Dos endereços em hieróglifos às ''ruas''

''Candangos'' se dão o presente de terem superado as arrumações dos croquis e hoje seus trejeitos, virtudes e manias mandam na cidade

Rui Nogueira e Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

O poder mergulhou na lamúria pela coincidência do escândalo do mensalão do DEM com o aniversário dos 50 anos de Brasília, mas a capital está dolorosamente feliz. Na quarta-feira deste cinquentenário, seus 2,6 milhões de habitantes são ou estão cada vez mais brasilienses porque seus jeitos e trejeitos, virtudes e manias já mandam na cidade. E se orgulham de ter dado ao País o primeiro governador preso, por dois meses, no exercício do mandato, um presente e tanto em matéria de contribuição ao combate à impunidade em pleno coração da República.

Tanto quanto os moradores do Rio, Espírito Santo ou Rio Grande do Sul são carinhosamente cariocas, capixabas e gaúchos, os moradores de Brasília também já são assumida e prazerosamente candangos - apagou-se a pecha que tentava diferenciar, pela origem pobre, o trabalhador braçal do burocrata de paletó e gravata que ajudou a construir a cidade.

Aos 50, os candangos, com ou sem gravata, se dão também o presente de terem superado as arrumações ditadas pelos croquis dos arquitetos e, numa heresia suprema, até já trocam os hieróglifos de alguns endereços pelo singelo e universal "rua". Sem deixar de ser uma cidade mais arrumada do que planejada - o que, comprovadamente, tem lá suas comodidades -, o brasiliense se vê, no dia a dia, a caminho de inimagináveis endereços, como "Rua das Farmácias", "Rua das Elétricas", "Rua da Igrejinha", "Rua da Moda", "Rua do Ceub" ou da "Informática". E mais as ruas das noivas, dos restaurantes e dos clubes de futebol.

O indício que mais aproxima os candangos da maioridade urbana está no fato de os administradores não conseguirem mais impor suas vontades políticas à cidade. A cidade se rebelou contra a ideia de que os desejos de Oscar Niemeyer são, naturalmente, os desejos da capital. Brasília reconhece o valor da obra do arquiteto, mas, no ano passado, quando ele propôs uma nova praça, dotada de um obelisco triangular de cem metros de altura, os candangos se perguntaram com a ajuda do Ministério Público se era isso mesmo de que precisavam.

Amantes do horizonte a perder de vista, um patrimônio legado pelo traço de Lucio Costa, os brasilienses avaliaram que o obelisco serviria apenas para poluir a paisagem da Esplanada dos Ministérios. Enfim, os de Brasília, como diz a doutora da UnB em linguística Stella Maris Bortoni-Ricardo, mostraram que "são, acima de tudo, brasileiros, que não perderam a característica de inventar nomes, rebatizar lugares e criar uma outra cidade".

Entrequadras. Foi no ato de "recriar", enunciado por Stella Maris, que o comércio de conveniência das entrequadras de Brasília, nascido no tempo em que não havia nem megashoppings nem hipermercados, se reinventou. Em nome da sobrevivência, e sem abandonar a marca da setorização, os comerciantes começaram a se agrupar por temas, facilitando a referência para os clientes: uma penca de lojas de material eletrônico migrou para a entrequadra 207/208 Norte e "fundou" a "Rua da Informática". A 304/305 Sul especializou-se em produtos casamenteiros e virou "Rua das Noivas". E por aí vai. A pequena e bela Igreja de Nossa Senhora de Fátima é tão marcante na 107/108 Sul que fez a entrequadra ganhar a carinhosa denominação de "Rua da Igrejinha".

A vida com meio século às costas dita os nomes, aproxima os endereços dos hábitos e rejeita artificialismos e espertezas políticas como o batismo da nova ponte de Brasília, pelo então governador Joaquim Roriz, de "Ponte JK". Numa cidade que homenageia de sobra o presidente Juscelino Kubitschek, a placa está lá, mas, da mesma forma que os cariocas só chamam o estádio Mário Filho de Maracanã, os brasiliense se referem à Ponte JK como "Terceira Ponte". E já que não pode ser o que deveria ter sido, "Ponte do Mosteiro", a malícia juvenil, olhando para a forma dos arcos, rebatizou-a novamente de "Ponte McDonald''s." O riso combate o risível.

Usucapião. Outra evidência da tomada de posse da cidade por usucapião social está na maneira como os gramados são usados hoje. Os tapetes sagrados, onde ninguém botava o pé e serviam apenas para enfeitar o asfalto e o concreto dos prédios, viraram praças públicas. A mais democrática delas é a enorme Esplanada dos Ministérios, uma área equivalente a uns quatro campos de futebol que, de terça a quinta, ao ritmo do Congresso, acolhe centenas de manifestantes, de sem-terra a índios, de fazendeiros a sindicalistas de todas as centrais. Nos finais de semana, entre outros esportes, é possível assistir a uma pelada de rugby que tem os esbarrões amortecidos pela bem tratada e cortada grama do poder.

Aos 50, Brasília já é o que seus moradores querem que ela seja, em vez de ser apenas aquilo que os arquitetos, os administradores e os políticos julgam ser o melhor para a cidade. E ficou politicamente madura depois de uma longa ditadura (1964-1985) e uma sucessão de Repúblicas - da República do Maranhão, com Sarney, à República do ABC, com Luiz Inácio Lula da Silva. Tão madura que um dos seus diletos filhos, o poeta Nicolas Behr, 51 anos, cuiabano de nascimento, não tem dúvida sobre a melhor saída para os problemas políticos da Brasília cinquentenária, mensaleira, nem melhor nem pior do que todas as outras capitais. "A democracia é o único regime político que pode ser melhorado. Tudo o que aumenta a consciência política é bom para a democracia". Sentença de poeta!

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