Dúvidas sobre acidente da TAM seguem em meio a resgate

O trabalho de resgate dos corpos do acidente do Airbus A320 da TAM, que fazia o vôo 3054, prosseguia em São Paulo nesta quarta-feira, enquanto autoridades divergiam sobre as possíveis causas do pior desastre aéreo da história do país, que já tem confirmados 183 mortos. Ao tentar aterrissar na pista molhada do aeroporto de Congonhas na noite de terça, o avião, que fazia a rota Porto Alegre-São Paulo, passou sobre uma avenida movimentada e explodiu ao se chocar contra prédios e um posto de gasolina, o que tornou bastante difícil os trabalhos de resgate. "Não se sabe o que é de um prédio, o que é do outro, o que é do posto (de gasolina), o que é do avião, o que é passageiro morto, o que é passante que foi atingido. Tornou-se tudo uma coisa só", disse à Reuters o médico Douglas Ferrari, presidente do Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, além dos 180 corpos já retirados do local, três vítimas que foram levadas a hospitais acabaram morrendo. Só no avião havia 186 pessoas a bordo, 162 passageiros, seis tripulantes e 18 funcionários da TAM. Um dos prédios atingidos no acidente foi o da TAM Express, onde havia funcionários trabalhando. Segundo a assessoria da TAM, 389 funcionários trabalham no local em vários turnos por 24 horas. À tarde, o presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, informou que cinco empregados continuavam desaparecidos, três haviam morrido e 11 estavam hospitalizados. DÚVIDAS Em entrevista à imprensa, Bologna disse que o avião envolvido na tragédia estava em perfeitas condições de uso, e que os pilotos eram experientes. Ele também procurou minimizar eventuais problemas na pista de Congonhas como causa do acidente. Para Bologna, a ausência de ranhuras na pista molhada não interfere necessariamente na sua aderência. Mais tarde, autoridades da Infraero e do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divergiam publicamente sobre a hipótese de derrapagem do avião por problemas na pista principal de Congonhas. "Com certeza, não foi derrapagem de pista", disse a jornalistas o superintendente de engenharia da Infraero, Armando Schneider Filho. "O problema do escoamento d''água foi resolvido com a reforma recente que a Infraero acabou de entregar." Mas o brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe do Cenipa, afirmou, na mesma entrevista, que ainda "não dá para determinar se teve derrapagem". Para ele, no momento não é possível descartar qualquer possibilidade, falha mecânica ou decisão errada do piloto. Descrevendo imagens gravadas na pista durante o pouso do vôo 3450, Kersul relatou que um trecho da pista que tem que ser feito em 11 segundos em desaceleração foi cumprido pelo Airbus em menos tempo, o que indica velocidade ainda alta. Diante das primeiras notícias de que o estado da pista poderia ter contribuído para o acidente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que a Polícia Federal realize uma investigação. As duas caixas-pretas da aeronave foram encontradas e seriam enviadas aos EUA, para análise pela entidade responsável pela investigação de acidentes aeronáuticos naquele país. O prazo para a conclusão da análise do material é de 30 dias, prorrogáveis por igual período. Sem ter vindo a público em nenhum momento após o acidente, o ministro da Defesa, Waldir Pires, se limitou a divulgar uma nota pedindo "cautela" nas especulações sobre as causas do acidente. Mas enquanto o governo realizava movimentos tímidos e evitava o contato das maiores autoridades com a mídia, a oposição elevava o tom das cobranças e pedia a demissão de Pires, entre outros. O líder do DEM, ex-PFL, Onyx Lorenzoni (RS), na Câmara, classificou como "imprescindíveis" as renúncias de Pires e dos presidentes da Infraero, tenente-brigadeiro José Carlos Pereira, e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi. Já o governador paulista, José Serra (PSDB), afirmou que cobrará do governo federal uma redução do atual tráfego de passageiros no aeroporto de Congonhas. O Ministério Público Federal foi além, ao pedir à Justiça o fechamento de Congonhas até que as "condições de segurança" das duas pistas sejam confirmadas pela realização de uma auditoria de um órgão não vinculado ao governo. O acidente de terça-feira superou a tragédia de setembro do ano passado com um Boeing da Gol em Mato Grosso, no qual todas as 154 pessoas a bordo morreram, que deflagrou a crise do setor no país. (Com reportagem adicional de Carmen Munari, em São Paulo, e Natuza Nery e Ray Colitt, em Brasília)

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