Dois moradores de rua são executados a tiros em Brasília

Local é o mesmo onde índio foi queimado, em 97; polícia considera tese de ''limpeza social''

Vannildo Mendes, O Estadao de S.Paulo

20 de janeiro de 2009 | 00h00

A Polícia Civil abriu inquérito para investigar a morte de dois moradores de rua, executados com tiros na cabeça, à queima-roupa, ontem de manhã, quando dormiam na Praça do Compromisso, na W-3 Sul, uma das avenidas mais movimentadas de Brasília. O autor dos disparos foi um motoqueiro, descrito como um homem branco, de cerca de 30 anos, que está sendo procurado. Ele trajava camisa social azul e estava sem capacete, mas as poucas pessoas que estavam na rua só viram a cena de longe.O local, também conhecido como Praça do Índio, é o mesmo onde o pataxó Galdino Jesus dos Santos foi queimado vivo por jovens de classe média, enquanto dormia, na madrugada de 20 de abril de 1997.Por volta das 6h40, Raulhei Fernandes Mangabeiro, de 26 anos, conhecido como Zé, levou o primeiro tiro e morreu na hora. Paulo Francisco de Oliveira Filho, de 35 anos, que dormia a seu lado, acordou com o estampido, fez um gesto brusco de defesa e levou três tiros - um atravessou-lhe a mão esquerda, outro atravessou o pescoço e o terceiro alojou-se na cabeça, matando-o também na hora.A polícia trabalha com indícios de acerto de contas de algum traficante, ou mesmo de vingança pessoal, mas não descarta a hipótese de "limpeza social". "A única certeza é que o crime tem características de execução e muito em breve vamos chegar ao autor e ao eventual mandante", disse o delegado Rodrigo Telho, da 1ª DP, encarregado do inquérito. A seccional Brasília da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou que vai acompanhar as investigações.A principal testemunha do crime é outro morador de rua, Régis José Maria, que bebeu com as duas vítimas até por volta de meia-noite, quando os três se recolheram para dormir no coreto da praça. O local vem sendo usado como abrigo noturno de mendigos e também por traficantes de drogas que fazem ponto na área e incomodam comerciantes e moradores da vizinhança. Com frequência são registrados pequenos furtos, ataques a mulheres e badernas. "Eles defecam na rua, embriagam-se, brigam, fazem sexo e todo tipo de arruaça a céu aberto", reclamou a professora Graça Silva, vizinha da praça. Comerciantes e moradores propuseram ao governo local transformar o coreto abandonado em posto policial, a fim de afugentar os desocupados e proteger a área, mas a ideia foi recusada porque Brasília é tombada como patrimônio arquitetônico da humanidade e não é possível mexer na edificação.Oliveira Filho estava convencido a mudar de vida, tirou novos documentos e combinou de se encontrar com um pastor evangélico às 9h de ontem, a fim de se internar numa clínica de recuperação de viciados. Ele foi assassinado duas horas antes do encontro.

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