Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'É a mesma lógica do Estado Islâmico', diz secretário do AM sobre facções

Sérgio Fontes avalia que demonstração de força atrai detentos recém-chegados às cadeias e defende separação de presos de acordo com gravidade do delito

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2017 | 08h23

MANAUS - Para evitar que os detentos que tenham cometido crimes menos graves acabem se transformando em massa de manobra de facções, a Secretaria Estadual da Segurança Pública do Amazonas defende a agilização da separação de presos de acordo com a gravidade do delito cometido.  

"Imagine alguém entrando no sistema agora, tendo cometido um crime, e chegando lá alguém bate no ombro e pergunta, depois do que aconteceu: 'E aí, filho, você vai para que facção?' O cara vai fazer o quê? É lógico que ele vai para a facção que matou 56 pessoas e ele vai fazer tudo que for mandado. Depois dessa demonstração, é a mesma lógica do Estado Islâmico. Faço, faço com muita violência e mostro o que eu fiz", disse ao Estado o secretário da Segurança Pública, Sérgio Fontes.

Nesta quarta-feira, 4, a força-tarefa da Polícia Civil do Amazonas que investiga o massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) identificou oito lideranças da facção Família do Norte (FDN), acusada de coordenar o assassinato de 56 detentos na unidade.

Fontes informou que deve encaminhar ao Ministério da Justiça o pedido para transferência de todos eles a presídios federais; as identificações dos envolvidos não foram reveladas.

Para o secretário, tem de haver cuidado na seleção de presos que serão transferidos. "Não adianta mandar muitos, mandar um prego porque quando voltar deixa de ser prego e volta como liderança. É uma ferramenta importante, detentos morrem de medo de ir, porque lá se trata preso como preso", disse. A unidade federal para a qual serão enviadas as lideranças não é divulgada previamente.

Os investigadores se detêm em uma primeira fase na análise da gravação do circuito interno de segurança do presídio, que poderá oferecer provas de quem cometeu cada assassinato. A secretaria não descarta que ainda haja armas em posse dos presos, já que as imagens mostram diversos artefatos que não foram apreendidos; ao final da rebelião, os detentos devolveram quatro pistolas e uma espingarda calibre 12.

A perícia mostrou, no entanto, que mais armas curtas e ao menos mais uma arma longa aparecem nas gravações. Celulares apreendidos deverão ter a memória vasculhada em busca de novas imagens do massacre.

Além disso, os investigadores esperam poder colher depoimentos de presos que testemunharam o ataque, que se concentrou em um dos setores da unidade que abriga mais de 1,2 mil detentos atualmente. Dos 184 que fugiram no domingo passado, 63 haviam sido recapturados até a noite desta quarta-feira.

As autoridades acreditam que a parte da unidade de regime semiaberto vizinha ao Compaj, que abriga presos em regime fechado, tenha acabado alimentado o motim com as armas. Para apurar essa hipótese, o secretário de Segurança Pública disse que agentes públicos podem estar envolvidos nesse processo de facilitação.

"É perfeitamente viável essa possibilidade (de que agentes tenham colaborado com presos)", afirmou. 

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