Documentário resgata história do bairro na voz dos moradores

André Costa, que cresceu nas ruas da Freguesia, gastou cerca de dez meses para produzir o filme

Renata Gama, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

A energia da ?saudosa? Freguesia do Ó já está no sangue do cineasta André Costa há muito tempo. Como boa parte da família dele nasceu e morou no bairro, ele praticamente cresceu nas antigas ruas e no entorno do Largo da Matriz - o grande ponto turístico e o lugar mais tradicional da região. Por causa disso, ele decidiu levar a público seu carinho pelo bairro e, em 2006, passou três meses coletando imagens para o documentário "Freguesia do Ó: Cenas de um Bairro, História de uma Cidade", realizado em parceria com a Prefeitura.Durante as filmagens, Costa tentou retratar fielmente o dia-a-dia da Freguesia, além de mostrar as mudanças sofridas na paisagem urbana do bairro em seus mais de 400 anos de história. Para isso, a equipe conversou com crianças e jovens que, ao analisarem fotografias antigas do bairro, puderam perceber as transformações na arquitetura do bairro. O resultado é um imenso arquivo com 46 horas de material, que foi editado em um vídeo de 26 minutos - que deverá ganhar uma nova edição, estendida, em breve.A escolha pela Freguesia como cenário para o filme não se deu exclusivamente pelo envolvimento pessoal do cineasta com o lugar. "É um bairro muito peculiar, um dos mais antigos de São Paulo e que guarda muitas características de tempos remotos", justifica o cineasta, orgulhoso do trabalho realizado. "A geografia é interessante: a Igreja, posicionada bem no centro, em destaque, tem um papel fundamental para a socialização das pessoas, como ocorre em cidades do interior", explica Costa.FOLCLOREAlém disso, há outra característica cultural que destaca a Freguesia do Ó em relação às outras regiões da capital: é um dos únicos lugares da cidade onde ainda se comemora a Festa do Divino pelas ruas. "É um bairro cativante, pois todo mundo se conhece, apesar do crescimento urbano, e que guarda rastros importantes da fundação nessas relações interpessoais", conta Costa.Não é por acaso que o bairro preserva uma certa semelhança com o clima de interior. Na realidade, a Freguesia do Ó era uma região onde os proprietários de terra instalavam fazendas. Essa característica durou até o século passado e resistiu ao tempo por causa de uma barreira natural: o Rio Tietê separa o bairro da região central, o que retardou parcialmente o desenvolvimento.André Costa ressalta que o próprio crescimento imobiliário chamou sua atenção na Freguesia. "Por ser uma área de várzea, os terrenos tinham um valor comercial baixo até a década de 1970. Isso favoreceu o desenvolvimento do futebol de várzea na região", lembra. "Depois, o bairro começou a crescer e, hoje, já é uma região residencial bem valorizada", conclui o cineasta.Segundo Costa, o período de pesquisa oficial para a produção do documentário durou alguns meses. "Mas como sempre estive circulando pelo bairro quando criança, a pesquisa durou praticamente toda a minha vida", brinca.No total, entre período de pesquisa, filmagens e montagem, foram cerca de dez meses de trabalho. Mas como muitas histórias ficaram de fora da produção porque não couberam nos 26 minutos de filme, ele está planejando voltar à mesa de edição para acrescentar cenas cortadas. O objetivo é fazer uma nova versão da fita, com uma duração maior, contando principalmente a história das famílias da Freguesia.

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