Dois médicos são indiciados por morte de menina baleada no Natal passado

Adrielly dos Santos Vieira esperou oito horas para ser operada em hospital municipal do Rio

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2013 | 18h15

RIO - A Polícia Civil do Rio de Janeiro indiciou, nesta sexta-feira, 20, dois médicos do Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, zona norte do Rio, pela morte da menina Adrielly dos Santos Vieira, de 10 anos, atingida na cabeça por uma bala perdida na noite de Natal do ano passado. O chefe do setor de neurologia da unidade de saúde, José Renato Ludolf Paixão, e o chefe do plantão, o cirurgião vascular Ênio Eduardo Lima Lopes, vão responder pelo crime de homicídio culposo (quando não há intenção de matar).

Levada ao hospital, Adrielly teve que esperar oito horas para ser operada porque o neurocirurgião Adão Orlando Crespo Gonçalves, que deveria estar trabalhando, faltou ao plantão. A menina teve morte cerebral em 30 de dezembro e faleceu no dia 4 de janeiro deste ano.

O delegado Luiz Archimedes, da 23ª Delegacia de Polícia (Méier), encaminhou o inquérito nesta sexta-feira, 20, ao Ministério Público. Segundo ele, Paixão foi indiciado porque Crespo Gonçalves avisou que faltaria ao plantão, e ele não escalou nenhum outro neurocirurgião. Já Lopes foi responsabilizado porque ficou sabendo da falta de Crespo Gonçalves e não teria feito nada para suprir o atendimento no hospital.

Omissão de socorro. O neurocirurgião Adão Crespo Gonçalves já havia sido indiciado pela 23ª DP pelo crime de omissão de socorro. O delegado Luiz Archimedes decidiu indiciar Crespo Gonçalves após interrogar o neurocirurgião Francisco Doutel de Andrade, que chefiava a emergência do Salgado Filho na hora do episódio. Ele contou que era da mesma escala de Crespo Gonçalves há dois anos, mas nunca tinha visto o neurocirurgião. A pena para omissão de socorro é de um a seis meses de prisão, podendo ser triplicada em caso de morte.

À polícia, Crespo Gonçalves afirmou que faltava aos plantões há mais de um mês antes do episódio por discordar das condições de trabalho no hospital. O médico alegou que uma resolução do Conselho Regional de Medicina determina que cada plantão tenha pelo menos dois médicos neurocirurgiões. Ele seria o único na especialidade a trabalhar na noite de 24 de dezembro e disse ter avisado José Renato Ludolf Paixão, chefe do setor de neurocirurgia do hospital, sobre sua decisão de faltar. Paixão confirmou ter sido avisado, mas disse ter alertado o médico de que não havia substituto e, por isso, ele deveria trabalhar.

Falsidade ideológica. Em janeiro deste ano, a Delegacia Fazendária (Delfaz) da Polícia Civil indiciou o neurocirurgião Adão Orlando Crespo Gonçalves por falsidade ideológica e estelionato contra a administração pública. O também neurocirurgião Francisco Doutel de Andrade foi autuado pelo crime de estelionato contra a administração pública, pois trabalhava no lugar de Crespo Gonçalves, recebendo a quantia integral do salário dele. Outros seis médicos também estão respondendo por crime de condescendência criminosa contra a administração pública.

Crespo Gonçalves foi demitido do serviço público pela Prefeitura do Rio em julho. A demissão foi publicada na edição do Diário Oficial do dia 9 daquele mês. Outros sete profissionais de saúde e um funcionário administrativo do hospital também foram punidos com afastamentos temporários do serviço.

Memória. A menina Adrielly foi atingida por um tiro quando brincava na porta de casa com a boneca que havia acabado de ganhar de Natal. O disparo teria partido de traficantes da Favela Urubuzinho, que comemoravam o Natal com tiros para o alto. A garota morava com a família entre as favelas Urubu e Urubuzinho, em Pilares, na zona norte do Rio.

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