Dos R$ 8 milhões de campanha, Gleisi gastou só 0,7% com transporte aéreo

Dona da campanha eleitoral mais cara entre os candidatos ao Senado no Paraná, a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann (PT), envolvida em polêmica recente sobre o uso de jatinhos particulares, declarou em sua prestação de contas despesas de apenas R$ 56,9 mil com empresas de táxi aéreo, o equivalente a 0,7% dos quase R$ 8 milhões que informou ter gasto na disputa.

Eduardo Bresciani e Mariangela Gallucci, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2011 | 00h00

Na segunda-feira, em resposta à reportagem publicada na revista Época sobre a utilização de um avião particular da construtora Sanches Tripoloni ao lado do marido Paulo Bernardo - hoje ministro das Comunicações e na ocasião ministro do Planejamento -, a ministra divulgou nota dizendo ter feito seus voos durante a campanha apenas em avião fretado e com contrato de aluguel. Procurada ontem pelo Estado com questionamentos sobre a prestação de contas da campanha, Gleisi foi econômica nas explicações.

A ministra confirmou ao Estado gastos de R$ 56,9 mil com aviões que, segundo ela, se referem a 26 horas de voo pagas às empresas Hércules e Helisul. Ela afirma ter feito outros deslocamentos aéreos "em conjunto com outros candidatos", mas não especificou os seus nomes.

Disse ainda ter viajado muito por terra e confirmou que embarcou em avião algumas vezes, sem mencionar quantas, com o candidato do PDT ao governo, Osmar Dias. Indagada se realizou voos para sua campanha com outras empresas e se isso não estaria contabilizado, a ministra negou. Ela também garante não ter usado avião emprestado por empresas privadas.

Dias declarou R$ 78 mil em gastos com deslocamento aéreo, os quais foram concentrados no comitê único do PDT. A Helisul, que aparece na campanha de Gleisi, recebeu R$ 50 mil do comitê do PDT no dia 17 de setembro de 2010. A outra empresa é a FL Almeida e Cia. Ltda., que recebeu R$ 15 mil no dia 14 e R$ 13 mil no dia 27 do mesmo mês.

O ministro Paulo Bernardo afirma ter voado durante a campanha da mulher em aviões particulares e explicou que as aeronaves eram fretadas. As empresas, disse, recebiam pagamento por ceder o transporte. Também questionado pelo Estado se sabia de gastos não contabilizados, o ministro reagiu dizendo não ter sido responsável pelas contas de campanha de Gleisi.

Contraste. Os gastos de Gleisi com táxi aéreo são sete vezes menores do que o de seu companheiro de chapa no Paraná, o senador Roberto Requião (PMDB). O peemedebista gastou R$ 416 mil com aviões. O aliado, no entanto, investiu em toda sua campanha R$ 3 milhões, menos da metade do que Gleisi.

Aliados e opositores de ambos no Paraná afirmam que a campanha da petista era mais vistosa e incluía mais cidades em seus roteiros a cada dia, o que aumentaria a necessidade de rápidos deslocamentos em busca de votos.

Fontes do PMDB do Paraná ouvidas pela reportagem garantem que as viagens conjuntas de Requião e Gleisi eram raras. "Eles só iam juntos para eventos com Lula e Dilma. Fora isso, cada um tocava a sua campanha de forma independente e com caixa separado", diz um peemedebista que acompanhou o senador de perto. Requião, por meio de sua assessoria, disse que não se manifestaria sobre o tema.

As suspeitas sobre as relações do casal de ministros com a empreiteira Sanches Tripoloni têm como pano de fundo a crise que levou a demissões em série no Ministério dos Transportes. A empreiteira é a responsável pela obra do Contorno Norte de Maringá, no Paraná. A obra foi incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) por pressão de Paulo Bernardo.

O Tribunal de Contas da União vê superfaturamento e já carimbou a empresa como inidônea por outra obra em Foz do Iguaçu. Bernardo confirma ter defendido a inclusão da obra de Maringá no PAC, mas nega ter beneficiado a construtora.

Reação. A construtora Sanches Tripoloni negou ontem em nota, após questionada pelo Estado, que tenha transportado Paulo Bernardo durante a campanha do ano passado na aeronave King Air, prefixo PR-AJT, ou qualquer outra. "A empresa também informa que não cedeu aeronaves para campanhas eleitorais."

Em relação às doações, a construtora disse que foram feitas "de acordo com as normas vigentes e a legislação eleitoral brasileira, e devidamente registradas".

Sobre os aditivos para a obra do Contorno Norte de Maringá, a Sanches Tripoloni acentuou que a expansão do município na última década "demandou alterações no projeto pelo contratante". A empresa diz ainda que sempre atendeu "às normas de fiscalização e execução" impostas pelo Tribunal de Contas da União. / COLABOROU EVANDRO FADEL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.