça Coronel Fernando Prestes. Mesmo obras recentemente recuperadas já sofreram vandalismo. Amor Materno, esculpida em mármore pelo francês Charles-Louis Eugène Virion (1865- 1946), está sem orelha desde janeiro. A obra havia sido recuperada pouco antes pela Votorantim e elevada sobre uma base. De nada adiantou. Os bustos e placas furtados, de bronze, são vendidos por um valor abaixo do real. Para tentar coibir o furto, as placas de bronze das obras restauradas na campanha Adote uma Obra Artística foram substituídas por granito. O DPH estuda trocar as peças constantemente furtadas por materiais inferiores, como resina. A empresa que adota um monumento fica responsável por sua conservação por dois anos. Depois, ela volta a ser feita pelo DPH. Para o presidente da Viva o Centro, Marco Antonio de Almeida, a solução está numa gestão compartilhada entre a sociedade civil e empresas privadas. "Deveria ser criado um sistema de zeladoria urbana no centro, como há em Nova York."

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