Dom de confundir

O exemplo é clássico lugar comum, até, sobre as maneiras ardilosas do político mineiro: "Você vai para onde?" pergunta o deputado ao colega. "Barbacena", responde.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

"Ele disse que vai para Barbacena para eu achar que vai para Lavras, mas ele vai é para Barbacena mesmo", pensa o primeiro, que não contesta, mas sai dali convicto de que matou a charada.

Guardadas algumas proporções é mais ou menos o que está acontecendo na negociação entre PT e PMDB para a formação de uma aliança com vistas à chapa única para as eleições estaduais.

Um grupo assegura que ruma para Barbacena, mas outro desconfia de que seja um mero truque, embora não tenha certeza sobre qual seja o destino verdadeiro. Talvez Lavras, as versões variam conforme a autoria.

Desde a semana passada, na tradução das lideranças nacionais de ambos os partidos, foi tudo devidamente apaziguado e acertado. No próximo dia 9 de maio, uma semana depois da realização de prévias no PT para a escolha do melhor candidato petista ao Senado, será anunciada a candidatura única ao governo.

Com o senador Hélio Costa, do PMDB, como governador e Fernando Pimentel ou Patrus Ananias - dependendo de quem vencer as prévias do PT - em uma das duas vagas disponíveis para o Senado.

Não é, no entanto, o que diz o presidente regional do PT, Reginaldo Lopes, para quem quiser ouvir; nem o que falaram o presidente do PMDB mineiro e o próprio Hélio Costa na última reunião com a cúpula nacional do partido em Brasília.

O petista, por sinal ligado a Fernando Pimentel, assegura que as prévias do PT são para escolher candidato a governador, não a senador.

Os pemedebistas acham que o PT procura ganhar tempo para ver se Hélio Costa cai nas pesquisas e aí o partido tem uma justificativa para apresentar candidato próprio. Por isso o PMDB não aceitou o prazo de 60 dias inicialmente pedido pelo PT para uma decisão. Tampouco acha boa essa data de 9 de maio.

Os mais radicais consideram que o limite do suportável é fim de abril. E uma exigência: um petista para vice de Hélio Costa como garantia de que o PT não vai "cristianizar" o candidato.

Ainda assim, pergunte-se às direções nacionais do PT e do PMDB como vai o acordo de Minas e os respectivos presidentes dirão: "Vai muito bem."

Mas vai para Lavras ou Barbacena?

Escaldada. A TV Globo evidentemente é dona das razões e avaliações sobre o que é mais conveniente para a empresa sob todos os aspectos, inclusive político-eleitorais.

É de se supor que, pesados e medidos os ônus e os bônus, a emissora tenha concluído que seria de alguma maneira prejudicada pelos reclamos do PT de que o jingle comemorativo aos 45 anos da TV Globo continha mensagem subliminar de apoio à candidatura da oposição.

Pelo fato de 45 ser o número do PSDB e por causa de o trecho "todos queremos mais" do jingle ser visto pelo PT como alusão ao slogan "o Brasil pode mais" usado pelos tucanos.

Em nome da requerida isenção, a emissora não poderia alterar sua data de fundação e a música da propaganda, conforme explicado, estava pronta desde novembro.

Nessa toada a autocensura e a interdição da patrulha vira regra para manifestações de "querer mais" de qualquer coisa daqui até as eleições.

Valendo para Lula inclusive, que na Reserva Raposa Serra (?) do Sol falou em "fazer mais" pelos índios. Passou uma mensagem subliminar de apoio ao adversário?

Pois é, donde se vê como uma tolice travestida de sofisma pode transformar um conjunto de profissionais num conjunto insidioso de suspeitos.

Em determinadas situações os fatos contam pouco. Até hoje a TV Globo é responsabilizada pela eleição de Fernando Collor de Mello por causa da edição do debate com Luiz Inácio da Silva no segundo turno da eleição de 1989, embora Lula já tenha dito que entrou naquele programa emocionalmente desestabilizado - por truques baixos do adversário, inclusive - e perdeu o embate independentemente da edição.

Foi derrotado pela expressão da vontade do eleitorado. É esta que prevalece, como prevaleceu nas duas vitórias posteriores.

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