Doação depende de benesses, diz delegado da PF

Revoltado com a corrupção no País, Josélio Azevedo de Souza cobra maior fiscalização

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2010 | 00h00

"No Brasil a realidade é: o doador de campanha está pensando nas benesses que pode obter por intermédio daquela pessoa que está assumindo um cargo público", afirma o delegado da Polícia Federal Josélio Azevedo de Souza.

Integrante da unidade de repressão a crimes fazendários, Josélio é responsável na PF pelas investigações sobre desvios de recursos públicos.

Na reunião da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), encerrado sexta-feira em Florianópolis, o delegado federal sugeriu a criação de delegacias especializadas para investigar a corrupção no País. "O problema está na nossa porta, na nossa vida, no nosso dia a dia", alerta o delegado, de 33 anos, há 8 na PF.

Em entrevista ao Estado, o delegado disse que a corrupção o revolta. Ele abordou o financiamento de partidos nas eleições - no último pleito, por exemplo, as maiores empreiteiras depositaram mais de R$ 100 milhões no caixa de candidatos de agremiações diversas.

"Não estou falando de casos específicos, mas muitas vezes o doador não vai doar pensando nas convicções sócio políticas daquele que está sendo financiado", assinala o delegado, enfatizando que esta é uma opinião pessoal sua. "Muitos doadores ou financiadores de um partido político no Brasil, em tese, se identificam com as propostas daquele que está se candidatando. Só que, muitas vezes, isso se desvirtua. O doador não adere às ideias políticas, adere a como o empossado vai gastar o dinheiro público. É o meu entendimento pessoal."

Controle. Josélio cobra fiscalização severa sobre os repasses de recursos a partidos e candidatos. "Tem de ter o acompanhamento dos órgãos de fiscalização e controle, do quanto e da maneia como se dá esse financiamento. E a sociedade também deveria participar de uma maneira mais efetiva."

Para o delegado, não basta a Lei da Ficha Limpa - que barra políticos condenados em segunda instância. "O País precisa de uma reforma do sistema eleitoral. A gente percebe claramente que o vício é de origem, desde o financiamento de campanha. A vinculação sobre quem financiou e pretende obter a vantagem de quem vai assumir um ente estatal."

O delegado informou que a PF está mapeando todos os inquéritos sob sua responsabilidade que tratam dos crimes contra a administração pública - peculato, corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, prevaricação, violação à Lei 8.666/93 (Lei de Licitações) e ao Decreto Lei 201 (crimes praticados por prefeitos), fraudes e desvios de verbas do Tesouro. São cerca de 30 mil inquéritos.

"É um detalhamento dos inquéritos para que a gente possa identificar os pontos críticos, onde o Estado é mais lesado", revela Josélio. "A meta é planejar as ações de forma gerencial, para definir prioridades. É fundamental para que a instituição aplique recursos humanos e materiais naquilo que exige de fato maior repressão, direcionar esforços contra ações orquestradas que causam maior dano ao erário", acrescentou.

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