Dupla recolhe lixo para fazer esculturas nas ruas

Desde o início do ano, os artistas plásticos Rodrigo e Pado percorrem bairros paulistanos à procura de tranqueiras e, com elas, criam obras

Tiago Queiroz e Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2009 | 00h00

É possível afirmar que fazer arte do lixo é a maneira mais intensa de aderir ao conceito da reciclagem. "Nosso trabalho é visceral", concordam, quase em uníssono, os artistas plásticos paulistanos Rodrigo Machado, de 36 anos, e Pado, como é conhecido Cleber Padovani, de 27. Desde o início do ano, eles vêm espalhando pela cidade curiosas esculturas construídas com tranqueiras encontradas pelas ruas. "É o nosso tapão na orelha da sociedade", explica Rodrigo, ensaiando um discurso ecologicamente correto.O processo de criação da dupla é, no mínimo, curioso. Eles não combinam nada antecipadamente. Tudo acontece meio que por acaso. "Nos encontramos no domingo, geralmente pela manhã, e damos um rolê de carro por algum bairro, até acharmos um local interessante", conta Rodrigo. "Pelo caminho, a gente enche o Uno de lixo." Apanhado nas ruas, obviamente. Na última criação, domingo retrasado, quando fizeram uma árvore batizada de Pé de Lixo em plena Avenida Paulo VI - prolongamento da Sumaré, na zona oeste da capital -, levaram cerca de três horas apenas para recolher o material pelas redondezas. Tinha de tudo: ventilador, monitor de computador, aspirador de pó, cadeira, ferro de passar, sapato... "Gastamos mais umas seis horas montando a escultura", dizem.Foi a sétima vez que essa rotina se repetiu. Rodrigo e Pado fizeram Sala de Escritório, O Portal, Totem, Esfinge, O Carro, A Girafa e Pé de Lixo, em bairros como Pinheiros, Pompeia, Lapa e Vila Mariana. Segundo estimativa dos artistas, 80% da matéria-prima utilizada vem das ruas. O resto, também lixo, é trazido por eles. "Até os pregos são reaproveitados", garante Rodrigo. ORIGEMA dupla se conheceu por acaso. Formado em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Rodrigo sempre trabalhou com cenografia. Há quatro anos abriu uma empresa, em Perdizes, que faz esse tipo de trabalho para eventos e peças teatrais. Pado foi artesão, desses que vendem brincos, colares e esculturas nas ruas - já usava o lixo como matéria-prima - e fez decorações de vitrines para comerciantes. "Há uns cinco anos, fiz uma instalação na Mooca", lembra. Desde o ano passado, trabalha na empresa de Rodrigo. Então ambos começaram a planejar uma maneira de usar sua criatividade para interferir na cidade. Quando começaram com as esculturas de lixo, criaram um blog (http://urbantrashart.blogspot.com) para guardar suas criações. As obras são fotografadas e as imagens, disponibilizadas na internet. Não gostam de filosofar muito sobre o que produzem. "A gente pode usar muitos conceitos, mas no fundo mesmo só fazemos isso por curtir usar a criatividade e materiais alternativos. Mas tem, sim, a parada do reaproveitamento, da preservação do meio ambiente...", diz Rodrigo. "No fundo, dar umas marteladas é nossa terapia."E onde querem chegar com essa peculiar arte? "A gente pensa em trabalhar a sério com isso, de repente organizando exposições na rua ou até, usando sempre o lixo como matéria-prima, em museus", planeja Rodrigo. "Também seria bom viabilizar oficinas para ensinarmos a molecada a não jogar fora algo que dê para transformar." Enquanto nada disso acontece, os dois continuam usando seus domingos para interferir na paisagem urbana de São Paulo. Mesmo que, no dia seguinte, o caminhão de lixo recolha tudo e leve embora.3

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