Bloomberg Photo/Paul Barrena
As margens do Rio Tejo em Lisboa, capital de Portugal; brasileiros residentes no país são, em maioria, mulheres no auge da idade produtiva Bloomberg Photo/Paul Barrena

Dos milionários aos desempregados, brasileiros em Portugal não pensam em voltar

Diversa, comunidade de imigrantes encontra dificuldades e sofre preconceito, mas elege dezenas de razões para ficar no Velho Continente

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

14 de julho de 2019 | 03h00
Atualizado 16 de julho de 2019 | 15h57

Correções: 16/07/2019 | 15h57

LISBOA – São megainvestidores milionários, estudantes, empresários, escultores de areia, motoristas de aplicativo, artistas, desempregados. São brasileiros, em Portugal. Números e relatos obtidos pelo Estado mostram “zucas” (como se tratam e são chamados pelos lusitanos) de todas as idades e classes sociais, fazendo a rota oposta à do Descobrimento – repetindo as desigualdades sociais e os desafios do outro lado do Atlântico. Mas sem pensar em voltar.

O Serviço de Imigração e Fronteiras (SEF) registrou em 2018 acréscimo da população estrangeira residente, que chegou a 480.300, maior número da série iniciada em 1976. Só que os “zucas” já são um em cada cinco: 105.423. Dois anos antes, eram 81.251, um avanço de 29,7%.

Dados solicitados pela reportagem ao SEF mostram que os brasileiros residentes em Portugal têm um perfil bem mais feminino e no auge da idade, quando se fala em capacidade produtiva, entre 30 e 44 anos. No total, registraram-se 42.848 homens e 62.575 mulheres. Desse grupo, 43.396 (41,16%) estão nessa faixa etária.

O advogado Luiz Ugeda, do escritório Porto Advogados, explica que o país europeu, com uma população envelhecida, precisa de mão de obra qualificada. Já do ponto de vista do Brasil, “há um desconforto de certas camadas da população brasileira com a crise que o País vive”. “Não só a econômica e política, mas a de valores mesmo. Tem muita gente qualificada, dos meios acadêmicos, profissionais liberais e empresários.”

Dessa forma, os que chegam têm um perfil diferente de fluxos migratórios anteriores – em 2012, havia praticamente o mesmo número de residentes “zucas” (105.622). “Você continua tendo profissionais que se submetem a subempregos, que buscam qualquer meio de sobrevivência, mas há também os qualificados.”

Só o Aeroporto de Lisboa, a capital, recebe diariamente 12 ligações aéreas provenientes do Brasil. Entre quem não está a turismo, grande parte já fica por ali mesmo. Na sua maioria, esses cidadãos passam a residir nos distritos de Lisboa (42.847), Porto (12.994) e Setúbal (10.728), onde há mais oferta de empregos. Os brasileiros já estão entre os estrangeiros que mais investem na antiga “metrópole” europeia. Em 2017, responderam por 19% dos investimentos (atrás só dos franceses, com 29%).

Mercado imobiliário

E a chegada de estrangeiros procurando residência sobretudo em Lisboa já é apontada como um dos fatores que colabora para a “crise” do mercado imobiliário (falta de moradias). Além disso, a alta do turismo está transformando diversos imóveis em locais de estadia temporária (como o Airbnb). Muita procura e pouca oferta fazem os preços dos aluguéis dispararem.

“Está difícil encontrar casas a preços acessíveis. Além disso, para brasileiros, muitas vezes os locadores exigem 12 aluguéis adiantados”, alerta Cyntia de Paula, presidente da associação Casa do Brasil, que dá orientações aos recém-chegados. Entre 2013 e 2018, os preços dos imóveis cresceram 46%, de acordo com o grupo Confidencial Imobiliário.

Danilo Bethon, de 29 anos, produtor cultural, adotou Portugal como novo lar há dois anos e diz ter sido sempre tratado com muita cortesia. Contudo, teve dificuldade em alugar um apartamento por ser “zuca”. “Só de falar pelo telefone pedindo informação, percebiam o meu sotaque e diziam que o lugar já tinha sido alugado”, lembra. “Teve a dona de uma casa que, no dia de assinar o contrato, quando viu que eu era brasileiro, pediu seis alugueis adiantados de caução, em vez de dois. Não tinha todo esse dinheiro e não fizemos negócio.”

As principais razões invocadas para a concessão de novos títulos foram reagrupamento familiar – quando a mulher, ou muitas vezes o marido, vai na frente para a Europa e depois traz os demais – para trabalho e estudo. Além da alta de pedidos de residência, muitos brasileiros têm buscado a nacionalidade portuguesa, por casamento, por ter antepassados lusitanos, ou por autorização de residência antiga no país. Em 2018, 11.586 obtiveram o documento; no ano anterior, haviam sido 10.805.

E há um empoderamento feminino. “A imigração costuma ser associada ao homem, mas na verdade muitas mulheres buscam a mudança de país de forma autônoma”, afirma Cyntia. Segundo ela, contribui o fato de serem mais pobres e ganharem menos. “Elas imigram para buscar melhor qualidade de vida, de trabalho e de estudo.” Ugeda levanta ainda a hipótese de o fator segurança sensibilizar mais as mulheres. “Isso faz com que busquem Portugal como projeto de vida e tenham porcentual maior de regularização.”

Bem-estar, mais que ocupação

A queda no desemprego (de 17,3% há seis anos para 6,6% agora) é sempre citada como atrativo para Portugal. Mas há quem não se preocupe com isso. “Nossa família levava uma vida confortável: morávamos numa boa casa e as minhas filhas, de 10 e 14 anos, estudavam em colégio particular, tínhamos uma vida social movimentada”, afirma Nelson Pires da Costa, de 43 anos, que deixou o Rio no ano passado e seguiu para Cascais. Hoje, ele ainda não tem ocupação fixa – trabalhava com reboques no Brasil – e cogita partir para o Uber, mas não pensa em voltar. “Minha filha mais velha, que no Rio não andava nem um quarteirão por medo, agora vai sozinha para a escola.”

Gilda Pereira, sócia da Ei! Assessoria Migratória, conta que seus clientes sempre citam a segurança, as escolas e a saúde pública de qualidade como fatores que pesam. “Tive um cliente que teve câncer depois de chegar e se surpreendeu com a qualidade do atendimento no sistema público.”

Mesmo com o melhor mercado de empregos, não é fácil a colocação para um “zuca” – e em certas áreas o idioma ajuda menos do que se poderia esperar. “Tenho conseguido bons trabalhos em Portugal, mas sei que minhas possibilidades são limitadas porque o português que falo é o do Brasil. As duas personagens de novela que fiz eram brasileiras”, conta a atriz Thaiane Anjos, de 30 anos, que trocou o Rio por Lisboa há quatro anos. No País, atuou nas novelas Flor do Caribe, Além do Horizonte e Malhação, da Rede Globo.

Outro problema é a burocracia, como explica a publicitária Aline Camargo, de 34 anos, que foi para Lisboa há quatro anos e meio. Inicialmente, ela e o marido entraram na Europa como turistas, mas depois decidiram ficar e buscar trabalho remunerado. “Para conseguir a residência, há um processo que chegava a levar dois anos esperando a marcação da entrevista”, diz. Foi depois de ter filha em Portugal que ela correu atrás de regularizar a situação. “Consegui minha residência só este ano.”

Preconceitos

O fator discriminação também influencia, de algum modo, a comunidade de imigrantes. Segundo o Relatório Anual sobre a situação da Igualdade e Não Discriminação Racial e Étnica em Portugal, a nacionalidade brasileira, enquanto fator de discriminação na origem, surge na terceira posição, referida em 45 queixas, que representam 13% do total – no ano anterior, foram 18 casos. Em abril, teve repercussão internacional uma montagem feita na Universidade de Lisboa que “oferecia” pedras para atirar em “zucas”.

Só que até nesse ponto o fluxo migratório traz contradições bem brasileiras. É o caso da professora de circo Glaucia Manzzaneira, de 36 anos, que trocou São Paulo pelo Porto há sete meses. “A partir de 2016 comecei a sentir uma mudança no Brasil, uma liberação do discurso de ódio contra a comunidade LGBT.” Ela e a mulher passaram a ser alvo de xingamentos, brincadeiras e ameaças nas ruas. “Aqui (em Portugal) pode até haver algum preconceito, noto alguns olhares, mas ninguém ousa nos abordar nas ruas”, diz ela, que também foi vítima da crise econômica e teve de fechar a escola de circo que tinha. “Portugal foi um lugar que nos pareceu seguro e fácil para emigrar.”

Correções
16/07/2019 | 15h57

O texto acima foi atualizado às 15h57 desta terça-feira, 16, para corrigir o nome da empresa da qual a entrevistada Gilda Pereira é sócia. Chama-se Ei! Assessoria Migratória.

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Imigração a Portugal é puxada por setores do turismo, tecnologia e educação

Abertura do sistema universitário, investimento na tecnologia de informação e crescimento do turismo atraíram brasileiros

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

14 de julho de 2019 | 03h00

LISBOA – Nos últimos quatro anos a chegada dos brasileiros se acentuou por causa do aquecimento de dois setores da economia portuguesa: turismo e tecnologia. E pela abertura cada vez maior do sistema universitário.

“São setores (turismo e tecnologia) que crescem muito. Na área de TI especialmente, há empresas globais se mudando para o país, e o evento internacional Web Summit, mas não existe mão de obra qualificada suficiente”, diz a advogada Gilda Pereira, sócia da Ei assessoria imigratória. Dessa forma, sobram vagas. “Os brasileiros têm a oportunidade de emigrar com boas possibilidades de emprego, para um país que fala o mesmo idioma.”

A empreendedora brasileira Vanessa Caldas Alexandre, de 38 anos, chegou a ter uma startup nos Estados Unidos, e relata que estudou a possibilidade de mudança para sete países e, entre eles, Portugal era o que estava mais atrasado nos negócios de e-commerce. “Muita gente criticou a escolha. Várias empresas de tecnologia estão vindo para cá, o governo incentiva o empreendedorismo. Neste momento Portugal está preparado para promover a inovação tecnológica. E o Brasil tem a aprender: algumas empresas daqui vendem em até 20 ou 30 países; e é preciso conquistar cada cultura.”

Na área de tecnologia, de acordo com o relatório The State of European Tech, Portugal foi o segundo país com maior crescimento em postos de trabalho entre 2017 e 2018 no Velho Continente, atrás somente da França. O estudo mostra ainda que 27% das vagas para a área tecnológica continuavam abertas ao fim de 60 dias, por causa de uma escassez de mão de obra.

No ano passado, conforme relatório World Travel & Tourism Council, o turismo cresceu 8,1% em relação a 2017, a maior taxa entre os países da União Europeia. Naquele ano, o setor empregava 1,05 milhão de trabalhadores; as projeções indicam que neste ano os empregados do turismo cheguem a 1,2 milhão.

Enem

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passou a ser utilizado como seleção pelas instituições portuguesas em 2014. No total, 1,2 mil brasileiros já foram aprovados para estudar no país europeu até o ano passado – com 35 universidades adotando o exame.

Isso sem falar na exigência menor: em Direito, por exemplo, um dos cursos mais concorridos no Brasil, a nota de corte mínima do Enem no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma do Ministério da Educação que reúne vagas no ensino superior público, foi de 676 pontos em 2017, na Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Para estudar nas universidades de Lisboa, do Porto ou de Algarve, a nota exigida é de 600. Resultado: do ano letivo 2017/18 para 2018/19, a alta na chegada de “zucas” é de 32%, segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência.

“No Brasil, comecei Engenharia Ambiental, mas não me identifiquei. Estava pensando em mudar para o curso de Ciências do Mar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), quando uma amiga comentou que eu poderia usar a nota do Enem para fazer Biologia Marinha na Universidade do Algarve”, conta José Renato Batista, de 24 anos, que há 1 ano e 8 meses trocou Santos pelo Faro, no sul português.

“Fiquei sabendo que a instituição é referência na Europa nessa área. Mandei minha nota, os outros documentos que pediam, e esperei”, afirma Batista. “Foi um processo bem simples – e eles me aceitaram.” 

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‘Perdi emprego e casa. Mas não me preocupo’: os depoimentos de brasileiros em Portugal

Histórias de ‘zucas’que fizeram a rota contrária à do Descobrimento vão de milionários a ilegais que tentam a sorte

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

14 de julho de 2019 | 03h00
Atualizado 14 de julho de 2019 | 23h58

‘Vim com tudo certo, mas tive um acidente e perdi emprego e casa’

Jonhy Jonhatan, 22 anos, “faz tudo”

8 meses em Portugal

De Presidente Castelo Branco (PR) para Amadora

No Brasil eu estava sem emprego, já fiz de tudo um pouco. Minha esposa tinha família em Portugal, e eles arrumaram tudo para nós dois. Entramos no país como turistas, mas eu já tinha acertado de trabalhar de mecânico na oficina onde o tio dela era gerente. O apartamento que a gente morava era dele. Só depois de um mês aqui e eu sofri um acidente de trânsito a caminho do trabalho: quebrei clavícula e bacia, meu pulmão foi afetado. Fui bem atendido no hospital, recebi alta para ir para casa. Os médicos me deram cinco meses de licença, mas a família dela não gostou. Disseram que eu era folgado, que eu já estava bom. Mas eram os médicos que diziam que eu não podia voltar ainda. 

Nós dois passamos a brigar muito e acabamos nos separando. Com isso eu perdi o emprego e a casa. Só consegui ter onde ficar com ajuda do Jonas, que conheci em Lisboa, e alugou um quarto para mim. De brincadeira, o chamo de "pai". Agora trabalho com ele todos os dias, ajudando a fazer esculturas de areia. Logo que cheguei, como tinha contrato de trabalho, agendei a entrevista para me legalizar. Como fui demitido, vou ter que entrar com outro pedido, de trabalhador autônomo. Mas não me preocupo com isso agora. O Jonas está aqui há 3 anos, não tem documento nenhum, e nunca teve problemas. Apesar de tudo, não penso em voltar para o Brasil.  

 

Violência

‘Minha filha não tem medo de ir sozinha para a escola’

Nelson Pires da Costa, 43 anos, futuro motorista de Uber

1 ano em Portugal

Do Rio de Janeiro (RJ) para Cascais

Nossa família levava uma vida confortável: morávamos numa boa casa, as minhas filhas, de 14 e 10 anos, estudavam em colégio particular, tínhamos uma vida social movimentada. Minha esposa tinha um emprego estável; eu era dono de um reboque. O problema era a falta de segurança. Um dia, homens armados assaltaram uma van com crianças na porta da escola das meninas. Noutro, uma vizinha foi roubada na entrada da nossa vila. A violência estava muito perto. De medo, minha filha mais velha não andava uma quadra sozinha. 

Em 2016 começamos a pensar na mudança. Meu pai era português, então eu pude pedir a cidadania. Nós nos organizamos financeiramente, juntamos algum dinheiro. Minha ideia era ter um reboque aqui, mas tive problemas com a categoria da carta de motorista e não deu certo. Agora vou começar a dirigir para o Uber. Minha esposa e minha mãe, que também veio conosco, estão fazendo doces e salgados para vender. 

Vivemos de maneira simples, compramos o que é realmente necessário. Como não temos mais empregada, todo mundo precisa fazer suas tarefas para manter a casa em ordem. Hoje acho que é assim que deveria ter vivido sempre. A convivência familiar melhorou. 

Sentimos saudades das pessoas que ficaram, mas esse é o único ponto negativo. Já temos amigos, as meninas se deram bem na escola, se enturmaram e conseguiram boas notas. A melhor parte é a sensação de liberdade. Minha filha mais velha agora vai sozinha para a escola. 

 

Empreendedorismo

‘Percebi que o país vivia um momento importante para o e-commerce’

Vanessa Caldas Alexandre, 38 anos, empreendedora

1 ano e meio em Portugal 

De São Paulo (SP) para Oeiras

Sempre empreendi no Brasil e cheguei a ter uma start-up nos Estados Unidos. Quando voltei ao País, inspirados no ecossistema de São Francisco, meu marido e eu montamos um negócio que ajuda empresas do varejo e da indústria a acelerar as operações de e-commerce. Fiquei três anos em São Paulo, mas com vontade de ter outra experiência internacional. 

Estudei a possibilidade de mudança para sete países e, entre eles, Portugal era o que estava mais atrasado nos negócios de e-commerce. Muita gente criticou a escolha, mas viemos por entender teríamos mais a contribuir, que aqui agregaríamos valor. 

Neste momento Portugal está preparado para promover a inovação tecnológica. Várias empresas de tecnologia estão vindo para cá, o governo incentiva o empreendedorismo. E o Brasil tem a aprender com Portugal no quesito internacionalização. As empresas portuguesas precisam trabalhar na Europa, não só no país. Algumas vendem em 20, 30 países. É um desafio conquistar cada país, cada cultura. 

Escolhi Portugal sem nunca ter pisado no país. Nem sabia que havia praias tão bonitas. Como temos uma filha com seis anos, falar o mesmo idioma foi um bônus, que facilitou a adaptação dela. Viemos para desbravar um mercado, e até agora tem dado tudo certo. 

 

Estudo

‘Entrei na Universidade do Algarve usando a nota do Enem’

José Renato Fonseca Batista, 24 anos, estudante

1 ano e 8 meses em Portugal

De Santos (SP) para Faro

No Brasil, comecei engenharia ambiental, mas não me identifiquei. Estava pensando em mudar para o curso de Ciências do Mar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), quando uma amiga comentou que eu poderia usar a nota do Enem para fazer Biologia Marinha na Universidade do Algarve. Pesquisei sobre o assunto, fiquei sabendo que a instituição é referência na Europa nessa área. Mandei minha nota, os outros documentos que pediam, e esperei. Foi um processo bem simples - e eles me aceitaram. 

A parte que deu um nervoso foi o visto. Dei entrada no consulado de Portugal em São Paulo logo, mas eram tantos pedidos que, o que era para levar 30 dias, levou 90. Perdi o começo do semestre, mas no final deu tudo certo. 

Na faculdade há bastante estrangeiros - a maioria do Brasil. Já aconteceu de um colega fazer piada, dizer que brasileiro é praga, mas de maneira geral sou bem tratado, consegui me integrar com os portugueses. Alguns professores duvidam da nossa capacidade. É verdade que o ensino médio daqui é diferente, eles já têm geologia, cálculo e uma química mais avançada. Mas quem sai para estudar em outro país é alguém que está sempre tentando se superar. Toda vez que um professor disse que os brasileiros teriam dificuldade por havia "lacunas a serem preenchidas", vimos que isso não passou de suposição falsa. 

 

Burocracia

‘Prestei serviço até para o governo sem ter autorização de residência’

Aline Camargo, 34 anos, publicitária

4 anos e meio em Portugal

De Cuiabá (MT) para Lisboa

No Brasil, meu marido e eu tínhamos uma produtora de vídeo, trabalhamos em campanha eleitoral em 2014 e, quando acabou esse trabalho, deixamos o País. Ele também é músico e decidimos vir para Portugal para fazer um documentário sobre o cavaquinho. Entramos como turistas, imaginávamos ficar alguns meses e, depois, seguir para outros lugares. Mas logo de cara nos apaixonamos pelo país.

Por seis meses viajamos por Portugal, visitamos aldeias pequenas, encontramos muitas pessoas dispostas a ajudar. O dinheiro foi acabando, mas então já conhecíamos muita gente, começamos a ter trabalhos remunerados na nossa área. Nessa época, por sermos autônomos, era preciso de um pedido especial para conseguir a residência, num processo que chegava a levar dois anos esperando a marcação da entrevista. Fomos deixando para depois.

Mesmo sem a residência tivemos uma vida normal, viajamos para a Itália, por exemplo, prestamos serviço para mais de uma câmara municipal. Eu engravidei e tive minha filha aqui, pelo sistema público de saúde. Pensando nela, decidimos que era aqui que queríamos ficar e fomos regularizar nossa situação. Consegui minha residência só este ano.

 

LGBT

‘Posso andar na rua com minha esposa sem ser xingada ou ameaçada’

Glaucia Manzzaneira, 36 anos, professora de circo

7 meses em Portugal

De São Paulo para Porto

A partir de 2016 comecei a sentir uma mudança no Brasil, uma liberação do discurso de ódio contra a comunidade LGBT. Minha esposa e eu morávamos em São Paulo, perto da avenida Paulista, uma região com muitos homossexuais, onde antes costumávamos nos sentir seguras. Mas passamos a receber abordagens na rua: ser xingadas, zoadas, ameaçadas. Um dia, quando atravessávamos uma rua à pé, um carro acelerou para cima de nós, com o motorista gritando pela janela.

Na parte profissional, eu tive uma escola de circo durante cinco anos. Mas com a crise econômica, as coisas não andavam bem. Segurei até onde foi possível, mas chegou em um ponto em que precisaria de um grande investimento para continuar. No contexto das eleições, sem expectativa de crescimento no campo das artes, preferi fechar a escola. 

Portugal foi um lugar que nos pareceu seguro e fácil para emigrar. TIvemos ajuda de um coletivo, o Queer Tropical. Minha esposa veio para Portugal fazer um mestrado e eu vim junto, como família. Consegui um emprego em um restaurante e já comecei a pegar alguns trabalhos de recreação infantil com circo, eventos. 

Aqui pode até haver algum preconceito, noto alguns olhares, mas ninguém ousa nos abordar nas ruas. 

 

Artista

‘Os portugueses se interessam pela cultura brasileira’

Thaiane Anjos, 30 anos, atriz

4 anos em Portugal

Do Rio de Janeiro (RJ) para Lisboa

Há 4 anos eu quis fazer uma viagem pelo mundo, sem roteiro muito certo. Comecei por Portugal, fiquei três meses, e não quis mais saber de outro lugar. Voltei para o Rio de Janeiro, vendi tudo e vim tentar começar a carreira aqui. 

Eu tinha conhecido uma escritora portuguesa e, quando ela fechou contrato para uma novela, me convidou para participar. Inicialmente seria uma participação pequena na novela Ouro Verde, de 20 episódios. Acabei fazendo mais de 200. Já fiz duas novelas, estou atuando com uma companhia de teatro na Ilha da Madeira, e já tenho acertado um curta metragem para este ano - será meu primeiro trabalho do tipo. 

Aqui o esquema de trabalho é muito diferente. As gravações para TV que fiz no Brasil (atuou em "Flor do Caribe", "Além do Horizonte" e "Malhação" da rede Globo) o ritmo é mais acelerado. Aqui, por ser uma produção menor, tenho muito mais abertura. Eu me sinto mais próxima para poder opinar em todas as áreas, há muito acesso à toda equipe. 

Em Portugal, minhas possibilidades de trabalho são limitadas porque o português que eu falo é o do Brasil. As duas personagens de novela que fiz eram brasileiras. Mas me sinto muito bem trabalhando com os portugueses, nunca tive nenhum preconceito, nenhuma regalia por vir de outro país. Eu gosto da cultura local e vejo que eles se interessam pelo que os brasileiros fazem. Há um troca muito grande, e tem sido cada vez maior. 

 

Detido

‘Fui barrado no aeroporto de Lisboa, mas um mês depois entrei na Europa por Paris’

Yelre Felipe, 23 anos, 

De Belém (PA) para Sines

2 meses em Portugal 

 

Morava em Anápolis, Goiás, com meu companheiro, mas tinha o sonho de viver na Europa. Uma tia, que estava em Portugal há dois anos e meio, disse que o país era ótimo - e nós decidimos nos aventurar. Meu companheiro foi primeiro, em janeiro. Ele entrou como turista e deu tudo certo, já chegou com trabalho. A gente juntou dinheiro e eu fui em abril. Mas me barraram na imigração. Só depois que voltei para o Brasil que percebi o que aconteceu: a agência de viagens reservou para mim um hotel em Ericeira, mas eu disse para o agente que estava indo para Lisboa. O primeiro agente me mandou para uma sala, esperar por uma outra entrevista. Foram quase 12 horas de espera. Depois, fizeram um monte de perguntas, mas eu já sabia que não entraria. Fiquei uma noite no alojamento, que é na verdade uma prisão, e na manhã seguinte me mandaram de volta para o Brasil. Não acho que terem me barrado tenha sido errado, mas achei o tratamento muito desrespeitoso, eles humilham os brasileiros lá sem necessidade, debocham da gente justo em um momento em que as pessoas estão muito fragilizadas. 

Como meu companheiro estava em Portugal, decidi tentar de novo. No Brasil, fiz um novo passaporte - porque eles marcaram o meu - e comprei passagem para Paris. Na imigração lá, entrei sem problemas. Fiquei quatro dias lá passeando, depois fui de ônibus para Portugal. 

Foi fácil conseguir trabalho, mas estou com um contrato temporário até o final do verão, porque aqui é um lugar turístico. O plano agora é ir para Lisboa, para ter algo mais certo". 

 

Golpe

‘Fui enganada e agora tenho só 200 euros para recomeçar a vida’

34 anos, auxiliar administrativa

De Vitória (ES) para Santarém

Chegamos em Portugal no final do mês passado eu, esposo e dois filhos: uma menina de 4 anos e um menino de 13 anos. Estávamos entrando como turistas, mas nossa intenção real era ficar para morar aqui. Comprei passagens de ida e volta e a reserva do hotel com uma agência do Porto. Foi indicação de um pastor; ele disse que esse lugar vendia passagens mais baratas, que muitas pessoas da igreja dele usaram a tal agência. 

Quando chegamos na imigração, o policial nos informou que as passagens de volta haviam sido canceladas e que não havia reserva em meu nome. Fomos interrogados por três horas, depois levados para um local onde ficaríamos "hospedados" até sermos colocados num voo de volta para o Brasil. Tiraram todos os nossos pertences; entramos apenas com a roupa do corpo. Só poderíamos fazer um telefonema de 5 minutos para alguém. Ficamos presos por 6 dias. O local tem dois quartos grandes; em um dormem os homens, no outro as mulheres. Minha família só podia se reunir na hora das refeições. Foram os piores dias que passamos.

Lá dentro conseguimos o contato de um advogado, que nos liberou no dia 1o. Trazíamos 3 mil euros; o advogado cobrou 2 mil euros para nos tirar de lá. 

Como se não bastasse, nossas três malas sumiram. Ninguém sabe informar o que houve com elas, dizem que não há registro. Estamos com apenas com duas mudas de roupa cada um. Compramos comida, arranjamos uma casa e o que nos resta são 200 euros. Agora estamos a procura de trabalho. 

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‘Nos restam só 200 euros e estamos à procura de trabalho’, diz brasileira em Portugal

Falta de emprego e custo de vida estão entre os principais problemas dos imigrantes no país

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

14 de julho de 2019 | 03h00

LISBOA – O número de brasileiros barrados em Portugal está em alta, segundo o Serviço de Fronteiras (SEF) –, mas precisa ser relativizado. O número de detidos saltou de 300 em 2013 para 2.865 no ano passado, um acréscimo de 855%. Mas foi recusada a entrada só de 0,2% do total. Os principais fundamentos foram: ausência de motivos que justificassem a entrada e ausência de visto adequado ou documento caducado.

“Meu companheiro entrou como turista e deu tudo certo, já chegou com trabalho. A gente juntou dinheiro e eu fui em abril. Mas me barraram na imigração”, conta Yelre Felipe, de 23 anos, que morava em Anápolis (GO). “Só depois que voltei para o Brasil que percebi o que aconteceu: a agência de viagens reservou um hotel em Ericeira, mas eu disse para o agente que estava indo para Lisboa.” Dois meses depois, ele entrou em Portugal, via Paris.

Mas há ainda os que conseguem entrar no país, mas não conseguem ficar. Conforme dados oficiais, o número de imigrantes que voltaram ao Brasil com ajuda do Programa de Retorno Voluntário, da agência de migração da Organização das Nações Unidas (ONU), também cresceu. O número passou de 52 em 2016 para 232 em 2017 e chegou a 353 no ano passado. A falta de emprego e o custo de vida estão entre os principais problemas.

Além disso, como no Brasil, não se está livre de golpes nessa área. “Chegamos em Portugal no fim do mês passado, eu, esposo e dois filhos: uma menina de 4 anos e um menino de 13 anos. Comprei passagens de ida e volta e a reserva do hotel com uma agência do Porto, indicada por um pastor”, conta uma auxiliar administrativa de 34 anos, de Vitória, que pediu para não ser identificada.

“Quando chegamos à imigração, o policial nos informou que as passagens de volta haviam sido canceladas e não havia reserva em meu nome.” Com o gasto de R$ 10 mil com um advogado, conseguiram sair, mas não sabem o que fazer agora. “Compramos comida, arranjamos uma casa e o que nos resta são €200. Agora estamos à procura de trabalho.”

Clandestino

E se nos números oficiais a comunidade brasileira já é grande, na vida real ela é bem maior. “As estatísticas do SEF não incluem quem tem dupla nacionalidade, ou quem está em situação irregular”, diz Cyntia.

Mas há os que nem se preocupam com isso, como Jonhy Jonhatan, de 22 anos, um “faz-tudo” que saiu do Paraná para Amadora, na área metropolitana de Lisboa, há oito meses, e hoje trabalha com um amigo fazendo esculturas de areia na praia, sem pensar em se regularizar. “Não me preocupo com isso agora. Apesar de tudo, não penso em voltar para o Brasil.”

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Como morar em Portugal: Dicas para obter visto, cidadania ou autorização de residência

Brasileiros obtêm permissão para morar no país principalmente através de três modalidades

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 03h00

SÃO PAULO – Brasileiros interessados em fixar residência em Portugal podem obter permissão oficial, principalmente, por meio de três modalidades: dupla cidadania, visto ou o regime especial de autorização para residência. Cada uma delas se encaixa em situações bem diferentes. 

Abaixo, elaboramos um guia prático para cada uma das modalidades.

Visto

Há três tipos de visto que permitem residir em Portugal, em diferentes situações: residência, estudo e trabalho. No caso dos vistos para trabalhar ou estudar, é necessário já ter autorização prévia da instituição (faculdade ou escola, para o visto de estudo, ou carta do empregador).

Onde pedir?

Todos os tipos de visto podem ser solicitados nos consulados de Portugal em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador ou na seção consular na Embaixada de Brasília. É necessário agendamento prévio. 

Quais requisitos são necessários para o visto de residência?

Os documentos exigidos para obter o visto de residência variam de acordo com o consulado. É necessário consultar a lista de documentos no site oficial da agência autorizada pelo governo português para a emissão dos vistos. 

Em todos eles, é necessário comprovar fonte de renda para o período de estadia e justificar a motivação. Se o interessado pretende viver no país com seu próprio dinheiro, os consulados pedem extrato bancário de uma conta válida em Portugal com um mínimo de 7.200 euros.

A maior parte dos consulados também pede uma declaração assinada pelo requerente que explique os motivos do pedido de visto, indicando o local em que ficará hospedado e período que pretende permanecer em Portugal. Também é preciso indicar o local de hospedagem com uma carta-convite de um cidadão português, que se responsabilize pelo alojamento, ou comprovante de compra ou arrendamento de imóvel. 

Além disso, os consulados pedem passaporte, fotos, seguro de saúde reconhecido internacionalmente, carteira de identidade, atestado de antecedentes criminais, formulário com o pedido de vista preenchido, e uma autorização ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) para que possa consultar seus antecedentes criminais em Portugal.

Quanto custa?

A taxa para o visto de residência é de R$ 400. 

Qual o prazo?

O visto de residência leva, em mésdia, dois meses para ficar pronto. 

Reagrupamento familiar

Familiares de quem obteve o visto de residência podem pedir uma autorização para morar no país, na categoria Reagrupamento Familiar. Essa regra vale, principalmente, para dependentes e cônjuges. É necessário apresentar documentos que comprovem residência, fonte de renda, e o vínculo familiar, entre outros. Para quem já está em Portugal, a autorização fica pronta em cerca de três dias.

Nacionalidade 

Filhos, netos e cônjuges de cidadãos portugueses têm direito a ser reconhecidos como cidadãos do país. No caso dos cônjuges, a regra vale tanto para pessoas casadas quanto para quem tem união estável reconhecida. 

O consulado de Portugal aconselha os interessados a checar se há qualquer divergência entre os documentos. Se houver qualquer diferença na grafia do nome registrada na certidão de nascimento e na carteira de identidade, por exemplo, os documentos não serão aceitos. 

O neto de português interessado em conseguir a cidadania portuguesa deve reunir os seguintes documentos: certidão de nascimento original, certidão de nascimento do pai ou mãe descendentes de cidadão português, diploma que comprove nível de ensino, atestado de antecedentes criminais brasileiro (e de todos os países em que morou após os 16 anos), carteira de identidade (RG). Se este não for recente, juntar também cópia autenticada e apostilhada do passaporte (somente as página das quais conste assinatura, foto e identificação)

As certidões e identidades devem ter sido emitidas há menos de um ano e registradas de acordo com os critérios da Convenção de Haia para serem reconhecidos internacionalmente. 

Quanto custa?

O preço do procedimento varia de acordo com o grau de parentesco que será reconhecido. 

O requerimento de atribuição de nacionalidade para filhos de cidadãos portugueses custa R$ 1.038, e o valor total do trâmite pode chegar a mais de R$ 2 mil. Para netos de portugueses nascidos no Brasil, a taxa é de 175 euros.

O preço para apostilar cada documento nos requisitos da Convenção de Haia é de cerca de R$ 110.

Quanto tempo leva?

O processo leva oito meses até a conclusão, contados a partir da entrega de todos os documentos no consulado. 

Autorização de Residência 

Estrangeiros podem obter autorização para residência temporária, com dispensa de visto, se investirem no país. Nesse caso, é necessário exercer atividade de investimento ou ter empresa reconhecidos em Portugal.

O interessado assume o compromisso de fazer investimentos mínimos no período de cinco anos, que vão de 250 mil a 1 milhão de euros, de acordo com a área de atuação, ou a criação de 10 postos de trabalho.

A taxa de análise da requisição, feita em qualquer consulado, é de 513 euros. O prazo da resposta é de 72 horas.

Benefícios

Como contrapartida do investimento, beneficiários da autorização podem entrar em Portugal com dispensa de visto de residência, circular pelo espaço Schengen (zona de livre circulação da União Europeia) sem necessidade de visto, tornar-se elígivel para pedir residência permanentemante e a nacionalidade portuguesa e, ainda, ter residência em outro país – desde que permaneça em Portugal por um período não inferior a 7 dias no primeiro ano e não inferior a 14 dias no anos subsequentes

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