Dona da cantina Máfia Siciliana é ligada à máfia nigeriana

Está presa, por tráfico de cocaína e ligação com a chamada "máfia nigeriana", a advogada Maria Cecília Militeli Palermo, uma das donas da tradicional cantina Máfia Siciliana, em Santa Cecília, região central.Ironias da vida à parte, o caso da advogada - sentenciada a 12 anos de reclusão na primeira instância e recorrendo da sentença por alegar-se inocente - é um exemplo expressivo de como atua a "máfia nigeriana", também chamada, pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, de "conexão africana".Casada com o nigeriano Ogbonnaya Okorie, de 42 anos, que também está preso e condenado, Maria Cecília começou a cair em 13 de maio, quando quatro agentes da Polícia Federal, na pista havia três meses, encostaram um carro frio em um edifício da Rua Martins Fontes. Viram a advogada chegar, num Vectra vermelho, e dirigir-se à portaria, com uma sacola.Saiu, minutos depois, com o pernambucano desempregado Sivaldo Lemos dos Santos, já portador da sacola. Esperaram, ao lado do Vectra, a chegada do cearense desempregado Antônio Idalécio Gondim de Souza. Os agentes seguiram o carro da advogada até um flat da Rua Fernando Albuquerque - onde ela desembarcou os passageiros. Os dois subiram ao apartamento 84.Com a ajuda do recepcionista, de uma chave reserva e, diz o inquérito 3-0043-02, "autorizados pelo superior", os agentes Ferreira e Samesina (os funcionários que investigam entorpecentes nunca divulgam os nomes completos) flagraram Souza ingerindo cápsulas, na presença de Santos.Era cocaína, como os laudos mostraram depois. Souza já havia engolido 40 - ou 610 gramas, segundo o laudo do hospital em que depois as expeliu. Mais 48 cápsulas foram apreendidas pelos agentes. Tinham 589 gramas. Pouco mais de 1 quilo, no total. O "mula" (pessoa paga para transportar a droga) Souza levaria a cocaína para a Espanha. As passagens, o passaporte e US$ 1.100 para despesas da viagem também foram apreendidos.Ferreira e Samesina levaram os presos à PF e voltaram à Martins Fontes, subindo ao apartamento em que estivera Maria Cecília. Lá estava Ronan Machado Diniz, mineiro desempregado, de 32 anos. Os agentes acharam três passaportes em nome de uma mesma pessoa, pequena quantidade de cocaína e de maconha, celulares e documentos. Prenderam Diniz.Maria Cecília e o marido nigeriano estavam tranqüilos em seu apartamento, num edifício da Alameda Itu, nos Jardins. As cápsulas que Souza levaria iriam render uns US$ 30 mil, que traria na volta, ganhando US$ 2 mil pelo trabalho.Não era o primeiro "mula" do casal. Santos, por exemplo, que já fizera duas viagens levando cápsulas no estômago - a Valência, Espanha, e a Amsterdã, Holanda. Ganhou US$ 1.680 em cada uma.Ronan também confessou uma viagem para Amsterdã, pela qual ganhou US$ 2 mil, menos de 10% dos dólares que trazia. Com os eventuais rendimentos da cantina, as coisas não iam mal. Naquele mesmo dia, depois das três prisões, os agentes federais Monteiro e Druziani foram cumprir um mandado de busca e apreensão na Alameda Itu. Prenderam Maria Cecília (codinome Cris) e Okorie (codinome Eduardo).Os agentes encontraram uma prensa, uma balança de precisão, passaportes, passagens aéreas, cápsulas de cocaína, material para a confecção das cápsulas, celulares, agendas, anotações referentes à contabilidade de dólares e um passaporte em nome do nigeriano Arinze Tony Ojukwu. Vinha a ser, como logo se conferiu, o traficante preso em 1999 que se suicidou na custódia da PF em São Paulo. Eduardo era seu primo. Ajudou a reconhecer e liberar o corpo.A má sorte da quadrilha foi selada em sentença emitida pelo juiz federal Alexandre Cassetari em 9 de outubro. O juiz não considerou válidos os argumentos da defesa. Em um deles, Maria Cecília diz que usava a balança de precisão para preparar os alimentos do filho (então com 1 ano e 6 meses). Em outro, que a substância encontrada não era cocaína, e sim sal marinho. Doze anos para ela, 12 anos para Okorie, 12 para Santos, 6 para Diniz e 4 anos e 2 meses para Souza."Tivemos sucesso, neste e em outros casos, mas a máfia continua em franca atividade", diz o delegado Fernando Braga, diretor de Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF de São Paulo. Aos 45 anos, 25 de PF, 18 dos quais como agente, Braga foi um dos delegados que atuou no caso Maria Cecília.Ele diz que, a rigor, as duas expressões - "máfia" e "nigeriana" - deixam a desejar. Primeiro, porque não existe um "capo" e uma direção centralizada. Segundo, porque há africanos de outros países no esquema. E terceiro, do que dão prova protestos do Consulado da Nigéria em São Paulo, porque carrega uma carga forte de preconceito e generalização."São várias organizações bem articuladas e, às vezes, com ligações entre si", define Braga.Braço forte do crime organizado, a conexão preocupa a americana Drug Enforcement Agency (DEA), o Ministério da Justiça e o Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) paulista. "De cada cinco estrangeiros presos, três são nigerianos ou estão envolvidos com eles", diz o diretor do Denarc, Ivaney Caires de Souza. Só este ano houve 19 prisões de estrangeiros, parte deles europeus arregimentados pelos africanos para não despertar suspeitas.No dia 21, por exemplo, Caires apresentou à imprensa o belga Boulbahaiem Moussa, de 33 anos, preso no dia 17 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando tentava embarcar para Madri, Espanha, levando cocaína e ecstasy líquido. Moussa disse ter sido contratado por um nigeriano, como "mula", por U$$ 3 mil se a droga chegasse a Bruxelas.No dia 22, também no Aeroporto Internacional, o Denarc prendeu a doméstica carioca Valéria Luiza dos Santos Silva, grávida de seis meses. Ela tinha um 1,5 quilo de cocaína no forro da calcinha e iria embarcar para a África do Sul. Valéria contou à polícia que o acerto foi feito com um nigeriano, no Rio.O Denarc prendeu 38 africanos em 2002, 27 deles nigerianos. São casos como o de Michael Ugbu Kadu, preso com três quilos de cocaína em 30 de julho; de Sunday Nzomiwu, flagrado com 28 quilos em 22 de novembro, Kenneth Tochukwu e Edosegue Yesefu, detidos com 23 quilos em 7 de dezembro."Eles são muitos e não fazem outra coisa", diz o delegado Robert Carrel, responsável direto pelo desbaratamento de algumas quadrilhas.Carrel reclama das liberalidades na legislação de imigração. "Temos que ter algum controle, como outros países têm, e checar direitinho essa história de nigeriano estudar sânscrito na USP."Caires situa a origem do problema nas péssimas condições sociais da Nigéria e de outros países da África - que forçam a imigração."Em busca de melhores condições de vida, que não encontram, muitos deles entram no crime organizado", diz o delegado, que já teve de administrar protestos do cônsul nigeriano. Uma das ações mais espetaculares contra a máfia, pela coragem de uma investigadora, foi a prisão, em 28 de outubro, na Vila Brasilândia, zona norte, do nigeriano Henry Modebe, do sul-africano Gilbert Nkosi, de Willian Akono, de Serra Leoa, e da brasileira Vanessa Prates de Abreu.Já chegava a três meses o arriscado e paciente trabalho dos investigadores na cola dos três africanos. Um deles conseguiu ganhar a confiança de Akono. Era hora, no começo de outubro, de plantar uma "mula" que conseguisse se fazer confiável e, mais importante, garantisse o flagrante nos tensos minutos que antecederiam a ingestão das cápsulas.A escolhida pelo delegado Pascoal Ditura, da equipe de Caires, não pode comemorar publicamente sua façanha. Questão de segurança. Aos 32 anos, é casada e mãe de três filhos. Tem menos de dez anos de polícia e oito meses de Denarc. Ganha R$ 1.500,00 mensais, brutos.Encarou a missão como profissional. Travestiu-se de garota de programa e como tal foi apresentada a Akono, nas imediações da Avenida Rio Branco, no centro. Nos primeiros dias, para dar força ao papel, fez programas fictícios com colegas. Akono caiu. Aos poucos, a policial foi conhecendo os demais e ganhou acesso à casa da Rua Professora Carlinda Ribeiro, 97.O treinamento começou - sim, há um treinamento para ser "mula" - no dia em que eles testaram a capacidade de deglutição da agente. Sem esse teste, adeus dólares. Apresentaram cenouras pequenas - de uns 5 centímetros. A primeira tentativa foi difícil - a policial ainda passa a mão no pescoço enquanto fala, lembrando a agonia.Cinco cenouras depois, foi aprovada com louvor, habilitando-se para a segunda etapa. Qual seja: tirar o passaporte, na PF. Acompanhou-a, pagando as despesas e caprichando na cara-de-pau, Akono.A infiltração já ia a 20 dias, na manhã de 28 de outubro. Passagens compradas, para Amsterdã. Cachê acertado, US$ 4 mil. Hora de engolir as cápsulas e preparar-se, à base de remédios, para 24 horas sem qualquer alimentação.Nossa investigadora sabia que a equipe de apoio estava por perto, à espera do flagrante.A dez minutos de começar a engolir as 600 gramas, coisa de 60 cápsulas, recolheu-se em um quarto da casa e mandou um torpedo pelo celular que conseguira ocultar. Menos de um minuto depois, quatro investigadores do Denarc invadiram a casa e prenderam todos, incluindo Vanessa, a namorada brasileira de Modebe, que estava ali para dar uma força moral à "mula".Os africanos, desarmados, não reagiram. Só descobriram a cilada no Denarc. Modebe percebeu que a agente era a única sem algemas. Ficou estupefato. "Você traiu a minha confiança!" Ouviu, em resposta: "Você fez o seu serviço e eu fiz o meu."Há quadrilhas da "conexão africana" muito mais articuladas. A PF de São Paulo desbaratou, em outubro, fruto de um trabalho de equipe, uma das fortes, comandada por Fernando Conte Suncar, da Guiné-Bissau, e pelo nigeriano Johnson Eze.Também foram presos o nigeriano Charles Chibuique, a paraguaia Sulma Mendoza Ortiz e seu irmão menor, e os brasileiros Hélio Osmar Benedet, de Foz do Iguaçu (PR) e Márcia Regina Massaro, de Limeira (SP). O processo está na Justiça Federal, esperando sentença.A primeira pista nasceu da Operação Mar Aberto - nome fantasia da operação federal que combate o tráfico de peruanos e bolivianos. Segundo um relatório da PF, observou-se contato de grupos colombianos sob investigação com um grupo de nigerianos comandados por Fernando Suncar.Descobriu-se, também, que embora mantivesse contato com os colombianos, o grupo de Suncar e Eze "possuía estrutura própria, voltada para o tráfico de drogas, que inclui fornecedores independentes, transportadoras, laboratórios, depósitos e redes de distribuição, inclusive no exterior".Suncar passou a ser vigiado pela PF. Descobriram que era sócio de Eze numa empresa de fachada em Santa Cecília. A DEA informou à PF que Eze já fora investigado por tráfico pela polícia da Nigéria. Informou, também, que em 5 e 12 de agosto, a polícia de Memphis, nos Estados Unidos, encontrou duas encomendas com cocaína despachadas por Eze.A PF criou a Operação Atlantic para investigar a quadrilha. O inquérito detalha uma sofisticada e bem articulada operação de tráfico de cocaína com a utilização de "mulas" e com a droga escondida em cargas de peças para automóveis e em sistemas no-break. Uma busca em nove locais da capital rendeu a apreensão de 76 quilos.Também houve apreensões e prisões em Minas e no Ceará. Na capital mineira, a polícia prendeu Jorge Lino Bittencourt, no momento em que despachava 100 quilos de cocaína para a empresa MR Massaro, de Márcia. Em Fortaleza, foram presos, em 19 de julho, os ingleses Allen Johnson e Suzane Cann. Estavam embarcando para a Holanda com 13 quilos repassados por Benedet.Segundo o relatório da CPI do Narcotráfico, de novembro de 2000, "a conexão africana é uma máfia internacional, que atua em todos os continentes". O que mais preocupa, diz o relatório, "é o fato de ser o Brasil uma das principais sedes dessa organização e, pior ainda, um dos principais mercados consumidores de cocaína, tamanha a facilidade que estes criminosos encontraram para expandir o narcotráfico" no País. Pouca coisa mudou, de lá para cá.

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