Acervo Pessoal
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‘Dor que o tempo não cura’, diz mãe sobre homicídio de filho sem solução há 20 anos

Carlos Henrique de França, filho de Aparecida Pires de França, é um dos cinco jovens com idades entre 17 e 23 anos assassinados na "chacina de Teodoro Sampaio"

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

“Sinto que a justiça está em falta comigo e com minha família. Já são 20 anos de angústia, sem nenhuma resposta, sem que nenhum culpado tenha sido punido. É uma dor que o tempo não cura”. 

O desabafo é de Aparecida de Fátima Pires de França, mãe do jovem Carlos Henrique de França, um dos cinco jovens com idades entre 17 e 23 anos, assassinados naquela que ficou conhecida como a “chacina de Teodoro Sampaio”. Os crimes, com requintes de crueldade, aconteceram no dia 3 de julho de 2001, quando a cidade, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do Estado de São Paulo, tinha 20 mil habitantes.

Os jovens foram achados mortos em um pasto, atrás do cemitério, com ferimentos a facão ou foice na cabeça e no pescoço. A chacina causou comoção e mobilizou as polícias de toda a região. 

As investigações foram encerradas e o caso arquivado 13 anos depois, sem apontar suspeitos ou motivos para os assassinatos. Em julho deste ano, os crimes prescreveram, ou seja, quem os cometeu já não pode ser punido pela justiça. 

As famílias das vítimas não se conformam e ainda esperam por respostas. “Não é um crime comum, foram cinco assassinatos brutais, simultâneos, numa cidade pequena. É inaceitável que fique por isso mesmo”, disse Fátima.

A mulher contou que, nos anos que se seguiram, sem respostas da polícia, ela e o marido assumiram o papel de investigadores. “Posso dizer que nossa vida parou e passamos a viver em função desse crime que levou nosso filho e seus colegas. A gente sabia de algo, tinha alguma pista, levava até a delegacia, mas não dava em nada. Não dá para entender como alguém pode cometer um crime de forma tão brutal e não deixar nenhuma pista, nada. Não existe crime perfeito.”

As famílias das cinco vítimas se juntaram em protestos que mobilizaram a cidade. Alguns suspeitos chegaram a ser ouvidos, mas foram descartados. “Houve despreparo, talvez negligência da polícia. Talvez porque a cidade era muito pacata na época, eles não tinham muitos crimes para solucionar, por isso não tinham experiência. O fato é que as pessoas que cometeram essa chacina estão livres. Quem sabe estão por aí, passando do nosso lado, vendo essa nossa tristeza sem fim. Que ironia!”, desabafou.

Alguns familiares das cinco vítimas – além de Carlos Henrique, de 19 anos, foram assassinados Wilson Alves da Silva, 19, Lucylene Medeiros de Souza, 23, Jaqueline dos Santos Zacharias, 20, e Lucicleide de Lima Souza, de 17 – mudaram-se da cidade ou preferem não falar sobre o caso. 

Aparecida de Fátima sonha com o dia em que os crimes contra a vida não terão mais prescrição e continuarão sendo investigados até que o autor seja preso ou também morra. “Venho de família humilde, ando de cabeça erguida na cidade, mas não saber o que houve causa uma tristeza infinita. A gente fica à mercê de uma vida sem resposta.”

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que o caso foi investigado por meio de inquérito policial instaurado pela delegacia de Teodoro Sampaio. “Os laudos solicitados pelo delegado que presidiu as investigações foram anexados ao inquérito. Diversas diligências, incluindo trabalho de campo, foram realizadas, inclusive apurações solicitadas pelo Ministério Público, mas não houve o esclarecimento da autoria. Em agosto de 2013, o Poder Judiciário decidiu pelo arquivamento do caso”, disse, em nota.

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