Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

''É hora de o Brasil não pensar como adolescente''

Walter Russell Mead, especialista em política externa

Lisandra Paraguassu / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

"O Brasil já é um poder mundial, é hora de parar de pensar como um adolescente." O desafio é de um dos principais especialistas em política externa americana, Walter Russell Mead. Ele esteve em Brasília, na semana passada, e participou de seminário promovido pelo Centro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela Embaixada dos EUA sobre O Que Há de Novo na Ordem Global.

Membro do Council on Foreign Relations (CFR) e professor da Universidade Yale, Walter Russell disse ao Estado que a crescente importância do Brasil no cenário internacional é um dos assuntos que mais despertam sua curiosidade. "Mesmo as pessoas que são especialistas em política externa não têm uma resposta clara sobre o que o Brasil quer fazer com o seu papel de potência global."

Apesar das dúvidas, ele deixou o Brasil com a impressão de que a presidente Dilma Rousseff vai dar "a maturidade" necessária para que o País comece a se comportar "como um adulto" em matéria de relações internacionais.

A seguir, os principais trechos da entrevista:   A relação entre Brasil e EUA tem momentos de altos e baixos. No governo Lula houve divergências importantes, não apenas comerciais, como no caso da questão nuclear iraniana. Qual é, então, a visão que os EUA têm hoje do Brasil?

Nos EUA, cada vez mais as pessoas olham o Brasil à semelhança dos nossos aliados europeus: um país democrático, economicamente bem-sucedido, que compartilha a mesma visão dos EUA por ser pró-democracia, pró-direitos humanos, um país que busca um mundo pacífico. Podemos divergir do Brasil sobre este ou aquele tema de comércio, como nós às vezes discordamos da França ou da Alemanha. Mas essas divergências fazem parte de uma relação normal, uma relação entre países importantes. Acho que os EUA não pensam o Brasil apenas como um país latino-americano, ou um país em desenvolvimento. Houve uma mudança.

Quando se deu essa mudança?  Foi um processo brasileiro, construindo sua economia e sua democracia. Foi um processo gradual e lento. Eu diria que começou com com a presidência de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o sucesso do Plano Real. Avançou muito quando o presidente Lula (2003-2010) seguiu as políticas econômicas fundamentais estabelecidas por Fernando Henrique, mas mostrou que o Brasil se tornou uma democracia normal.

O que é uma democracia normal?

Uma democracia em que o poder muda pacificamente de um partido para outro e isso não significa uma revolução ou uma convulsão social. Agora, mais um passo do processo foi dado quando a presidente Dilma Rousseff substituiu Lula de maneira pacífica. As mudanças são parte da evolução. Isso tudo é típico de um padrão de democracia desenvolvida com sucesso. Então, nós olhamos para isso e, combinado com o crescente poder econômico do Brasil, notamos que o cenário se parece cada vez mais com o dos nossos aliados na Europa.

Mas o sr. já comentou que o Brasil quer ser uma potência mundial, mas não parece saber o porquê. Não sabe?

Quando você tem uma relação próxima com, vamos dizer, a Alemanha ou a Inglaterra, você consegue ter uma ideia muito clara sobre o que esses países querem do mundo, o que significa para eles ser consultado. Mas, quando olhamos para o Brasil, nós não temos a mesma sensação. O Brasil sabe o que quer quando diz "Nós queremos ser uma potência mundial", "Nós queremos que nos levem a sério". Mas, quando eu pergunto aos brasileiros o que isso significa para eles, mesmo as pessoas que são especialistas em política externa não têm uma resposta clara sobre o que o Brasil quer fazer com o seu papel de potência global.

Isso pode atrapalhar a relação entre Brasil e EUA?

Eu diria que não é um problema urgente, porque o Brasil e os EUA têm um bom relacionamento. Mas, com o passar do tempo, para que essa relação melhore e se aprofunde, nós também precisamos aprofundar nossas parcerias. Isso significa que o Brasil precisa entender o que é importante para os EUA e os EUA precisam entender o que é importante para o Brasil. Desse jeito, podemos identificar melhor os temas que podem ser trabalhados juntos. E o poder precisa ser ligado à responsabilidade.

Como assim?

Por exemplo: a Alemanha, depois da Segunda Guerra Mundial e outras experiências, definiu que tem vocação para construir a paz na Europa. E tem trabalhado muito duro e pago, muitas vezes, um alto preço econômico para fazer isso. A França tem certa vocação, assim como a Inglaterra.

Qual será a vocação do Brasil como um ator global cada vez mais importante? Nos últimos anos, o Brasil começou a ocupar mais espaço no cenário internacional. Foi um dos articuladores do G-20, trabalha para fortalecer os Brics, briga para aumentar o espaço dos países emergentes em organismos como o FMI e o Banco Mundial. Isso, de alguma forma, incomoda os EUA?

Acredito que, no passado, o Brasil se sentiu um pouco inseguro sobre seu status. Como um adolescente, que pergunta: "Eu sou mesmo um adulto, sou uma criança?" Era muito sensível ao que percebia como um insulto. E, como amigos do adolescente, nós temos sempre a esperança de que ele vá crescer, torne-se mais seguro e saiba que as outras pessoas pensam nele como um adulto. O Brasil já é um poder mundial, atingiu um novo patamar, é hora de parar de pensar como um adolescente. Precisa fazer a sua parte para fazer o mundo funcionar.

Há sinais de mudança?

Essa é a transformação necessária e a presidente Dilma Rousseff é um exemplo muito claro desse pensamento. Ela parece ter esse tipo de abordagem. Ela está menos preocupada com o que os outros pensam dela e muito mais preocupada em como ela dará uma contribuição construtiva. Aí é onde a maturidade do Brasil como potência vai ser de grande benefício para todo o mundo.

Então, a intervenção brasileira na questão nuclear iraniana, a tentativa de fechar um acordo, incomodou muito o governo dos EUA?

Minha opinião é esta: a intervenção brasileira e turca na questão iraniana não foi cuidadosamente pensada. Havia negociações sobre isso, negociações que estavam sendo feitas havia muito tempo, posições de vários países diferentes, não apenas dos EUA, mas também dos outros membros do Conselho de Segurança da ONU e da Alemanha, todos envolvidos. O Brasil meio que se atirou no assunto sem entender como os outros iam receber isso. E tudo acabou tristemente. Não só não resolveu a situação, como o Brasil não apareceu com uma resposta certa ou que pudesse oferecer algo novo. É disso que eu falo quando trato da necessidade de encontrar uma vocação e então ir atrás dela de uma maneira séria, intelectualmente forte e diligente. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro é um dos mais profissionais, é a diplomacia mais bem treinada em todo o mundo. Ter esse tipo de talento focado de uma maneira sólida em uma vocação do Brasil no mundo não seria bom apenas para os EUA, mas faria uma diferença no mundo.

O sr. diz que os EUA e o Brasil compartilham valores, visões de mundo, que o governo americano aprecia a postura mundial brasileira. Mas por que, então, não há um apoio formal à candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?

Os alemães nos fizeram a mesma pergunta. Nesse sentido, o Brasil está sendo tratado da mesma forma que é tratada a Alemanha. A maioria das pessoas nos EUA, e mais ainda no nosso governo, acredita que uma reforma no Conselho de Segurança tem de incluir o Brasil. Mas é complicado os EUA dizerem isso. O que isso faz com a nossa relação com o México? E com a Argentina? São dois países que não acreditam que o Brasil deve ser o representante da América Latina no Conselho da ONU. Nós também temos esse problema na África. É Nigéria, África do Sul ou ainda outro país? A região está dividida e se torna difícil para outros países fazerem uma determinação. O caminho do Brasil para o Conselho de Segurança terá, provavelmente, de passar por Buenos Aires ou Cidade do México. Não que algum deles tenha um veto, mas, de alguma forma, a proposta brasileira não deve ser vista como sendo "contra" os outros países da região. E, se não tiver o apoio, pelo menos que não tenha a oposição.

Os EUA, então, não se opõem?

Eu não trabalho para o governo americano, mas minha visão extraoficial é de que os EUA apoiam os interesses brasileiros. Nós gostaríamos que o Brasil tivesse um assento permanente. Nós não temos é muita certeza de como alguém negocia o caminho político até lá. O Brasil terá de tomar a liderança e transformar uma aspiração em uma possibilidade prática.

QUEM É

Um dos principais especialistas mundiais sobre a política externa americana, é membro fundador do conselho da New America Foundation e Brady-Johnson Distinguished Fellow em Estratégia, da Universidade Yale. Autor de diversos livros, escreve regularmente artigos sobre temas de relações internacionais para o Los Angeles Times, Wall Street Journal, Washington Post e Financial Times, entre outros veículos.

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