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'É difícil manter estádios viáveis ao longo do tempo'

Arquiteto responsável pelo Cubo d’Água, o centro aquático dos Jogos Olímpicos de Pequim, John Bilmon admite que não é fácil planejar estruturas para grandes eventos esportivos

Marina Azaredo, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2014 | 09h13

Arquiteto responsável pelo Cubo d’Água, o centro aquático com estrutura inspirada em bolhas de sabão e uma das instalações mais comentadas durante os Jogos Olímpicos de Pequim, John Bilmon admite que não é fácil planejar estruturas para grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, que possam ser reaproveitados pela comunidade local. 

“Um estádio coberto pode ser usado para eventos musicais, comícios, eventos de marketing e de moda e assim por diante. Mesmo assim, é muito difícil gerar receita suficiente para mantê-lo viável ​​ao longo do tempo”, disse em entrevista por email ao Estado. Sobre a construção de estádios e arenas - seis novos estádios foram planejados no Brasil para a Copa do Mundo deste ano -, ele não é muito otimista. “A minha experiência diz que as instalações aquáticas são mais viáveis a longo prazo do que ginásios fechados ou grandes estádios”, compara o australiano. No entanto, ele destaca que grandes eventos esportivos são ideais para deixar as cidades com um perfil "mais internacional".

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Bilmon sobre o legado arquitetônico e urbanístico deixado por grandes eventos esportivos. Ele participa do seminário “Arquitetura e Tecnologia: BIM, Inovação e Gestão”, realizado pela AsBEA- Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura, nesta quinta-feira, 20, em São Paulo. 

Qual a importância do legado urbanístico e arquitetônico deixado por um grande evento esportivo, como a Copa e as Olimpíadas?

As instalações esportivas estão na vanguarda da arquitetura e do design internacionais. Combinando imaginação, funcionalidade e as mais recentes tecnologias, eles são os prédios públicos que definem a nossa época. Estádios bem feitos podem se tornar a concretização física da identidade cultural de uma região. Receber grandes eventos como a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos pode proporcionar a uma cidade uma oportunidade única para aumentar seu perfil internacional, se revitalizar durante a preparação para os Jogos e construir instalações permanentes, bem como um espírito de comunidade. O desenvolvimento de construções esportivas e infraestrutura em torno delas pode trazer um legado duradouro para a comunidade local e ajudar as cidades-sede a se transformarem em centros de eventos nacionais e internacionais.

Qual o potencial urbanístico das grandes obras arquitetônicas?

Eventos esportivos de escala mundial influenciam significativamente o desenvolvimento urbano em vários “escalas” em uma cidade-sede . A influência se expande para além das instalações necessárias para receber os próprios eventos e inclui uma infinidade de outras construções, infraestruturas e novos componentes do ambiente urbano. Em um contexto urbano, isso inclui a construção de novas arenas e locais para os próprios esportes, aeroportos para lidar com as multidões, estradas e outros sistemas de transporte, telecomunicações modernas e sistemas de gestão para garantir que eles funcionem de forma coordenada e eficiente e itens básicos, como eletricidade, água, gás e esgoto. Esse processo de desenvolvimento ligado ao esporte, por sua vez, estimula o desenvolvimento de muitas outras instalações não esportivas, que podem aproveitar as oportunidades e a infraestrutura urbana aprimorada. Cidades-sede atraem a atenção do mundo inteiro e, nos últimos anos, algumas cidades têm usado esses eventos como a gênese de uma grande remodelação. 

Como as cidades têm feito isso?

Um planejamento é feito para desenvolver novas ideias para a cidade com o objetivo de satisfazer as demandas de seus habitantes no futuro. Por exemplo, a possibilidade de um novo sistema de metrô para transportar as grandes multidões dentro de uma cidade pode oferecer fácil acesso a partes da cidade que até então não eram tão bem servidas de transportes públicos. O metrô, por sua vez, pode estimular o crescimento nessas áreas de forma impossível de prever antes do evento. Devido à sua escala, as decisões tomadas sobre as instalações esportivas e infraestrutura influenciam significativamente o planejamento da cidade e seu impacto sobre fatores ambientais.

O que deve ser levado em conta ao planejar grandes obras para eventos esportivos?

Uma análise das condições atuais da cidade e das suas instalações tem de ser realizada no início. Qual é o papel do governo e das comunidades esportivas é uma pergunta que deve ser feita. Questões importantes dizem respeito a como a comunidade em geral pode se beneficiar e participar do processo. As respostas a essas perguntas devem ser consideradas em relação às suas implicações de curto e de longo prazo. Por razões pragmáticas, as cidades-sede tendem a ficar com as principais arenas e instalações e os atletas costumam a ser acomodados em um local próximo para minimizar o tempo de viagem.  É preciso decidir entre construir as instalações em locais próximos ou em regiões mais afastadas. Para grandes eventos esportivos, o melhor são locais próximos, pois isso oferece algumas vantagens operacionais. Por outro lado, locais independentes podem deixar um legado mais interessante para a comunidade.

Como manter essas instalações após os eventos esportivos? Como elas podem ser aproveitadas?

O planejamento de longo prazo requer uma infraestrutura que possa ser utilizada após os eventos. As instalações precisam atender às especificações internacionais e, portanto, ter a máxima qualidade em termos esportivos, meio ambiente, qualidade de construção e acessibilidade. E tudo isso precisa ser realizado em um ambiente financeiramente viável. Espaços de uso público são um importante componente do ambiente urbano e do legado de uma Olimpíada. Grandes espaços são necessários para atender às grandes multidões. Eles são muito úteis durante os eventos, mas podem ficar vazios quando eles acabam, com uma manutenção muito cara. Em alguns casos, novos empreendimentos podem ser planejados perto das instalações esportivas.  

Algumas cidades que sediarão a Copa do Mundo sequer têm tradição no futebol, com times de pouca expressão. O que fazer para que as arenas construídas nessas cidades não virem "elefantes brancos"?

Grandes eventos esportivos internacionais geram um pico de demanda de instalações locais e infra-estrutura. O acesso a jogos e competições internacionais como espectador, gestor ou atleta é estritamente controlado e exclusivo. Após os eventos, tudo volta ao estado normal, que é o legado de longo prazo. É fácil para as organizações internacionais incentivar o desperdício ou a construção de estruturas pouco operacionais no futuro, instalações permanentes que são projetadas exclusivamente para atender às suas demandas. Mas isso pode não satisfazer os interesses mais amplos da comunidade local. Assim, a concepção das instalações permanentes deve se concentrar nas necessidades de longo prazo, que são geralmente de uma quantidade menor do que o necessário para os eventos. É por isso que a maioria dos grandes eventos são projetados com estruturas de “sobreposição” temporária entrelaçadas com as estruturas permanentes . Esta é uma maneira de garantir que as instalações permanentes sejam adequadamente projetadas para o longo prazo e não sejam sobrecarregadas com problemas de manutenção e custos operacionais. 

Como isso pode ser feito?

Hoje existem empresas que fornecem assentos temporários para uma série de grandes eventos ao redor do mundo. Para além de apenas fornecer componentes, o seu papel inclui o trabalho com as comissões da cidade para garantir que a curto prazo a demanda de pico seja resolvida. As instalações permanentes devem ser concebidas de uma forma que incluam as estruturas temporárias e, em seguida, a sua renovação para a configuração de longo prazo. A minha experiência diz que as instalações aquáticas são mais viáveis a longo prazo do que ginásios fechados ou grandes estádios. O número de usuários pagantes de um centro aquático torna-o mais fácil de gerenciar financeiramente. A solução é assegurar que essas instalações possam servir para uma variedade de outros tipos de eventos. Um estádio coberto por exemplo, pode ser usado para eventos musicais, comícios, eventos de marketing e de moda e assim por diante. Mesmo assim , é muito difícil gerar receita suficiente para mantê-los viáveis ​​ao longo do tempo. Devido aos custos de manutenção, o resultado comum é que os espaços públicos de maior dimensão sejam, então, reconstruídos como alojamentos ou edifícios comerciais, que tendem a ser investimentos atraentes quando há boa oferta de transportes na região.

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